sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

-'Contra os Galileus ou Cristãos' por Flavius Claudius Iulianus

{Organizado e comentado em notas de rodapé por José Baracat Jr}.

Livro da Roma Antiga: "Contra os Galileus ou Cristãos" 

(Flavius Claudius Iulianus usou a palavra "Galileus", como em voga no início da Cristandade, para referir-se aos Cristãos que haviam surgido entre o povo seguidor na Galileia; e a palavra "Helenos", a partir do termo "Gentio", para referir-se aos adeptos de Religiões Pagãs, bem como da Antiga Religião ou Bruxaria). 

Autor: Flavius Claudius Iulianus 

(imperador romano que reconfigurou os Clãs sobreviventes da Bruxaria, no início da era cristã, em Pentarquia ou corte de Cinco Clãs e, portanto, foi chamado de "O Apostata" pelos primeiros Cristãos).

  
"Bom me parece expor, a todos os homens, as causas pelas quais fui convencido de que o engodo dos galileus é invenção de homens composta por vilania. Nada tendo de divino, tirando proveito da parte da alma que ama o fabuloso e que é infantil e irracional, levou a monstruosidade à de verdadeira. Como pretendo tratar de todos os chamados primeiros dogmas, o que desejo dizer primeiro é que os leitores, se de fato quiserem contradizer-me, não devem, exatamente como no tribunal, divagar sobre nada fora do assunto nem, como se diz, fazer a acusação antes que tenham defendido suas próprias opiniões. Assim, pois, é melhor e mais claro, quando desejem corrigir algo que tenhamos dito, que apresentem o assunto separadamente, mas que, nos temas que defendem de nossas censuras, não respondam com acusações. É válido retomar, brevemente, de onde e como nos chegou primeiramente uma noção de deus; depois, comparar as coisas que são ditas sobre o divino pelos helenos e pelos hebreus e, com isso, perquirir os que não são nem helenos nem judeus, mas são da seita5 dos galileus, por que escolheram ["haíresis", herege, ou seja, o imperador pagão acusava os Cristãos de heresiaas suas crenças em vez das nossas e, depois disso, questionar por que, com efeito, não permaneceram com aquelas, mas, afastando-se delas também, dirigiram-se para um caminho próprio. 

Embora não concordem com nenhuma das belas e importantes doutrinas, sejam as oriundas de nós, helenos ou gentios, sejam as dos hebreus descendentes de Moisés, eles extraem de ambos o que está ligado a esses povos como se fossem queres ou lâmias: da leviandade judaica, o ateísmo; e, da indolência e vulgaridade entre nós, uma vida baixa e negligente e a isso quiseram chamar a mais nobre teosebia. De que não é por ensinamento, mas por natureza que se dá o conhecimento de deus entre os homens, seja-nos uma primeira prova o desejo comum a todos os homens, particular e publicamente, como indivíduos e nações, concernente ao divino. Todos, com efeito, sem ensinamento, acreditamos em algo divino, acerca do qual não é fácil para todos conhecer com exatidão, nem possível, para os que o conhecem, comunicá-lo a todos com certeza, além dessa ideiacomum a todos os homens, há ainda uma outra. Todos, pois, dependemos do céu e dos Deuses que aparecem nele tão naturalmente, que, mesmo que outro homem concebesse um outro deus além desses, de qualquer maneira lhe designaria o céu como morada, sem separá-lo da terra, mas supondo que o rei de tudo, sentado num lugar mais honorável, por assim dizer, sobrevigia de as coisas daqui. 


Que necessidade tenho de chamar aqui helenos e hebreus como testemunhas? Não existe ninguém que não levante as mãos para o céu ao suplicar, e que não se volte para lá, quer jure por um deus, quer pelos Deuses, se tem uma noção genérica do divino. E não é estranho que tenham sentido isso. Pois, uma vez que viram que nenhum dos astros no céu aumenta, nem diminui, nem se altera, nem experimenta quaisquer irregularidades, mas que seu movimento é harmônico e sua ordem é melodiosa, e que as luzes da lua são determinadas, e que os nasceres e os pores do sol são determinados em estações determinadas, naturalmente conceberam o céu como um deus e o trono de um deus. Pois um ser desse tipo, não estando sujeito a aumento através de adição, nem diminuição através de subtração, estabelecendo-se fora de toda mudança relativa à alteração e à modificação, está puro da destruição e da geração, sendo imortal e indestrutível por natureza e livre de qualquer tipo de impureza; perpétuo e sempre-movente, como vemos, move-se em círculo ao redor do grande Demiurgo, quer seja movido por uma alma mais poderosa e mais divina que habita nele - assim como, creio, nossos corpos o são pela alma que há em nós -, quer receba seu movimento do próprio deus, circunda seu ciclo ilimitado em um movimento incessante e eterno.


Certamente os helenos inventaram mitos inacreditáveis e monstruosos sobre os Deuses. Disseram, com efeito, que Kronos engoliu os filhos e depois os vomitou. Falaram também de matrimônios ilegais: pois Zeus se relacionou com sua mãe e dela gerou uma filha com a qual ele mesmo se casou, ou melhor, sequer se casou, mas simplesmente relacionou-se com ela e depois a entregou a outro. Depois, as dilacerações de Dionizius e as junções de seus membros. Tais coisas contam os mitos dos helenos. Compara com eles o ensinamento judaico, o jardim plantado por deus, o Adão por ele moldado e, depois, a mulher que nasce para ele. Pois deus diz: “Não é bom que o homem seja sozinho: façamos para ele uma ajuda semelhante a ele”; mas ela não não o ajudou em nada, como ainda o enganou e se tornou, em parte, responsável pela queda, tanto dele próprio quanto de si mesma, para fora da bonança do jardim. Isso é completamente fabuloso. Pois como é razoável que deus desconheça que o ser criado por ele como ajuda surgiria não para o bem, mas antes para o mal de quem o recebeu? E que língua diremos ter empregado a serpente ao conversar com Eva? Será humana? E em que diferem esses mitos dos que foram inventados pelos helenos? E mais: não é exageradamente absurdo que deus negue, aos homens criados por ele, o discernimento do bem e do mal? Que poderia ser mais estúpido do que alguém que não é capaz de discernir o bem e o mal? Pois é evidente que não evitará umas, refiro-me às coisas más, nem seguirá outras, refiro-me às boas.


Em suma, deus negou ao homem provar da sabedoria, à qual nada poderia superar em valor para o homem. Que, pois, o discernimento do bem e do mal é um ato próprio da sabedoria, é evidente até mesmo aos néscios: assim, a serpente é antes uma benfeitora, e não uma corruptora do gênero humano. Além disso, deus deve ser chamado malicioso. Pois, quando viu que o homem tomara parte na sabedoria, para que não provasse da árvore da vida, diz, expulsou-o do jardim dizendo exatamente: “Olha, Adão se tornou tal como um de nós ao conhecer o bem e o mal. E agora que nunca estenda sua mão e tome da árvore da vida e coma e viva para sempre”. Entretanto, a menos que cada um desses mitos tenha uma explicação secreta, como acredito, os relatos sobre deus estão cheios de muitas blasfêmias. Pois desconhecer que a mulher criada como ajuda será a causa da queda; negar o conhecimento do bem e do mal, o que parece ser a única coisa que sustém a inteligência humana; e, acima de tudo, ser zeloso ou malicioso de que o homem, compartilhando da árvore da vida, passe de mortal a imortal, é demasiada inveja e malícia. Acerca das coisas em que eles acreditam verdadeiramente e que nossos pais nos transmitiram desde o começo, nosso discurso sustenta assim que demiurgo imediato deste cosmos. 


No que diz respeito aos deuses superiores a esse criador, Moisés não disse absolutamente nada, nem nada ousou dizer a respeito da natureza dos anjos; mas, que servem a deus, disse de muitas maneiras e muitas vezes, sem definir, entretanto, em parte alguma, se foram gerados ou se são não- gerados, se foram gerados por um deus e designados a servir outro. Todavia, acerca do céu e da terra e das coisas nela, descreve detalhadamente o modo como deus os ordenou. Ele diz que certas coisas, como a luz e o firmamento, deus ordenou que elas existissem, ao passo que outras ele criou, como o céu e a terra, o sol e a lua, e que as existentes, mas ocultas até então, ele separou umas das outras, como a água, creio, e a terra secaAlém disso, não ousou dizer nada acerca da geração ou acerca da criação do espírito, exceto isto: “E o espírito de deus se movia sobre a água”. Porém, se é não-gerado ou gerado, nada esclarece. Aqui, comparemos, se quereis, a palavra de Platão. Examina, portanto, o que ele diz sobre o Demiurgo e que palavras atribui a ele na cosmogonia, com o intuito de compararmos a cosmogonia de Platão e a de Moisés uma com a outra. Porque, assim, poderia revelar-se quem é melhor e quem é mais digno de deus, se Platão, que homenageou as ideias, ou aquele com o qual a Escritura diz que deus falou boca a boca


“No princípio, deus criou o céu e a terra. A terra era invisível e informe, e a escuridão era sobre o abismo, e o espírito de deus se movia sobre a água. E deus disse: ‘haja a luz’, e houve luz. E deus viu que a luz era boa. E deus dividiu ao meio a luz e ao meio a escuridão. E deus chamou à luz dia e chamou à escuridão noite. E surgiu a tarde e a surgiu a manhã, um dia. E deus disse: ‘Haja o firmamento no meio da água’. E deus chamou ao firmamento céu. E deus disse: ‘Junte-se a água debaixo do céu em um único lugar e veja-se a terra seca’. E assim sucedeu. E deus disse: ‘Produza a terra erva para pasto e árvore frutífera’. E deus disse: ‘Haja estrelas no firmamento do céu, para que sirvam de luminância sobre a terra’. E deus as colocou no firmamento do céu, para governarem o dia e a noite”Nessas passagens, Moisés não diz que o abismo, nem as trevas, nem a água, foram feitos por deus. Entretanto, uma vez que ele disse, sobre a luz, que ela surgiu após deus ter ordenado, certamente era necessário que o dissesse também sobre a noite, e sobre o abismo, e sobre a água. Ele, porém, nada disse sobre elas não serem já existentes, ainda que freqüentemente as mencione. Além disso, não faz menção à origem ou à criação dos anjos, nem ao modo como foram produzidos, mas apenas às moradas no céu e na terra, de modo que, segundo Moisés, deus não é o criador de nada incorpóreo, mas o ordenador da matéria pré-existente. Pois a afirmação “e a terra era invisível e informe” só pode dizer que ele faz da substância úmida e da seca a matéria, e que introduz deus como seu ordenador. 


Ouve o que Platão diz acerca do mundo: “O céu todo, ou o mundo – ou qualquer outro nome mais adequado: que seja assim chamado por nós –, acaso sempre existiu, não tendo nenhum princípio de origem, ou é originado, tendo principiado a partir de algum princípio? É originado: pois, ele é visível e tangível e possui um corpo. E todas as coisas de tal tipo são sensíveis, e as coisas sensíveis, sendo compreensíveis por meio da sensação, foi mostrado, são coisas que se originam e geradas...Assim então, segundo o raciocínio sensato, é necessário dizer que este mundo originou-se como um vivente animado e pensante, na verdade, pela Providência de Zeus”Apenas comparemos ponto a ponto: qual e que tipo de discurso faz o deus de Moisés e que tipo faz o Deus de Platão? “E deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem e à semelhança. E que eles prevaleçam sobre os peixes do mar, e sobre aves do céu, e sobre os rebanhos, e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis reptantes sobre a terra’. E deus fez o homem, e o fez à imagem de deus; e os fez masculino e feminino dizendo: ‘Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra e a dominai’. E que eles prevaleçam sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu, e sobre todos os rebanhos, e sobre toda a terra’”Ouve agora o discurso platônico, que ele atribui ao criador de todas as coisas. 


“Deuses dos Deuses, de cujas obras eu sou Demiurgo e Patrono, as quais, sendo minha vontade, serão indissolúveis. Com efeito, tudo o que foi unido é dissolúvel e, seguramente, desejar dissolver o que foi belamente ajustado e está bem é próprio mau. Por isso, pelo fato de serdes nascidos, não sois, portanto, imortais nem indissolúveis por completo, mas de maneira alguma sereis dissolvidos nem encontrareis destino de morte, uma vez que obtivestes a minha vontade, um liame ainda maior e mais poderoso do que aqueles pelos quais éreis ligados quando nascíeis. Agora, então, aprendei o que, demonstrando, vos digo. Restam ainda três gêneros mortais não-nascidos, e o céu será imperfeito, caso eles não nasçam. Pois não terá em si todos os gêneros de seres vivos. Mas eles, uma vez que fossem gerados por mim e tomassem parte na vida, igualar-se-iam aos Deuses. Então, a fim de que eles sejam mortais e que este universo seja verdadeiramente universal, voltai-vos, conforme a natureza, à criação dos seres vivos, imitando meu poder sobre a vossa criação. E a porção deles que convém ser homônima aos imortais, que é dita divina e que neles governa os que desejam seguir sempre a justiça e a vós, tendo-a semeado e principiado, eu transmiti-la-ei. E, quanto ao restante, vós, entrelaçando o mortal ao imortal, perfazei os seres vivos e os gerai, e fazei com que cresçam dando- lhes alimento, e os acolhei novamente, quando perecerem”.


Mas, para que não penseis ser isso um sonho, aprendei-o. Platão chama Deuses aos visíveis, o sol e a lua, as estrelas e o céu, mas esses são imagens dos invisíveis: o sol que é visto pelos nossos olhos o é do inteligível e que não é visto, e também a lua que é vista pelos nossos olhos e cada uma das estrelas são imagens dos inteligíveisPlatão sabe que esses Deuses inteligíveis e invisíveis são imanentes e coexistentes ao próprio Demiurgo, e que dele foram gerados e provieram. Com razão, portanto, nele, o Demiurgo diz “Deuses” referindo-se aos invisíveis, e “dos Deuses”, aos visíveis evidentemente. E esse é o Demiurgo comum a ambos, o que desenvolveu com sua Arte o céu, a terra, o mar e as estrelas, e os arquétipos destes originou nos inteligíveis. Observa, então, que o que vem depois também é belamente dito. Pois diz ele: “Restam três gêneros mortais”, evidentemente o dos homens, o dos animais e o das plantas; com efeito, cada um desses é determinado por definições próprias. Ele diz:  “Se, portanto, também cada um desses for engendrado por mim, seria absolutamente necessário tornarem-se imortais”. De fato, para os deuses inteligíveis e para o mundo visível, não nenhuma outra causa da imortalidade a não ser o fato de terem sido gerados pelo demiurgo. 


Portanto diz que “é necessário que o quanto há de imortal tenha sido dado a eles pelo criador”, isso é a alma racional. “Em relação ao restante”, diz ele, “vós entrelaçai o mortal ao imortal”. Então, é evidente que os deuses demiúrgicos [isto é, deidades menores ou titãs cuja função é de gênios pantocratas ou anjos caídos], recebendo de seu pai o poder demiúrgico, criaram sobre a terra os mortais dentre os seres vivos. Se, pois, nada houvesse que diferisse o céu de um humano e, por Zeus, de uma fera e, enfim, dos reptantes mesmos e dos peixinhos que nadam no mar, seria necessário que o demiurgo de todas as coisas fosse um só e o mesmo. Mas, se é grande a distância entre os imortais e os mortais, e ela não seria maior por nenhuma adição, nem diminuída por subtração, nem se mescla aos mortais e transitórios, convém que a causa de uns sejam uns e a de outros, outros. Por conseguinte, como parece que Moisés não disse tudo sobre o Demiurgo imediato deste mundo, contraponhamos então, uma à outra, a opinião dos hebreus e a de nossos pais acerca desses povos. Moisés diz que o Demiurgo do mundo escolheu o povo dos hebreus, que dedica-se somente a ele, com ele preocupa-se e a ele dirige sozinho seu zelo. Aos outros povos, de que maneira ou por quais deuses são governados, não fez nenhuma menção; a não ser que alguém esteja de acordo que a esses atribuiu o sol e a lua. Mas, a respeito deles, falarei um pouco depois. Demonstrarei apenas que esse deus é deus somente de Israel e da Judeia, e que o próprio Moisés diz que eles são os escolhidos, bem como o dizem os profetas depois dele e Jesus, o Nazareno, e também aquele que sobrepujou todos os feiticeiros e enganadores de todos os lugares e de todos os tempos: Paulo. 


Escutai os seus próprios dizeres, e primeiramente os de Moisés: “E tu dirás ao faraó: ‘Israel é o meu primogênito’. E eu disse: ‘deixa ir meu povo, para que ele me sirva. Tu, no entanto, não querias deixá-lo partir’”. E logo em seguida: “E dizem a ele: ‘o deus dos hebreus nos convocou. Seguiremos então pelo caminho do deserto durante três dias, para que ofereçamos sacrifício a deus nosso senhor’”. E, um pouco depois, novamente o mesmo: “O senhor deus dos hebreus me enviou junto a ti, dizendo: ‘deixa ir meu povo, para que me sirva no deserto”Mas, que deus zelou desde o início apenas pelos judeus, e que este povo foi escolhido como seu quinhão, não só Moisés e Jesus explicitamente disseram, mas também Paulo; embora isso seja digno de surpresa, no que diz respeito a Paulo. Pois ele, conforme as circunstâncias, muda suas opiniões acerca de deus assim como os pólipos alteram sua cor de acordo com a pedra, pois ora sustenta que apenas os judeus são o quinhão de deus; ora, quando por sua vez persuade os gregos a associarem-se a ele, diz: “Não apenas dos judeus é o deus, mas também dos gentios; sim, também dos gentios”. É justo, portanto, perguntar a Paulo: se esse deus não é apenas dos judeus, mas também dos gentios, por que causa enviou em abundância para os judeus o dom da profecia, e Moisés, e a unção, e os profetas, e a lei, e as coisas incríveis e prodigiosas de seus mitos? 



Pois tu os ouves exclamar: “O homem comeu o pão dos anjos”E, por fim, enviou Jesus para eles, mas, para nós, nenhum profeta, nenhuma unção, nenhum mestre, nenhum arauto que anunciasse que, no futuro - tarde, é verdade -, haveria, também para nós, sua filantropia. Mas ele desprezou, durante miríades de anos, ou quilíades, se vós preferis, aqueles que, em tal ignorância, adoravam ídolos, como dizeis, pessoas desde onde nasce o sol até onde ele se põe, e do norte ao sul, com exceção da pequena tribo que, não faz nem dois mil anos completos, assentou-se em uma só parte da Palestina. Se, pois, ele é o deus de todos nós e, da mesma maneira, o Demiurgo de todas as coisas, por que nos desprezou? Naturalmente, convém crer que o deus dos hebreus não é o criador do mundo inteiro, nem tem poder sobre todas as coisas, mas pensar que ele está restrito, como eu disse, possuindo uma autoridade limitada em meio a outros Deuses. Ainda daremos importância a vós porque vós, ou alguém de vossa gente, imaginastes o Deus de todas as coisas até uma noção certamente desprovida de raiz? Não é tudo isso parcialidade? Deus zeloso ou ciumento: ora, por que ele é zeloso, se pune os filhos pelos pecados dos pais? Mas, agora, analisai nossas crenças em oposição a essas. Os nossos dizem que o Demiurgo é o patrono e rei comum de todos os seres, e que as coisas restantes foram distribuídas por ele entre os Deuses gentios e protetores das cidades dos povos, e cada um deles rege a sua parcela do modo que lhe é próprio.

Pois, uma vez que no pai todas as coisas são perfeitas e todas elas formam uma unidade, mas nos Deuses parciais prevalece um poder diferenciado em cada um, Ares rege os povos belicosos, Atena aos belicosos dotados de sabedoria, Hermes aos que são mais sagazes do que corajosos: os povos regidos pelos Deuses seguem essência individual dos Deuses próprios a eles. Se, portanto, a experiência não atesta as palavras dos nossos, que as nossas crenças sejam uma ficção e uma convicção extemporânea, e que sejam louvadas as vossas! Mas, se tudo é o contrário do que nós dizemos, a experiência desde sempre atesta, e nada de maneira alguma parece ser consoante com vossas palavras, por que tamanha soberba mantendes? Que se me diga, pois, qual é a causa de os celtas e os germanos serem audaciosos; os gregos e os romanos, em geral, cívicos e benevolentes, além de firmes e guerreiros; os egípcios, mais sagazes e mais habilidosos; e os sírios, imbeles e delicados, além de sagazes, cálidos, vãos e bons para aprender. Pois, se uma pessoa não vê causa alguma dessa diferença nos povos, mas, ao invés, diz que elas ocorreram fortuitamente, como ainda considera ser o cosmo governado pela providência? Mas, se alguém sustenta que há causas para essas coisas, que me diga, em nome do próprio demiurgo, e me ensine. Pois é bem claro, quanto às leis, que a natureza dos homens as estabeleceu conformes a si mesma: leis cívicas e benevolentes por aqueles em que a benevolência fora entranhada maximamente, e leis agrestes e desumanas por aqueles em que natureza oposta preexistia e que originava neles caracteres opostos.


Pois os legisladores, pela sua liderança, acrescentaram pouco às naturezas e às tendências dos povos. Assim, os citas não receberam Anacarse [um príncipe cita que viajava em busca do conhecimento e que, ao retornar para a Trácia, foi morto pelos citas], quando possuídos por Baco; nem encontrarias, dentre os povos do Ocidente, salvo raras exceções, pessoas facilmente propensas à filosofia, à geometria ou algum estudo desse tipo, embora a hegemonia romana os domine já tanto tempo. Mas os demasiada e naturalmente dotados se deleitam somente com a conversação e a oratória, e de nenhum outro estudo participam. Assim forte parece ser a natureza. Qual é, então, a diferença nos caracteres e nas leis dos povos? Moisés deu uma causa completamente fabulosa para a dessemelhança dos idiomas. Pois disse que os filhos dos homens se reuniram desejando erigir uma cidade e, nela, uma grande torre, e que deus disse que era necessário descer e os seus idiomas confundir. E, para que ninguém me considere um sicofanta, em relação a isso, leremos o seguinte trecho dos livros de Moisés: “E disseram: ‘Vinde, erijamos para nós mesmos cidade e torre, cujo píncaro chegará até o céu, e façamos um nome para nós mesmos antes de sermos espalhados sobre a face de toda a terra’. E desceu o senhor para ver a cidade e a torre, a qual erigiram os filhos dos homens. E disse o senhor: ‘Olha, um é o povo e um é o lábio de todos, e isso começaram a fazer e agora nada os apartará das quantas coisas que se proponham fazer. Vinde, desçamos para lá e confundamos a sua língua, a fim de cada um não entender a voz do próximo’. E o senhor deus espalhou-os sobre a face de toda a terra e pararam de erigir a cidade e a torre”.


Então credes que nós devamos acreditar nessas coisas, enquanto que vós desacreditais do que foi narrado por Homeros sobre os Alóadas, a saber, como então três montanhas umas sobre as outras tencionavam colocar, “a fim de que o céu fosse escalável”. Pois eu afirmo que essa narração é quase tão fabulosa quanto aquela. Mas vós, uma vez que admitem a primeira, por que - pelos Deuses! - rejeitais o mito de Homeros? Penso, com efeito, que se deve calar, ante homens ignorantes, o fato de que, mesmo que todos os homens sobre todo o mundo habitado empregassem uma só voz e uma só língua, não poderiam erigir uma torre que alcançasse o céu, mesmo que transformassem toda a terra em tijolos; pois seriam precisos incontáveis tijolos de tamanho igual ao da terra inteira, para que possam chegar até a órbita da lua. Ora, suponha-se que todos os homens se reuniram empregando uma língua e uma voz, e que transformaram toda a terra em tijolos e a talharam: quando é que a torre chegaria tão longe quanto o céu, mesmo que estendessem, enfileirados, tijolos mais finos do que uma linha? Portanto, considerando verdadeiro isso que é manifestamente um mito, e sustentando sobre deus que ele se atemorizou com a sede de sangue dos homens e que, graças a isso, desceu para confundir seus idiomas - ainda ousais gabar-vos do vosso conhecimento de deus?


Portanto, como dizíamos, se não foi, no caso de cada povo, um Deus gentio regente e, sob sua autoridade, um anjo, um daemon, um herói ou uma espécie particular de almas subordinada e subagente aos Deuses superiores, que estabeleceu a diferença que há entre as leis e os caracteres, que se nos indique como ela foi originada por algo outro. Nem é satisfatório dizer: “Deus disse e houve”. Pois é necessário que as naturezas das coisas que se originam concordem com as ordens do Deus. Mas direi mais claramente o que quero dizer. Ordenou o Deus que, por acaso, o fogo fosse para o alto a terra para baixo? Para que a ordem do Deus ocorresse, não era necessário que um fosse leve e a outra pesasse? Assim, também com as outras coisas, é igual... e do mesmo modo também com as coisas divinas. Mas a causa é que o gênero dos homens é extinguível e perecedouro. Portanto, previsivelmente, suas obras também sejam perecedouras, mutáveis e totalmente alteráveis; mas, como deus subsiste eternamente, cabe que também suas ordens o sejam. E, sendo de tal tipo, ou são as naturezas dos seres, ou concordam com a natureza dos seres. Pois, como poderia a natureza lutar contra a ordem do Deus? Como seria possível que caísse fora da concordância? Assim, se de fato ordenou que as línguas se misturassem e não estivessem em consonância umas com as outras, do mesmo modo agiu com as constituições políticas dos povos, mas não por uma ordem somente as fez ser assim, nem preparou-nos para essa discordância.


Pois era necessário, primeiramente, que preexistissem naturezas diferentes nos povos que haviam de ser diferentes. Isso se vê, com efeito, se alguém olhar o quão diferentes são os corpos dos germanos e dos citas com relação aos dos líbios e etíopes. Será que isto é uma mera ordem e que nem o clima, nem a região cooperam com os deuses para determinar como é sua cor? Além do mais, Moisés omitiu isso conscientemente e não atribuiu a confusão dos idiomas somente a deus. Pois ele diz que deus não desceu [à terra] sozinho, mas que com ele desceram não só um, mas vários, embora não diga quem eram esses; ora, é evidente que supunha que os que desceram eram semelhantes ao Deus. Portanto se, para a confusão dos idiomas, não desceu somente o Senhor, mas também desceram os que estavam com ele, é bastante claro que, na confusão dos caracteres, não apenas o Senhor, mas também aqueles que com ele confundiam os idiomas seriam, com razão, considerados os responsáveis dessa divisão. Por que, então, sem desejar falar muito, discutis tantas coisas? Porque, se o Demiurgo imediato do universo for o anunciado por Moisés, nós teríamos opiniões melhores sobre ele, uma vez que supomos que ele é o soberano comum de todas as coisas e que os outros são Deuses gentios, encontrando-se abaixo dele e sendo como que subchefes de um rei, exercendo cada um de forma diferente sua autoridade; também não o colocamos como um rival dos deuses estabelecidos abaixo dele.


Mas se Moisés, honrando a um deus particular, atribui a ele a hegemonia do universo, é melhor reconhecer, como nós acreditamos, ao Deus do universo, não ignorando àquele, do que honrar ao que obteve a hegemonia de uma pequena parte ao invés do Demiurgo de todas as coisas. É surpreendente a lei de Moisés, o tal decálogo: “Não roubarás, não matarás, não darás falsos testemunhos”. Ora, que se escreva, com as mesmas palavras, cada um dos mandamentos que ele diz terem sido escritos pelo próprio deus: “Eu sou o senhor teu deus, aquele que te trouxe da terra do Egito”. E, depois disso, o segundo: “Não haverá para ti outros deuses além de mim. Não produzirás para ti ídolo”. E acrescenta a causa: “Eu sou o senhor teu deus, um deus zeloso, que transmite o pecado dos pais aos filhos até a terceira geração”. “Não tomarás o nome do senhor teu deus em vão”. “Lembra-te do dia dos sabás”. “Honra ao teu pai e à tua mãe”. “Não cometerás adultério”. “Não matarás”. ”Não roubarás”. “Não darás falsos testemunhos”. “Não desejará as coisas do teu próximo”Que povo – pelos os Deuses! – que, com exceção do “Não adorarás outros deuses” e do “Lembra-te do dia dos sabás”, não pense ser necessário guardar os demais mandamentos? Porque também há castigos estabelecidos para os transgressores, em alguns casos mais severos, em outros próximos aos decretados por Moisés, e também ocasião em que são mais humanos.


Mas o “Não adorarás outros deuses”, sem dúvida o diz, a respeito de deus, com uma grande acusação. “Pois sou um deus zeloso”, diz; e novamente em outro lugar: “Nosso deus é um fogo que consome”. Então, um homem zeloso e malicioso te parece digno de censura, mas o endeusarias, se deus é dito zeloso ou ciumento? Ora, como pode ser razoável mentir a respeito do Deus em assunto tão evidente? Pois, se é zeloso, contra sua vontade todos os Deuses são adorados e todos os demais povos adoram aos seus Deuses. Então, como não os rechaça, sendo ele próprio assim zeloso e não querendo que se adorem os outros, mas somente a ele? Acaso, então, não era capaz disso ou não quis, desde o princípio, impedir que outros Deuses também fossem adorados? Mas a primeira explicação, dizer que não era capaz, é ímpia; e a segunda concorda com nossas ações. Afastai essa tolice e não tragais sobre vós mesmos tamanha blasfêmia. Pois, se ele não deseja que nenhum deus seja adorado, por que adorais esse seu filho bastardo, que ele nunca julgou nem considerou como seu próprio filho? Ora, o mostrarei facilmente. Vós, não sei de onde, imputais-lhe um suposto filho... Em lugar algum deus aparece enfurecendo-se, nem irritando-se, nem enraivecendo-se, nem jurando, nem inclinando-se para uma ou outra opinião rapidamente..., como nos diz Moisés sobre Fineias. Se alguém de vós leu os Números sabe o que digo.


Pois, quando Fineias, capturando com sua própria mão o homem consagrado a Beelfegor e também a mulher que o persuadiu, o matou e, com uma ferida vergonhosa e dolorosíssima através do ventre, depois de ter golpeado a mulher, Moisés nos conta e faz deus dizer: “Fineias, filho de Eleazar, filho de Aarão o sacerdote, afastou a minha ira dos filhos de Israel, ao zelar o meu zelo entre eles. E eu não consumi os filhos de Israel no meu zelo ou ciume”. Que é mais leviano do que a causa pela qual o Deus é inveridicamente representado como irritado por aquele que escreveu isso? E que é mais irracional, se dez ou quinze pessoas - que sejam cem, pois certamente não dirão que eram mil -, ora, suponhamos nós que tantos ousaram transgredir alguma das leis instituídas por deus: era necessário que, por causa de mil, seiscentos mil fossem destruídos? A mim, parece-me melhor, sob todos os aspectos, preservar um homem mal dentre mil homens melhores, do que destruir os mil por causa de um só... Pois, se mesmo a fúria de um único herói ou a de um daimon insignificante é insuportável para regiões e cidades inteiras, quem resistiria à de um deus tamanho, quer furioso com daimones, quer com anjos ou homens? É meritório compará-lo com a amabilidade de Likourgus, com a resignação de Solon, ou equidade e gentileza dos romanos com os transgressores. E quão melhores do que as deles de fato são as nossas doutrinas, observai a partir disto.


Os filósofos nos incitam a imitar os Deuses segundo nossa capacidade, e essa imitação está na contemplação dos seres. E que isso acontece sem vaidade ou paixão e que se baseia na impassibilidade, está claro mesmo sem que eu o diga; então, na proporção em que nos tornamos impassíveis, postos em contemplação dos seres, nessa mesma proporção nos assemelhamos ao Deus. Mas qual é a imitação de deus louvada entre os hebreus? Fúria, ira e zelo selvagem. Pois diz: “Fineias afastou a minha ira dos filhos de Israel, ao zelar o meu zelo entre eles”. Pois deus, tendo descoberto alguém que se irritava e sofria com ele, claramente deixa de lado sua irritação. Faz-se Moisés dizer essas palavras e outras do tipo sobre deus, em não poucos lugares da escritura. Que deus não se ocupou apenas dos hebreus, mas, cuidando de todos os povos, não concedeu àqueles nada de importante nem de grandioso, enquanto que a nós concedeu coisas muito superiores e distintivas, examinai-o a partir do seguinte. Com efeito, também os egípcios, contando não poucos nomes de sábios entre eles, podem dizer que possuem muitos sucessores de Hermes – refiro-me ao Hermes Trismegistos que visitou o Egito; e os caldeus e também os assírios, de Oannes de Belos; e os helenos, incontáveis  sucessores de  Kheíron.


Por isso, todos os helenos nasceram com natural aptidão para  os Mistérios  e para  a  teologia, pelo  que os hebreus parecem venerar apenas as suas próprias coisas... Mas deu-vos o princípio de alguma ciência ou saber filosófico? De que tipo? Pois a Astrologia foi aperfeiçoada pelos helenos a partir das primeiras observações realizadas pelos bárbaros na Babilônia; e a ciência da Geometria teve seu princípio na geodesia desenvolvida no Egito e se desenvolveu até tamanha grandeza; a Numerologia teve início com os mercadores fenícios e, no decorrer do tempo, recebeu dos helenos a dignidade de uma ciência. Essas três, com efeito, os helenos combinaram com a Música criando uma única, tendo unido a Astronomia com a Geometria e ligando essas duas à Aritmética ou Numerologia, e compreendendo a enarmonia nelas. Disso, estabeleceram as notas para a sua Música, uma vez que, no que diz respeito ao sentido da audição, descobriram uma concordância infalível das razões harmônicas, ou algo muito perto disso. Portanto, devo eu nomear homem por homem ou segundo a profissão? Nomear homens, como Platão, Sócrates, Aristides, Címon, Tales, Likourgus, Agesilau, Arquidamus – ou seria melhor pelo grupo dos filósofos, o dos generais, o dos artesãos, o dos legisladores?


Pois descobrirão que os mais malvados e perversos dos generais usaram de mais equidade para com os que cometeram os maiores erros do que Moisés para com os que nenhum erro cometeram. E de qual monarquia eu vos devo informar? A de Perseus, ou a de Eacus, ou a de Minos de Creta, que purificou o mar infestado pela pirataria, expulsando e rechaçando os bárbaros até a Síria e a Sicília, e que, tendo expandido as fronteiras de seu império em ambas as direções, reinava não apenas sobre as ilhas, mas também sobre as regiões costeiras? E tendo dividido com seu irmão Radamantos não apenas a terra, mas também o cuidado dos homens, estabelecia ele mesmo as leis, recebendo-as de Zeus, e incumbiu àquele preencher a parte judicial... Mas como, depois de fundada, muitas guerras a assolaram – ela, entretanto, prevalecia e vencia a todas e, ao crescer mais, pelos mesmos motivos necessitava de maior segurança –, então Zeus enviou para a cidade o maior filósofo de todos, Numa Pompilius. Ele era o excelente e nobre Numa, que passava seu tempo em bosques ermos e sempre em companhia dos Deuses, de acordo com seus pensamentos puros. Ele estabeleceu a maioria das leis sacerdotais. Essas coisas certamente procediam da possessão e da inspiração divinas tanto de Sibila e quanto de outros que pronunciaram oráculos naquele tempo em sua língua pátria, e é manifesto que foram dadas por Zeus à cidade. O escudo caído do ar e a cabeça surgida na colina, de onde, penso, o trono do grande Zeus recebeu seu nome, nós os devemos contar entre os presentes primários ou entre os secundários?


Então, ó homens desgraçados, sendo preservada entre nós a arma caída do céu, que nos enviou o grande Zeus ou o patrono Ares e que nos garantia, não em palavras, mas em feitos, de que para sempre segurará o escudo diante de nossa cidade, deixais de prostrar-vos diante dela e de venerá-la, mas vos prostrais diante da madeira da cruz, desenhando imagens dela no rosto e inscrevendo-as nas fachadas de suas moradas. Poderia alguém devidamente odiar os mais sagazes dentre vós ou ter pena dos mais tolos que, ao seguir-vos, chegaram a uma ruína tão grande a ponto de, tendo abandonado os Deuses eternos, trocarem-nos pelo cadáver dos judeus? Pois deixo de lado os Mistérios da Mãe dos Deuses e invejo MariusPois, o espírito que provém dos Deuses para os homens é raro e ocorre em poucos, e não é com facilidade que todo homem participa dele, nem em toda ocasião. Por isso, certamente, faltou o espírito profético entre os hebreus, e com certeza tampouco entre os egípcios se manteve até o presente. E parece que os oráculos autóctones silenciaram com as voltas dos tempos. Em relação a isso, com efeito, nosso filantropo Senhor e Pai Zeus, depois de refletir para que não fossemos completamente privados da comunhão com os Deuses, deu-nos a investigação através das artes sagradas, pelas quais teremos ajuda suficiente para as nossas necessidades.


Quase me esqueci do maior dos presentes de Helios e Zeus, mas naturalmente o guardei para o final. E de fato não é próprio de nós apenas mas, creio, é comum também aos helenos, nossos parentes. Pois Zeus engendrou, entre os inteligíveis e a partir de si mesmo, a Asclepios e o revelou para a terra através da vida de Helios gerador. Ele, tendo feito sua progressão do céu até a terra, manifestou- se de modo singular nos arredores de Epidauro na forma de homem e, a partir daí, multiplicando-se em suas progressões, estendeu sobre toda a terra sua destra salvadora. Foi à Pérgamo, à Jônia e, depois, à Tarento, e mais tarde veio à Roma. Rumou para Cos e, dali, para Egas. Em seguida, está em toda parte da terra e do mar. Não se dirige a nenhum de nós individualmente e, no entanto, corrige as almas postas em desarmonia e os corpos que estão enfraquecidosQue tipo de coisa os hebreus se vangloriam de ter recebido de deus, uma vez que sois persuadidos a desertar-nos por eles? Se pelo menos tivésseis vos apegado às palavras deles, não seríeis tão infelizes, mas, mesmo que pior do que antes, quando estáveis conosco, pelo menos seríeis suportáveis, toleráveis. Pois, em vez de muitos, estaríeis venerando um único deus, não um homem, ou melhor, muitos homens desafortunados.


E, ainda que empregásseis uma lei rude e truculenta, que contém muito de selvagem e de bárbaro, em vez das nossas, razoáveis e filantrópicas, seríeis inferiores em outras coisas, mas mais limpos e mais puros nos cultos. Entretanto, agora, dá-se convosco o mesmo que com as sanguessugas, sugar o pior sangue e deixar o mais puro. E Jesus, que convenceu a pior parte de vós, é conhecido por pouco mais de trezentos anos, sem ter feito coisa alguma digna de nota durante o tempo que viveu, a menos que alguém pense que curar aleijados e cegos, e exorcizar demônios nas aldeias de Betsaida e de Betânia estejam entre coisas grandessíssimas. Mas, de sua limpidez, não sabeis se ele fez menção; porém invejais as cóleras e o amargor dos judeus, revirando templos e altares, e degolastes não apenas aqueles dentre nós que continuaram com as tradições de gentios, mas até mesmo, dentre aqueles de vós que igualmente se perderam, os heréticos que não lamentam o cadáver da mesma maneira. Contudo, essas coisas são mais vossas: pois em nenhum lugar Jesus vos legou essas ordens, nem Paulo. O motivo é que eles não esperaram que vós chegaríeis a tamanho poder; porque se contentavam, se enganavam lacaias e escravos e, por meio deles, mulheres e homens como Cornelius e Sergius. Caso seja mostrado que um único dos escritores reconhecidos daquele tempo os mencionou  essas coisas aconteceram no tempo de Tiberius ou de Claudius –, pensai que minto a respeito de tudo.


Ora, não sei de onde me inspirei, por assim dizer, para dizer isso, mas volto ao ponto de onde parti, que é: “por que nos desertastes pelos judeus, desagradecendo os nossos Deuses?” Acaso porque os Deuses concederam a Roma reinar, mas aos judeus serem livres por pouco tempo e serem escravos e estrangeiros para sempre? Observa Abraão: não era estrangeiro em terra estranha? A Jacó: não foi escravo primeiramente na Síria, depois disso na Palestina e, na velhice, no Egito? Não diz Moisés que os conduziu da casa da escravidão, do Egito, com braço elevado? E, depois de estabelecerem-se na Palestina, não mudaram suas sortes com mais freqüência do que o camaleão à sua cor, segundo dizem aqueles que o observaram, ora obedecendo a juízes, ora sendo escravos de estrangeiros? Mas, quando passaram a ter um rei – que fique de lado, agora, como: pois deus não assentiu voluntariamente que eles fossem governados por um rei, como diz a escritura, mas depois de ter sido forçado por eles e de ter determinado que seriam perversamente governados por um rei. Todavia, eles habitaram sua terra e a lavraram por pouco mais de trezentos anos. Depois disso, foram escravos dos Assírios, então dos Medos, mais tarde dos Persas e agora, por fim, de nós romanos. Mesmo o Jesus proclamado por vós era um dos súditos de César. Se não acreditais, daqui a pouco o mostrarei; ou melhor, que seja dito já. Ora, dizeis que ele foi registrado com seu pai e sua mãe sob Cirenius. Mas, tornando-se homem, por quais bens para sua gente fez-se responsável? Pois, dizem, não quiseram obedecer a Jesus. Quê? Como esse povo de coração duro e pescoço de pedra obedeceu a Moisés? 


Mas Jesus, o que comanda espíritos, caminha sobre o mar, expulsa demônios e, como vós dizeis, criou o céu e a terra – pois, com efeito, nenhum dos apóstolos ousou dizer tais coisas a seu respeito, a não ser João apenas, e sequer ele próprio clara e distintamente; entretanto, conceda-se que ele o disse –, não era capaz de mudar as escolhas de seus amigos e de sua gente para sua salvação? Esses assuntos também ficam para um pouco mais tarde, quando começarmos a examinar propriamente as ações milagrosas e a elaboração dos evangelhos. Agora, no entanto, respondei-me isto. É melhor ser continuamente livre e por dois mil anos inteiros governar a maior parte da terra e do mar ou ser escravo e viver para ordens alheias? Ninguém é tão impudente a ponto de preferir o segundo. Mas alguém pensará que, na guerra, vencer é pior do que ser vencido? Alguém é estúpido a esse ponto? Se essas coisas que dizemos são verdadeiras, mostrai-me um único general entre os hebreus à altura de Alexandre, um único à altura de César. Pois, certamente, não há. No entanto, pelos Deuses, bem sei que insulto os homens, tendo-os mencionado por serem conhecidos. Pois os generais que são inferiores a eles são desconhecidos da maioria, mas cada um deles é mais admirável do que todos os generais nascidos entre os hebreus juntos. Mas a instituição do estado, o tipo de tribunais, a economia das cidades e a beleza das leis, o avanço nos estudos e o exercício das artes liberais entre os hebreus não são sofríveis e bárbaros? 

E, entretanto, o perverso Eusébio quer que haja alguns hexâmetros entre eles e se orgulha que a lógica era uma prática entre os hebreus, porque escutou seu nome entre os gregos. Que espécie de medicina se manifestou entre os hebreus como, entre os Gregos, a de Hippocrates e a de algumas outras escolas depois dele? O sapientíssimo Salomão é páreo para Focilides, ou Teognis, ou Isócrates? De onde? Se comparares as exortações de Isócrates com os provérbios dele, descobririas, tenho certeza, que o filho de Teodorus é superior ao sapientíssimo rei. Mas ele, dizem, também praticou a teurgia. E daí? Também esse Salomão não adorou aos nossos Deuses [Salomão também adorava a Deusa Estelar, Astarte], enganado por sua mulher, como dizem? Que grande virtude! Que riqueza de sabedoria! Não resistiu ao prazer, e palavras de mulher o desviaram! Portanto, se ele foi enganado por uma mulher, a esse não chameis sábio. Ora, se estais convencidos de que ele é sábio, não acrediteis que ele foi enganado por uma mulher, mas que, convencido por juízo e entendimento próprios e pelo ensinamento provindo do Deus que se lhe revelou, adorou a outros Deuses também. Pois o ciúme e o zelo não chegam até os melhores homens, na mesma proporção em que estão ausentes dos Anjos e dos Deuses. Contudo, vós vos voltais para poderes parciais, aos quais, se alguém chamasse demônicos, não erraria. Pois há, aqui, orgulho e vaidade, ao passo que nada disso existe entre os Deuses.


Por que motivo vós mordiscais os ensinamentos dos helenos, se a leitura das vossas escrituras é suficiente? Entretanto, é melhor afastar os homens desses ensinamentos do que da carne dos sacrifícios. Pois por ela, como também Paulo diz, em nada é injuriado aquele que a recebe, mas a consciência do irmão que poderia escandalizar-se, segundo vós, ó sapientíssimos e orgulhosíssimos. Todavia, por meio desses ensinamentos, afastou-se do ateísmo tudo o que entre vós a natureza trouxe de nobre. Aquele em quem existia qualidade inata, mesmo que uma pequena porção, afastou-se do vosso ateísmo. Melhor, portanto, afastar os homens dos ensinamentos, mas não das vítimas sacrificiais. Mas vós também sabeis, como me parece, a diferença de entendimento dos vossos escritos em comparação com os nossos e que, a partir dos vossos, nenhum homem nobre surgiria, ou melhor, sequer um razoável, ao passo que, a partir dos nossos, todo homem poderia tornar-se melhor do que si mesmo, mesmo que seja totalmente sem qualidade natural. Mas, tendo o bem da natureza e obtendo a educação desses ensinamentos, torna-se sem dúvida uma dádiva dos deuses para os homens, seja por acender a luz da ciência, seja liderando uma espécie de estado, seja derrotando muitos  inimigos,  seja avançando por muita terra  ou por muito mar e, por isso, a prova disso é clara: escolhei dentre todos os vossos filhos e exercitai-os em vossas escrituras. Se algum se mostrar melhor que os escravos ao tornar-se homem, considerai que eu digo tolices e tenho a bílis negra.


Além disso, sois tão desgraçados e insensatos que chamais divinos àqueles tratados pelos quais ninguém pode fazer a si mesmo mais sensato, valente e melhor; ao contrário, aqueles pelos quais é possível adquirir a valentia, a inteligência e a justiça, esses os atribuis a Satanás e aos que "adoram Satanás"Asclepios cura os nossos corpos, às nossas almas educam as Musas com Asclepios, Apollon e o eloquente Hermes; Ares e Enius lutam conosco na guerra, Hephaistos distribui e reparte o relativo à Arte, e a virgem Atena, sem mãe, a tudo isso preside ao lado de Zeus. Investigai, então, se não somos superiores a vós em cada uma dessas coisas – falo das artes, da sabedoria e da inteligência. Investigai tanto as artes utilitárias quanto as imitativas que almejam o belo, como a estatuária, a pintura ou a administração de uma casa, e ainda a medicina de Asclepios, cujos oráculos estão por toda a terra e nos quais nos concede o Deus participar sem cessar. Por exemplo, Asclepios me curou muitas vezes, quando estava enfermo, prescrevendo-me remédios: e disso Zeus é testemunha. Portanto, se não abraçando o espírito de apostasia estamos melhor no que se refere à alma, ao corpo e aos assuntos externos, por que abandonando esses nossos ensinamentos caminhais em direção daqueles? E, se não abandonastes a nenhum dos tratados dos hebreus, por que não amais a lei que deus lhes deu, abandonando os costumes gentios ou pátrios e o que proclamaram os profetas, pois vos distanciastes mais do ensinamento deles que dos nossos?


Porque, se alguém investigar a verdade sobre vós, encontrará que vossa impiedade é composta pela audácia dos judeus e pela indiferença e vulgaridade dos gentios. Pois, tomando de cada um, não o mais belo, mas o pior, fizestes um tecido de males. Isso porque os hebreus possuem leis estritas referentes ao culto, e seus rituais e preceitos são inumeráveis e requerem a vida e a profissão sacerdotal. Quando o legislador os proibiu de adorar todos os Deuses, com exceção de um cuja “porção é Jacó, e Israel sua parte da terra em herança”, não disse isso, mas acrescentou, creio eu: “Não injuriarás aos Deuses”. No entanto, a maldade e a audácia de seus sucessores, que queriam arrancar do povo toda a reverência, pensou que o não prestar culto fosse sinônimo de blasfemar. Isto, de fato, é a única coisa que tomastes, porque, quanto ao resto, nada tendes de parecido com os judeus. Assim, pois, das novidades dos judeus, arrancastes o blasfemar contra os Deuses honrados entre nós; de nosso culto, ao contrário, abandonastes a reverência à natureza superior e o amor aos costumes pátrios, e somente adquiristes o comer tudo como “verduras de forragem”. E, se é preciso dizer a verdade, vos vangloriais de sobrepujar a nossa vulgaridade: creio que isso acontece com todos os povos e é muito natural; e credes adaptar vossos costumes às vidas dos homens comuns, pastores, publicanos, dançarinas e libertinos.


É evidente que não os de agora são homens desse tipo, mas também os do início, os primeiros a receber o ensinamento de Paulo, já que o próprio Paulo o testemunha ao escrever-lhes. A menos que soubesse terem cometido tais atos, penso eu, ele não seria tão despudorado. Mesmo o escrito contendo tantos elogios sobre eles, que, se verdadeiros, seria necessário corar, e, se falsos ou inventados, calar-se para escapar à impressão de comportar-se com adulação libertina e trejeitos impróprios de homem livre. Eis o que Paulo escreve aos seus ouvintes a respeito deles mesmos: “Não vos enganeis; nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os afeminados, nem os que compartilham seu leito com homens, nem ladrões, nem os ambiciosos, nem os bêbados, nem os injuriosos, nem os saqueadores herdarão o reino de deus. E não ignoreis, irmãos, que também vós sois assim. Mas vos purificastes e santificastes no nome de Jesus Cristo”. Vês como afirma que esses homens nasceram assim, mas foram santificados e purificados, tendo a água o poder suficiente de lavar e limpar o que penetrou até à alma? E o batismo não tirará a lepra do leproso, as úlceras, as pústulas, as verrugas, a disenteria, a hidropisia, as manchas ou algum defeito do corpo, seja pequeno ou grande? Não arrancará os adultérios, as rapinagens e, em uma palavra, todas as transgressões da alma? Já que afirmam que se diferenciam dos judeus atuais, mas que são israelitas, seguem seus profetas e obedecem especialmente a Moisés e aos profetas que o sucederam na Judeia, vejamos em que concordam especialmente com eles.


Devemos começar precisamente pelo que se refere a Moisés, o qual, dizem, vaticinou o futuro nascimento de Jesus. Assim, pois, Moisés não uma vez, nem duas, nem três, mas muitas vezes manda cultuar um só deus e a nenhum outro, ao qual chama altíssimo; fala de anjos, de senhores e, sem dúvida, também de outros deuses, mas elege o primeiro e não concebe nenhum outro em segundo lugar, nem semelhante, nem diferente, ainda que vós o tenhais fabricado. E se, por acaso, existe entre vós sobre esse tema uma manifestação de Moisés, é justo que a pronuncieis. Pois aquilo de “o senhor nosso deus levantará para vós um profeta como eu dentre vossos irmãos; escutai-o” não se refere precisamente ao que nasceu de Maria. E se alguém o concedesse à vossa causa, Moisés diz que será semelhante a ele, mas não a deus, será um profeta como ele e procedente dos homens, mas não de deus. E aquilo de “não faltará o cetro da Judeia nem o báculo de seus pés” não se diz com referência especialmente a ele, mas à casa real de Davi, que terminou certamente com o rei Sedecias. E, com efeito, a escritura tem um duplo sentido ao dizer “até que chegue o que está reservado para ele”, mas vós o haveis interpretado mal como “até que chegue ele para quem está reservado”. É evidente que nada disso corresponde a Jesus, uma vez que ele não procede de Judá. Como poderia proceder se, segundo vós, não nasceu de José, mas do espírito santo? Fizestes remontar a genealogia de José a Judá, mas sequer isso inventastes bem, visto que Mateus e Lucas, em desacordo um com o outro sobre a própria genealogia, refutam-se mutuamente.


Sobre isso, já que vamos examinar escrupulosamente a verdade no segundo livro, passemos por alto. Mas admitamos que se diz “cetro de Judá”, e não “deus nascido de deus”, segundo o que vós dizeis, nem que “tudo nasceu por ele, e sem ele nem uma coisa nasceu”. Mas também em Números se diz: “Surgirá uma estrela de Jacó e um homem de Israel”. Que isso corresponda a Davi e a seus sucessores é evidente, pois Davi foi filho de Isaí. Dessa forma, se a partir desses textos tentais demonstrar algo, mostrai-me uma frase tirada daí de onde eu tirei muitas. Que creram em um deus, no de Israel, o diz o Deuteronômio: “Para que saibas que o senhor teu deus é um deus e não há outro deus exceto ele”. E ainda acrescenta: “E reflete em teu espírito que o senhor teu deus é o deus que está em cima no céu e abaixo na terra e não existe outro deus além dele”. E em outra ocasião: “Escuta, Israel, o senhor nosso deus é um senhor”. E de novo: “Vede que eu sou e não outro deus além de mim”. Assim, pois, Moisés disse isso insistindo que existe um deus, mas estes, quem sabe, dirão: “tampouco nós dizemos que existam dois ou três”; mas eu demonstrarei que o dizem tomando por testemunha a João, quando diz: “No princípio era a palavra e a palavra estava junto de deus e a palavra era deus”Vê-lo afirmar que estava junto de deus? Seja o que nasceu de Maria, seja algum outro – para que a tempo responda também a Fotino –, isso agora em nada se diferencia. Deixo, certamente, essa batalha para vós. Sem dúvida, basta comprovar que diz “junto a deus” e “no princípio”. Como, então, isso concorda com a doutrina de Moisés
Mas concorda, dizem, com os ensinamentos de Isaías. Diz, pois, Isaías: “Eis que a virgem no ventre levará e dará à luz um filho”


Que isso seja também uma afirmação sobre um deus, que algo de modo algum declarado; seguramente não era virgem a mulher que estava casada e que, antes de dar à luz, havia se deitado com seu esposo; mas conceda-se o que se diz sobre ela – acaso diz Isaías que da virgem haverá de nascer um deus? E vós, por que não cessais de chamar a Maria mãe de deus, se em nenhum lugar Isaías diz que o nascido da virgem é o “filho unigênito de deus” e o “primogênito de toda criação”? Ao menos o dito de João, “Tudo nasceu através dele e sem ele uma única coisa não nasceu”, pode alguém mostrá-lo nas palavras dos profetas? Escutai, pois, a seguir, o que nós assinalamos a partir desses mesmos profetas: “Senhor, nosso deus, possui-nos, além de ti nenhum outro conhecemos”. E Ezequias, o rei, é representado por eles orando: “Senhor, deus de Israel, que estás sentado sobre os querubins, tu és o deus único”. Acaso isso concede espaço para o segundo deus? Mas, se a palavra, segundo vós, é deus oriundo de deus e nasceu da substância do pai, por que dizeis que a virgem é mãe de deus? Como, pois, segundo vós, sendo ela humana, poderia gerar um deus? E, além disso, quando deus disse claramente “Eu existo e não quem salve fora de mim”, vós vos atreveis a chamar salvador o filho dela? E que Moisés chama Deuses aos Anjos, escutai dele suas próprias palavras: “E vendo os filhos de deus que as filhas dos homens eram belas, estes tomaram por suas mulheres as que dentre todas escolheram”


E um pouco mais abaixo: “E, depois disso, quando os filhos de deus penetraram nas filhas dos homens, e elas geraram para eles filhos; estes foram os gigantes, célebres desde a eternidade”. Ora, que Moisés se refere aos Anjos, é evidente, e o mesmo não se impinge de fora, mas, pelo contrário, a partir do seu dizer claro de que não homens, mas gigantes, nasceram deles. Pois parece óbvio que, se Moisés verdadeiramente tivesse considerado os homens serem os pais dos gigantes, e não alguém de uma natureza melhor e mais forte, ele não teria dito que dos homens nasceram os gigantes; pois me parece ter ele declarado que a raça dos gigantes é composta da mistura do mortal e imortal. Então, Moisés que chama os muitos filhos de deus, e não os chama homens mas Anjos, não poderia ter revelado para os homens, se verdadeiramente tivesse conhecido o Deus, a palavra unigênita, ou o filho de deus ou como o chamais? E porque não considerava isso importante, sobre Israel disse: “Israel é meu filho primogênito”? E por que Moisés não disse isso sobre Jesus? Moisés ensinava que havia um e único deus, mas deus tinha muitos filhos que dividiram entre si as nações. Mas a palavra como sendo filho primogênito de deus, ou um deus, ou qualquer outra coisa que tenha sido estabelecida falsamente por vós mais tarde, Moisés não conhecia em absoluto e não ensinava publicamente isso. Escutai agora palavras do próprio Moisés e de outros profetas. 


De fato, Moisés diz muitas frases deste tipo e em muitos lugares: “Temerás ao senhor teu deus e adorarás somente a ele”. Como, pois, tem sido transmitido nos evangelhos que Jesus que ordena: “Ide e ensinai a todos as nações, batizando-as em nome do pai e do filho e do espírito santo”, se de resto eles foram destinados a também adorá-lo? E as vossas opiniões também estão em conformidade com isso, quando junto com o Pai considerais divinamente o Filho. E, sobre os ritos simpáticos ou apotropaicos, escuta de novo quantas coisas Moisés diz: “E pegará dois bodes dentre as cabras pelo pecado e um carneiro para holocausto. E Aarão ofertará o novilho pelo pecado, para ele próprio, e fará uma expiação por ele e por sua casa. E ele pegará os dois bodes e os colocará diante do senhor, junto da porta do tabernáculo do testemunho. E Aarão porá sobre os dois bodes um lote de peças para deitar sortes para o senhor e outro para o bode expiatório”, de modo que se faça partir este, diz Moisés, com a expulsão e se o abandone no deserto. Assim, pois, o bode que está sendo enviado para o expiatório é afastado para longe. do outro bode Moisés diz: E imolará o bode do pecado do povo diante do Senhor, e levará seu sangue para dentro do véu, e aspergirá o sangue sobre a base do altar para o sacrifício e aplacará as coisas sagradas das impurezas dos filhos de Israel e das injustiças deles em todos os seus pecados”. 


Assim, pois, fica evidente, em alguma parte ao longo do que foi dito, que Moisés conhecia bem as formas de sacrifícios. E para mostrar que, não como vós, ele pensou as coisas impuras, escutai de novo conforme suas próprias palavras: “E a alma que coma da carne da vítima do sacrifício salvador, que é do senhor, com sua impureza sobre ela, essa alma perecerá fora de seu povo”. De tal modo prudente é o próprio Moisés a respeito da comida dos sacrifícios. Convém agora recordar o que eu disse antes, devido às quais eu disse também essas. Por que, pois, separando-vos de nós, não recebeis a lei dos judeus nem seguis fielmente o que foi dito por Moisés? Certamente, alguém agudo dirá, olhando contrariamente: “Os judeus também não sacrificam”Mas eu mesmo refutarei este que tem a vista terrivelmente fraca, em primeiro lugar, porque nenhum dos demais costumes praticados pelos judeus está na observância de vós; em segundo lugar, porque os Judeus sacrificam em suas próprias casas e, além disso, agora comem todas as coisas consagradas; e eles suplicam antes de sacrificar e dão o ombro direito como primícias aos sacerdotes, mas, como têm sido privados do seu templo, ou como têm o costume de dizer, do seu lugar sagrado, eles ficam impedidos de levar à boca as primícias dos sacrifícios. Mas vós, que inventastes um novo sacrifício e nenhuma necessidade tendes tido de Jerusalém, por que, diante disso, não sacrificais? 


Por certo, isto que eu disse de vós é supérfluo, dado que falei o mesmo no início quando desejei demonstrar que os judeus estão de acordo com os gentios, afora cultuarem um só deus. Pois isto é algo próprio deles, mas estranho para nós, visto que em todo o resto, de algum modo, temos alguma coisa em comum com eles templos, santuários, altares de sacrifício, purificações e certos preceitos, sobre os quais ou de modo nenhum nos diferenciamos inteiramente ou não diferenciamos pouco uns dos outros. Por que na dieta de qualquer um de vós não sois do mesmo modo puros como os judeus, mas dizeis ser necessário comer tudo da mesma maneira que legumes do horto, acreditando em Pedro que, dizem, anunciou: “O que deus purificou, não chames tu de impuro”Que prova há disto, de que antigamente o que deus considerou repugnante, agora o tem feito puro? Pois Moisés, manifestando-se sobre os quadrúpedes, diz que todo animal de fendido, de casco e ruminante é puro, e os que não são desse tipo são impuros. Portanto, se o porco, a partir da visão de Pedro, agora é dado a ruminar, obedeçamos-lhe; pois seria verdadeiramente prodigioso se, de acordo com a visão de Pedro, isto tivesse tomado forma. Mas, se ele mentiu ao dizer que teve essa visão, uma revelação, para falar como vós, na casa do curtidor, por que creremos tão rápido em coisas tão importantes? 


Pois o que ordenou de difícil Moisés a vós se, além da carne de porco, proibiu-vos de comer da carne de animais voadores e marinhos, declarando ele que esta, além da carne de porco, também foi rejeitada por deus e mostrada impura? Mas por que eu discuto longamente a respeito dessas doutrinas anunciadas por eles, se é possível ver se elas possuem alguma força? Eles dizem, pois, que deus estabeleceu a segunda lei depois da primeira. Pois a primeira lei surgiu frente a uma determinada circunstância e estava circunscrita a um espaço de tempo delimitado, ao passo que a nova lei foi revelada pelo fato de estar a lei de Moisés circunscrita quanto ao local e ao tempo. Que eles mentem ao afirmar isso, eu mostrarei claramente a partir dos testemunhos de Moisés – não apenas dez, mas inúmeros – nos quais ele afirma que a lei é eterna. Escutai, pois, o trecho do Êxodo: “Será esse dia memorável para vós, e o celebrareis como uma festa ao senhor ao longo de vossas gerações. Vós a celebrareis eternamente como costume. A partir do primeiro dia vós colocareis para fora de vossas casas a levedura”Restam muitas asserções desse tipo, segundo as quais a lei de Moisés é eterna e das quais eu me abstive da falar em virtude de sua grande quantidade: mas mostrai onde está dito aquilo que mais tarde foi afirmado atrevidamente por Paulo, que “Cristo é o fim da lei”. Onde o deus dos hebreus proclamou uma outra lei além da que já vigia? Isso não está em parte alguma, nem há alguma correção emenda da lei vigente. 


Pois escuta Moisés novamente: “Não acrescentai à palavra que eu agora vos dito nem subtraí nada dela. Guardai os mandamentos do deus vosso senhor, quantos eu dito hoje para vós” e “maldito é todo aquele que não segue a todos”. E vós considerastes como algo pequeno acrescentar ou subtrair ao que está escrito na lei, mas como o que há de mais corajoso e espirituoso transgredi-la completamente, olhando não para a verdade, mas para o que é mais persuasivo para todos. E vós sois tão desafortunados que nem aquilo que lhes ditaram os apóstolos vós seguistes; e esses ensinamentos foram tornados piores e mais ímpios pelos que vieram depois. Pois sequer Paulo ousou dizer que Jesus é deus, nem Mateus, nem Lucas e nem Marcos. Mas o bom João, eu acredito, percebendo a grande quantidade de pessoas já tomadas por essa doença nas cidades dos gregos e dos italianos, e escutando que também os túmulos de Pedro e de Paulo eram venerados, ainda que secretamente, foi o primeiro que ousou fazer tal afirmação. Depois de falar algumas poucas coisas sobre João Batista, e retornando às palavras que ele pronunciava, ele diz, “e a palavra tornou-se carne e habitou entre nós”, mas de que maneira isso se deu ele não diz, porque se envergonha. Em parte alguma, porém, ele o chama Jesus ou Cristo, quando menciona deus e a palavra, mas ele diz, como que silenciosa e secretamente enganando nossa audição, que João Batista prestou esse testemunho em nome de Cristo, que devemos acreditar que ele é deus, a palavra. 


Nem eu mesmo nego que João afirma isso a respeito de Jesus. Mas parece que, para alguns dentre os ímpios, Jesus Cristo é diferente da palavra anunciada por João. Não é esse o caso. Pois aquele que ele próprio diz ser deus, a palavra, é o mesmo que ele diz ter sido reconhecido por João Batista como Jesus Cristo. Observai, então, como ele, cuidadosa, silenciosa e discretamente, acrescenta aos fatos o toque final de impiedade, e como ele é tão sutil e enganador, que novamente ele se ergue para acrescentar: “Ninguém jamais viu deus: o filho unigênito, que está junto ao pai, esse o deu a conhecer”. Então é esse o deus que é palavra e se tornou carne, o filho unigênito que está junto ao pai? E, se é ele mesmo, como penso, então vós também contemplastes deus. Pois “ele habitou entre vós e vós contemplastes a glória dele”. Por que, então, vós afirmais que ninguém jamais viu deus? Pois, se vós não contemplastes o deus que é pai, contemplastes o deus que é palavra. E, se um é o filho unigênito, mas o outro é o deus que é palavra, como eu escutei da parte de algumas das vossas seitas, isso João sequer ousou afirmar. Mas esse mal teve início com João; entretanto, as quantas coisas que vós inventastes na seqüência, acrescentando ao cadáver antigo muitos cadáveres recentes, quem poderia abominá-las o suficiente?


Vós fizestes proliferar em todos os locais sepulcros e tumbas, embora  não seja dito em parte alguma  que vós devais passar o tempo em meio a sepulcros e velá-los. E vós chegastes a tal perversidade, que pensais em nome disso não ser mais preciso ouvir as palavras de Jesus de Nazaré. Escutai, pois, as coisas que aquele diz a respeito das tumbas: “Lamentáveis vós, escribas e fariseus, hipócritas, que pareceis sepulcros caiados: por fora o sepulcro parece conservado, mas por dentro está cheio de ossos de mortos e de todas as impurezas”. Se Jesus, portanto, dizia que os sepulcros estão cheios de impurezas, por que vocês evocam deus sobre eles? Diante desses fatos, por qual razão vós passais o tempo em meio a tumbas? Vós desejais escutar a causa? Não eu, mas o profeta Isaías o diria: “Nos túmulos e cavernas, eles dormem em busca de visões durante os sonhos”. Observai, então, como esse ato de magia, dormir em meio aos túmulos a fim de ter visões durante os sonhos, era antigo entre os judeus. O provável é que, depois da morte de seu professor, esses apóstolos transmitiram, desde o início, a nosso povo, os primeiros crentes, e realizaram a magia de forma mais habilidosa do que a vossa, mostrando publicamente os locais onde realizavam esses feitiços e abominações.


E esses, embora pratiqueis as coisas que deus desde o início abominou, tanto através de Moisés quanto dos profetas, negastes a levar vítimas ao altar e a sacrificar. Pois o fogo, eles dizem, não descerá, como no caso de Moisés, consumindo os sacrifícios. Isso, aconteceu uma única vez com Moisés e, novamente, muito tempo depois, com Elias de Tisbe. Pois eu mostrarei em poucas palavras que o próprio Moisés pensava ser preciso trazer o fogo de fora e, antes dele, também o patriarca Abraão... E não apenas isso, mas também os filhos de Adão, ao ofertarem primícias a deus, a escritura diz: “deus olhou sobre Abel e as oferendas dele. Mas a Caim e aos sacrifícios dele não prestou atenção. E causou muita dor ao Caim, que ficou cabisbaixo. E disse o senhor deus a Caim: ‘por que tu ficaste tão triste e por que ficaste cabisbaixo? Se tu fizeste oferenda mas não dividiste corretamente, tu pecaste, não?”E desejais escutar quais eram as oferendas deles? “Aconteceu que, alguns dias depois, Caim trouxe um sacrifício de frutos da terra para o senhor. E Abel o trouxe, também ele, dos primogênitos de seus rebanhos, e da gordura deles”Sim, dizem os galileus, não foi o sacrifício, mas a divisão que deus reprovou, ao dizer a Caim: “Se tu fizeste oferenda mas não dividiste corretamente, tu pecaste, não?”.


Assim me disse um dos vossos eruditos bispos; e ele estava enganando primeiro a si mesmo, depois aos outros homens. Pois, perguntando eu de que modo a escolha estava errada segundo algum critério, ele não era capaz de me explicar, nem ao menos de apresentar uma fria resposta. E eu, observando que ele estava com dificuldade, disse: “O Deus corretamente censurou isso que tu falas. Pois a disposição de ambos era igual, uma vez que ambos consideraram ser necessário dedicar presentes e trazer sacrifícios ao Deus. Porém, acerca da divisão, um acertou o alvo, ao passo que o outro errou. Mas como, de que modo? Pois, dentre os seres sobre a terra, os animados e os inanimados, e os animados são mais dignos de apreço do que os inanimados para uma divindade que é vivente e causa da vida, na medida em que eles participam da vida e têm uma alma mais conformada à dele  por isso o Deus se alegrou com aquele que lhe trouxe um sacrifício perfeito”Agora, devo dirigir-me de novo a eles: por que não vos circuncidais? Eles dizem: “Paulo afirma que foi concedida a circuncisão do coração, e não a da carne, a Abraão, que teve fé.  Com efeito,  ele não  se  referia  mais à  carne,  e é necessário acreditar nas palavras não ímpias proclamadas por ele e por Pedro”.


E escuta novamente: diz-se que deus deu a circuncisão da carne a Abraão como aliança e sinal: “E esta é a aliança que guardarás entre mim e ti, e entre mim e a tua semente pelas vossas gerações. Fareis a circuncisão da carne de vosso prepúcio, e o fareis em sinal da aliança entre mim e ti e entre mim e tua semente”Pois bem, quando ele, indiscutivelmente, determinou que se deve observar a lei e ameaçou com punições aos que transgredissem um só preceito, que espécie de defesa encontrareis vós, que transgredistes a todos eles em conjunto? Ou bem Jesus terá mentido ou, então, vós é que em tudo e de todos os modos não guardais a lei. “A circuncisão será da tua carne”, diz Moisés. Não lhe dando ouvidos, eles dizem: “Circuncidamo-nos de coração”. Muito bem! Então, entre vós não malfeitor algum, tampouco qualquer homem perverso. Tão bem vos circuncidais de coração! Eles dizem: “Não podemos observar a regra do pão ázimo nem celebrar a Páscoa, pois Cristo foi sacrificado de uma vez por todas em nosso nome”Que seja! Então, ele vos impediu de comer o pão ázimo? Ainda assim – pelos Deuses! – eu também sou um dos que evitam fazer celebrações em conjunto com os Judeus, mas sempre reverencio o Deus de Abraão*, de Isaac e de Jacó, que eram eles próprios Caldeus, uma raça sagrada e teúrgica, e aprenderam a circuncisão no tempo em que foram estrangeiros entre os egípcios.


[* O imperador pagão Flavius Claudius Iulianus cita que reverencia "o Deus de Abraham" em função de que Yehowáh trata-se de uma divindade dos céus originalmente pagã, chamada pelos pagãos egípcio-aqueus ou hicsos ou queneus de "Yah" ou "Yahuh" ou "Iao" e pelos pagãos romanos de "Jove" ou "Iove", enquanto aspecto da Divindade Suprema ou Uno. Por incrível que pareça, Abraham foi iniciado na Bruxaria antiga e, na antiguidade tardia, reencarnou como o Rei Mago Melchior, bruxo do Clã Mitraico e, depois, como o príncipe Arthur em Camelot, bruxo que se tornou rei de Camelot
].


Eles reverenciaram um Deus que foi benévolo para mim e para todos que o reverenciaram, tal como Abraão reverenciou, pois é uma divindade muito grande e poderosa, mas que a vós absolutamente não diz respeito. Sequer imitais Abraão, erigindo-lhe altares, construindo locais de sacrifício e fazendo oferendas, como fazia aquele. Pois Abraão sacrificava sempre e continuamente, assim como nós. Servia-se também da divinação por meio das estrelas cadentes; isto é, igualmente grego ou helênico. Mas, principalmente, augurava pelo vôo das aves. E tinha até mesmo um administrador doméstico que lia presságiosSe Dizei-me agora o motivo por que esse deus ou anjo oracular o conduziu para fora e começou a mostrar-lhe as estrelas? Estando dentro de casa, não saberia ele quão grande é a multidão das estrelas que sempre aparecem e brilham à noite? Mas ele pretendia, penso eu, mostrar a Abraão as estrelas cadentes, a fim de dar uma prova visível da decisão do céu, que tudo sanciona e realiza. Para que ninguém considere que tal interpretação é forçada, acrescentarei as palavras que seguem, e o convencerei. 
Pois está escrito a seguir: “E disse-lhe: ‘Eu sou o deus que te conduziu para fora da terra dos caldeus, a fim de te dar esta terra em herança’. 


E ele respondeu: ‘Senhor deus, por que meios poderei saber que a herdarei?’’Aquele tornou-lhe: ‘Toma para mim uma vaca de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, uma pomba-rola e uma pomba’. Tendo tomado todos esses, dividiu-os ao meio e os depôs de frente uns para os outros, mas não dividiu os pássaros. Aves desceram sobre as metades e Abraão sentou-se com elas”Vedes que a profecia desse anjo ou deus que apareceu foi confirmada pelo augúrio das  aves,  e  não  por  eventos  fortuitos  como  entre  vós,  mas  acompanhado de sacrifícios que cumpriam a divinação? Ele afirma ainda que, com a vinda das aves de rapina, demonstrou que a mensagem era verdadeira. E Abraão acolhe a promessa, acrescentando que uma promessa desprovida de verdade parece ser uma tolice e uma estupidez. Não se pode conhecer a verdade por simples palavras; é preciso que algum sinal claro acompanhe o que foi dito. Esse sinal, ao surgir, dará credibilidade à declaração feita sobre o futuro. Resta-vos uma única desculpa para essa indolência: o fato de não ser permitido sacrificar aos que estão fora de Jerusalém, ainda que Elias tenha sacrificado no monte Carmelo, e não na cidade santa."




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Ao benemérito St. Prior J.'.E.'.C.'.S.'.
Pela divindade do Uno, do Deus e da Deusa,
Ao Filho Divino, Vida, Saúde, Força e União!

Três Vezes Abençoado.