sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

-A Origem da Bruxaria e das Bruxas

[Disponibilizamos três textos, a seguir: o primeiro, chamado "As Raízes da Antiga Religião"; o segundo, denominado "Raízes das Bruxas" e, o terceiro e último, designado . Ambos visam explicar a origem da Bruxaria e, como percebe-se, possuem alguns equívocos, embora partem de uma linha de raciocínio coerente e verídica. Vale a pena conferir. Boa leitura!]


Autor: Site "Casa do Bruxo"
Fonte: www.casadobruxo.com.br/textos/historiawicca.htm


As Raízes da Antiga Religião


"Quando iniciamos o estudo de algo que nos é novo, a primeira pergunta que nos vem à mente é: "de onde surgiu?". Portanto, nada mais correto do que usar a história da Arte como ponto de partida. De onde veio a Wicca? Como tornou-se o que é hoje? O que ela é hoje? Wicca é uma palavra do inglês arcaico que quer dizer "bruxo" (plural wicce ["Wicce" é o feminino para Bruxa, o plural de "Wicce" é "Wiccan", como atesta o Inglês Arcaico medieval]). 
Há quem diga que seu significado é "sábio", mas isso não corresponde à verdade [Será?!]. A palavra tem sua origem na raiz indo-européia 'wikk-', significando 'magia', 'feitiçaria' [até uma criança pode ser capaz de identificar que este hipotético significado atribuído é um equívoco do pensamento Cristão!]. O nome Wicca é o mais usado para denominar nossa religião. Ela também é conhecida como Bruxaria, Feitiçaria [feitiçaria? sai para lá! que entorpecimento! até Hermes deve estar se remexendo em seu túmulo no Egito ao ouvir isso!], Antiga Religião e Arte dos Sábios, ou, simplesmente, A Arte. As origens da Bruxaria remontam à aurora da humanidade. Nossas crenças começaram a tomar forma no Paleolítico, há aproximadamente vinte e cinco mil anos. Neste período, o ser humano era nômade, e suas principais fontes de subsistência eram a caça e a coleta. Tudo era misterioso para o homem e a mulher do paleolítico: o trovão, o sol, a escuridão... Para eles, o mundo era um lugar perigoso, cheio de forças que deveriam ser temidas, respeitadas e reverenciadas. Com o tempo, a ideia das forças foi evoluindo para a ideia de Deuses. Um dos primeiros e, seguramente, o mais importante Deus primitivo a surgir foi o Deus de Chifres. Para que o clã nômade sobrevivesse, uma das principais atividades era a caça: dela provinham carne para alimentar-se, peles para vestir-se, ossos e chifres para fazer instrumentos. Os animais considerados mais valiosos, cujo abate cobria de honras aquele que o realizava, eram animais que possuíam chifres, como cervos e bisões. Assim, tomou forma na mente do ser humano primitivo a ideia de um Deus das Caçadas, dotado de chifres, símbolo de seu poder.


Alguns membros do clã iniciaram a prática de atividades de caráter mágico-religioso, compostos por um elemento religioso (esboços de rituais e mitos dedicados à adoração do Deus de Chifres, forças da natureza e espíritos dos antepassados) e por um elemento mágico (práticas que tentavam atrair a benevolência destas divindades e espíritos, a fim de manipulá-la para interesses práticos do clã). Neste momento estava se delineando algo que se assemelhava muito a grosso modo com uma classe sacerdotal. 
Estes 'sacerdotes' realizavam ritos do que hoje é denominado magia simpática, ou seja, práticas baseada na atração dos semelhantes. Pintavam-se cenas de membros do clã vencendo e abatendo animais cobiçados, para garantir o sucesso da próxima caçada. Miniaturas destes mesmos animais eram confeccionadas, em osso, chifre ou barro, e então simulava-se sua caça e abate. Estes ritos eram geralmente dirigidos por um destes 'sacerdotes', geralmente usando a primeira de todas as túnicas: peles de animais e uma máscara dotada de chifres. Em Trois Frères, na França, existe uma pintura de doze mil anos, conhecida [isto é, chamada pelos antropólogos especuladores... pois, este não é seu nome!] como "Le Sorcière" ("O Feiticeiro"). É a figura de um homem vestido de peles, com cauda e chifres de cervo. À sua volta, paredes cobertas por pinturas de animais em caçadas. A seus pés, uma saliência na rocha, constituindo um altar. Mas as caçadas não eram a única coisa que faziam o clã sobreviver. Havia um Mistério: o da fertilidade. O clã precisava continuar. De tempos em tempos, a barriga das mulheres crescia, e, ao fim de algumas luas, delas surgia um novo membro da tribo, pequeno, mas que crescia com o passar do tempo. Os animais também tinham filhotes, e isso garantia o alimento das futuras gerações. A chave de todo esse Mistério era a mulher, aquele enigmático ser que, se já não bastasse ser a única responsável pela continuação da tribo (ainda não havia a consciência da participação do homem na reprodução), também alimentava as crianças com leite de seu próprio corpo. Além disso, aquela criatura mágica vertia sangue de dentro de seu corpo em algumas ocasiões, mas mesmo assim não morria. Todas estas constatações deram origem ao surgimento de uma Deusa da Fertilidade, uma Grande Mãe.


Figuras pré-históricas desta Deusa são incontáveis. Uma das mais famosas é a Vênus de Willendorf: seu corpo parece uma grande massa disforme da qual se destacam um gigantesco par de seios e uma proeminente barriga grávida. Ela não tem pés nem braços, e seu rosto está coberto. Estas características são comuns a várias outras 'Vênus' pré-históricas, e se devem à ênfase que o ser humano primitivo dava ao aspecto de fertilidade da mulher . A Deusa era a Grande Mãe Natureza, fonte de toda a vida. Com o tempo, os homens foram se conscientizando de seu papel na reprodução, e o aspecto de fertilizador passou a ser mais um dos atributos do Deus de Chifres. Ele tornou-se filho da Deusa, pois dela era nascido, e também seu amante, pois a fertilizava para que um novo ser surgisse. A partir desta concepção, novos ritos foram adicionados às práticas mágico-religiosas, onde esculpiam-se ou pintavam-se animais ou humanos copulando, e todo o clã entregava-se ao ato sexual, já tendo recebido a graça dos Deuses. N
o Neolítico, o ser humano desenvolveu a agricultura, e começou a formar aldeias e povoados. Com a descoberta das técnicas de plantio, a Deusa assumiu maior importância, passando a acumular também o aspecto de guardiã da colheita. O Deus de Chifres começou a ganhar uma nova face, a de alegre Deus das Florestas, protetor dos animais e criaturas dos bosques. Quando o homem adquiriu a noção das estações do ano, esboçaram-se as primeiras idéias sobre a Roda do Ano. Havia um período quente e fértil, onde realizavam-se as colheitas e a natureza mostrava todo seu esplendor. Neste período, reinava a Deusa em seu aspecto de Mãe Fértil. Mas havia outro período, frio e escuro, quando as folhas das árvores secavam e caíam e tudo parecia estar morto. O povo voltava a depender da caça para sobreviver, pois não podia viver só dos alimentos armazenados. Quem regia este período era o Deus das Caçadas, que também adquiria seu novo aspecto de Sombrio Senhor da Morte (nesta época nasceram também os primeiros conceitos sobre a vida após a morte). Surgiram então os primeiros mitos sobre a descida da Deusa ao mundo subterrâneo, que, séculos mais tarde, tomaria forma definitiva na Grécia, com o mito de Perséfone, e na Mesopotâmia, com a lenda de Ishtar.


As culturas desenvolveram-se com o passar dos séculos, e novos aspectos dos Deuses foram descobertos. Cultos religiosos se estruturaram, centrados nos ciclos de nascimento, morte e renascimento da natureza. O tempo da plantação e o tempo da colheita eram muito importantes, marcados com festividades, assim como o período do recolhimento do gado e a época de sua liberação ao pasto. Nestas datas, juntamente com as de mudanças de estação, realizavam-se encenações de mitos nos quais um Deus Velho morria para um Deus Jovem nascer, representando a morte da antiga colheita e o nascimento de uma nova. Estes cultos possibilitaram o refinamento da classe sacerdotal, que chegou ao requinte de gerar representantes como os druidas, sacerdotes celtas que encantaram os gregos e romanos com sua profunda filosofia e integração com a natureza. Sua erudição era admirável, e acumulavam funções como a de legisladores, médicos, poetas, bardos e guardiões da tradição oral. 
Na Grécia Antiga, floresceram os Cultos de Mistério, dos quais deve destacar-se os Ritos de Elêusis e os Mistérios Órficos. Também foram de grande importância os Cultos Dionisíacos. Deve-se ter em mente que estas são linhas gerais do início da Bruxaria, que confunde-se com o surgimento das primeiras manifestações religiosas humanas. O que relatei acima aconteceu, em épocas diferentes, nos mais variados lugares. É verdade que nem tudo ocorreu exatamente da mesma maneira em todos os lugares: enquanto no Crescente Fértil da Mesopotâmia nasciam avançadas civilizações, na Europa ainda vivia-se de caça e coleta. Mas o que impressiona e é importante não são as diferenças, e sim as semelhanças dos primeiros esboços de religião. Meu objetivo, com a pequena exposição acima, foi dar ao estudante noções de como foi o surgimento da ideia dos Deuses e seu desenvolvimento. Para aqueles que desejarem um estudo mais detalhado, há uma lista de leitura recomendada no fim dos polígrafos".




[Aqui termina o primeiro texto e inicia o segundo, referidos anteriormente].



Autor: Site da "Ordem Sagrada de Bennu"

Fonte: http://www.bruxas.eco.br/artigo003.html


As Raízes das Bruxas


"Qual a origem da bruxaria? Que povo, que cultura plantou a semente da bruxaria e com que águas suas raízes foram regadas? Localizar as raízes bruxas é essencial para a compreensão do próprio significado da bruxaria, mas a resposta para tais perguntas está escondida atrás de uma questão ainda mais polêmica: a prévia definição de bruxaria. De que bruxaria estamos falando, de que bruxaria estamos buscando a origem? A maioria dos leitores optará por definir bruxaria como um conjunto de crenças e práticas que teriam surgido na Europa durante a Idade Média, uma espécie de reciclagem de mitos pré-romanos, em parte como resposta à lacuna deixada após a queda do Império e, noutra, como o resgate da cultura anterior à dominação romana, a redescoberta das raízes culturais e da tradição local européia. Talvez este seja o melhor entendimento sob o ponto de vista histórico, e ele não nos levará muito longe do caminho que devo sugerir. Todavia, cabe questionar a lógica de tal pensamento: se a bruxaria nasce como reconstrução de tradições pré-romanas, não seriam suas raízes, também, pré-romanas? E se Roma é um subproduto da cultura helênica, não devemos apontar nossas investigações para o crescente fértil, que deu origem à própria cultura grega? A pergunta é retórica, pois se a bruxaria tivesse surgido na Idade Média sem estar ligada a nenhuma tradição, se desenvolveria espontaneamente, o que significa que seus conhecimentos seriam de domínio público, assim como eram públicas as crenças judaicas, até que a Igreja interviesse, coibindo as crenças pagãs. Mas o fato é que o saber bruxo sempre foi reservado a membros seletos de alguma organização ou linhagem, assim como o saber do xamã também sempre foi passado individual e criteriosamente, não em grupos e indistintamente como o fazem as religiões contemporâneas. Evidencia-se, então, pelo simples raciocínio acima apresentado, que a Tradição Bruxa é anterior ao início da expansão de Roma, portanto, muito anterior à Idade Média. Buscar as raízes bruxas é buscar as origens das primeiras culturas europeias. Mas estamos falando de um momento em que a cultura não existia oficialmente na Europa, senão como uma combinação de traços das comunidades autóctones com as influências das civilizações do norte da África e do Oriente Médio. 


Agora podemos retornar às indagações originais: Qual a origem da bruxaria? Que povo, que cultura plantou a semente da bruxaria e com que águas suas raízes foram regadas? Posso afirmar que, nas tradições bruxas europeias que subsistiram até hoje desde tempos imemoriais, há conhecimentos específicos que foram criados pelos autóctones, reservados aos iniciados, mas a maior parte e talvez o corpo principal são derivados de uma série de influências dos povos do norte da África e do Oriente Médio sobre os autóctones. Conforme as fontes históricas de que dispomos, ao contrário do que ocorre hoje em dia, os povos da Europa eram plenamente receptivos a influências estrangeiras. O que lhes viesse em auxílio, o que lhes fosse útil, seria muito bem recebido em sua cultura. É um pouco difícil aceitar este fato vivendo na sociedade atual, mas o imperialismo cultural ao qual buscamos até certo ponto resistir parece ser um legado do cristianismo, haja vista que, mesmo em Roma, antes que o cristianismo fosse declarado religião oficial do Império, os povos conquistados tinham plena liberdade de culto e de expressão cultural, sendo observados, mas não inibidos, de agir conforme suas respectivas tradições. Noutros locais, fora do alcance de Roma, os árabes praticamente destruíram a cultura persa por acomodação natural, não os tendo jamais subjugado; no Egito, mesmo sob a coroa de Akhenaton (Amenhotep IV), posteriormente intitulado o faraó maldito por declarar Aton como Deus único e absoluto, os templos de outros deuses continuaram abertos, muito embora, por motivos óbvios, os nobres tivessem deixado de contribuir para sua manutenção; ainda no Egito, em período diferente, mesmo o povo judeu, mantido em cativeiro, não era forçado a aceitar os deuses egípcios. Então, ouso dizer que a bruxaria foi plantada fora da Europa, no norte da África e no fundo (leste) do Mediterrâneo, e que aquilo que muitos acreditam ser "o saber dos povos do campo", na verdade é a tradição e vivência de mistérios muito mais antigos, cujas raízes devem ser buscadas ainda mais longe. Mas este é um tema cuja profundidade pede mais espaço. Fiquemos, então, com este pensamento final: dizer que a bruxaria surgiu na Europa é como dizer que a macumba surgiu na Bahia".




[Aqui termina o segundo texto e inicia o terceiro e último texto. Este terceiro e último texto trata-se de um recorte de livro científico acerca da Magia antiga e da Psicologia transpessoal, então, portanto, apresenta uma postura eclética, embora possua um bom raciocínio].




Autora: Mani Alvarez 
(Editora All Print, 2006, p. 35-55)


A Iniciação aos Mistérios na Antiguidade




“Os antigos Hierofantes [Magisteres ou o Magus] combinaram
tão habilmente os dogmas e símbolos de suas filosofias religiosas,
que não é possível explica-los de maneira cabal e satisfatória
senão mediante o emprego e o conhecimento de ‘todas’ as chaves” (H. P. Blavatski).

A busca pela Iniciação aos Mistérios tornava-se cada vez mais difícil e secreta entre os discípulos. Por outro lado, tornava-se também cada vez mais cercada de descrédito entre os leigos. Apesar disso, percebe-se em Platão um esforço para incluir, numa nova linguagem, a herança dos antigos [dos antigos Iniciados ou Bruxas, pois, como sabe-se, as Bruxas Medievais afirmavam que a Bruxaria era continuação dos antigos Clãs da Mysteria]. Existem alusões em seus escritos à existência de uma tradição oral datada de muito tempo. Platão repetiu diversas vezes que a verdadeira filosofia não devia ser confiada à escrita (FEDRO, 274) e se referiu ao conhecimento verdadeiro como uma “loucura sagrada” [ou “loucura divina”, em grego “Theia Mania”]. “Nossas maiores bênçãos vêm a nós através da loucura – diz Sócrates no Fedro – desde que a loucura seja inculcada por uma dádiva divina”, complementa. Essa passagem é particularmente interessante. Está repleta de informações implícitas. O que ele quer dizer com “loucura sagrada”? Uma das leituras possíveis é pensar que ele se referia ao que hoje chamamos de experiência transpessoal, ou seja, uma vivência de expansão da consciência com tudo que isto implica de visões, encontros com divindades, percepções extra-sensoriais e o reconhecimento de outras dimensões da realidade. Hoje sabemos que, através de exercícios e técnicas respiratórias, visualização, danças e sons, podemos induzir a consciência a esses estados expandidos.

Naquela época, os métodos e a linguagem eram outros. Para Platão, esse fenômeno foi interpretado como uma forma de delírio benéfico provocado pelos deuses. Como essa experiência deveria ser muito mais comum do que é hoje, com todos os rituais dionisíacos ainda sendo praticados livremente, sua intenção pode ter sido demonstrar que nem todo delírio era loucura, e nem toda loucura, um mal. Conhecedor dos antigos Mistérios iniciáticos, Platão certamente conhecia o segredo e sabia que os rituais eram uma forma de manifestar os poderes expandidos da mente. Num discurso chamado Fedro, datado de 380 a.c., Platão conta como Sócrates questiona a ideia de que o delírio seria um mal. Pelo contrário, diz ele, “dos bens que nos chegam, os maiores são os advindo por meio de um delírio, dotado seguramente por um dom divino”Afirma também que as profetisas de Delfos e de Dodona têm prestado à Grécia grandes serviços. Se fosse uma farça, “Os Antigos – instituidores dos nomes – não teriam introduzido a mania (delírio divino) no contexto de uma das mais belas artes, a arte graças à qual se prevê o futuro, a manike” (ou mântica, que significa: “o que delira”). Ou seja, Platão assimila em sua metafísica toda a antiga tradição espiritualista que o precedeu, e reafirma a interferência ativa dos Deuses na psique dos seres humanos, influenciando para o bem ou para o mal. Em alguns casos, essa experiência podia ser extremamente proveitosa para os seres humanos. A loucura divina era uma forma de contato superior que elevava a espécie humana ao estatuto dos Deuses.

Mas ele tinha noção de que nem toda loucura é divina. Socrates reconhece um tipo de delírio que é, segundo ele, proveniente de antigos pecados [refere-se no sentido de falhas, ou hamartia, dos antigos gregos] que leva à doença e às provações. A loucura era concebida também como punição por alguma culpa hereditária. Naquele momento, o papel desempenhado por Platão foi muito importante. Ele conseguiu reorganizar as antigas ideias de seus predecessores sob uma nova linguagem. Iniciava-se o primado da razão e da filosofia por volta do século V a. c. Mesmo assim Platão transpõe para uma linguagem filosófica elementos da antiga sabedoria mágico-religiosa que fala de Eros, da Psique, da morte e da transmigração das almas. Lendo seus textos, encontramos o caminho da ascese mística dos grandes iniciados, deixando claro que há no ser humano uma potencialidade à qual somente uns poucos têm acesso. As paixões já não são vistas só como um “delírio do corpo”, nem como uma maldição dos Deuses, mas como uma expressão também da alma, uma espécie de fonte de energia que pode ser canalisada [‘canalizada’ é o correto], tal como Freud compreendeu a libido. Aquilo que transcendia a razão foi incorporado como um daimon, velho termo religioso que Empédocles utilizava e que se refere a uma dimensão oculta do eu [que, também, é um título do Deus de Chifres Dionysos, mais tarde utilizado na Bruxaria Medieval, que era continuação dos antigos Mistérios ou Clãs da Mysteria], muitas vezes associada a uma divindade intrusa ou a um guia interior. Sobretudo em relação a essa conexão com o divino, existem nos escritos platônicos [o Clã Platônico foi um dos Clãs da Mysteria] numerosos testemunhos. Num estudo que fez sobre os gregos e a irracionalidade, o especialista em cultura helênica, Prof. Dodds[1], define os quatro tipos de loucura aos quais Platão se refere, quando fala da “loucura divina”:

1)      A “loucura profética”, cujo Deus é representado por Apolo. Ele se refere aqui ao Oráculo de Delfos, embora existissem muitos outros, sendo o mais famoso o da Caldeia [Só para lembrar: as instituições dos Oráculos, existentes por todo o mundo antigo, não tem relação com os antigos Mistérios ou Clãs da Mysteria]. Na Grécia, esses oráculos tinham a Pitonisa ou a Sibila por médium. As profecias faziam parte da religião oficial grega e eram aceitas e reconhecidas oficialmente. Grandes personalidades iam até lá buscam conselhos, oferecer sacrifícios e fazer pedidos aos Deuses.

2)      A “loucura ritual’, referia-se a Dionísio, onde as danças e o vinho eram uma constante. Essa era uma forma coletiva de religiosidade, na qual o homem e a mulher comuns do campo podiam participar. Era uma forma de religião extática primordial com efeitos de cura e catarse muito intensos. Sua prática foi atestada na antiga Fenícia, na Ásia, na Lícia. Associadas a essa forma de delírio religioso estão as Bacantes (seguidoras de Baco), as Mênades (adoradoras de Circe), as Coribantes (seguidoras de Cibele), e todas as descendentes da Antiga Religião da Deusa Mãe.

3)      A “loucura poética”, inspirada pelas musas, é como uma graça que é concedida e que confere, àquele que é agraciado, o dom da fala verdadeira. O tipo de arrebatamento produzido pelas Musas torna uma pessoa inspirada, capaz de produzir belas ideias. Essa capacidade poética é o que faz a diferença entre o homem iluminado e o homem comum. Para Platão, esse era, sem dúvida, o mais perfeito dos delírios, aquele que “desperta a lembrança da quase esquecida beleza verdadeira”, e faz com que os olhos pousem no alto, esquecendo-se das coisas aqui de baixo. Esse tipo de alienação das coisas práticas da realidade cotidiana é o que faz com que o delirante seja acusado de louco.

4)      A “loucura erótica” inspirada por Afrodite e Eros. Embora Eros tenha recebido uma importância especial no pensamento de Platão, esse tipo de delírio erótico não recebe muita atenção em sua obra. Para ele, a influência desse Deus na psique enraíza o ser humano na dualidade: por um lado, há o corpo e os prazeres eróticos imediatos; por outro lado, há o impulso dinâmico que encaminha a alma na busca de uma satisfação que transcende a experiência material. Bastante próxima do conceito freudiano de libido e de sublimação, a “loucura erótica” lança também suas raízes na vertente hindu do tantrismo, que vê na energia sexual uma força poderosa, que tanto pode elevar o ser humano ao êxtase divino, quanto pode reduzi-lo à bestialidade.

Como era vista pelas pessoas comuns daqueles tempos antigos essa capacidade humana de se conectar com o divino? Aparentemente, não muito diferente de nossos tempos atuais. Será que a metafísica platônica poderia ser identificada e reconhecida pela nossa atual psicologia ou psicanálise como um estado de expansão da consciência? Se naqueles tempos havia o risco de uma sujeição da mente aos Deuses criados pelo medo e desamparo humanos, hoje também corremos o risco de sermos aprisionados por diagnósticos patologizantes. [...] Parece que a civilização reprime e censura inevitavelmente as dimensões mais libertárias da mente. Se hoje temos nossa psiquiatria e seus manicômios, também na Grécia apolínea, por volta do século V, havia instrumentos repressores dos mais altos voos do espírito humano, fossem eles patológicos ou não. A nova religião de Estado introduziu, por meio de uma série de medidas culturais e pedagógicas, aquilo que foi internalizado como uma reação de medo da mania, ou da “loucura sagrada”. Primeiramente, foram impostas censuras contra os cultos dionisíacos, que permitam às pessoas, geralmente campesinos, experimentar por si mesmas o contato e a união com a divindade através do “êxtase” religioso. 

Essa experiência começou a ser considerada, já naquele tempo, infinitamente transgressora e perigosa. A liberdade interior de perceber o infinito de percepções que se abre à alma humana, durante uma experiência mística, começou a assumir nuances de culpa e medo. Políticos e governantes sabiam que a mente pode ser arrebatada por influências sutis e passar por experiências de êxtase jamais propiciadas pela razão. E que esta é a fonte mais verdadeira do sentimento de liberdade. Assim se expressou Proclo, no ´seculo V: “[...] ó Deuses, que o fogo do grande Retorno ateais e conduzis a alma humana entre os imortais [...]”. Como conciliar uma política de dominação com a liberdade do espírito? Iniciava-se uma das mais negativas e catastróficas formas de repressão que oprimem o ser humano, que é a repressão à espiritualidade. O novo Estado grego emergente precisava de um Deus controlador, era independente demais, irreverente demais. Também as poderosas e autônomas Deusas da antiguidade não poderiam ser usadas. Mesmo porque já haviam sido rebaixadas por Zeus a serem apenas esposas, filhas e amantes. Restava Apolo, filho de Zeus, amante das artes, da música, da poesia e também patrono da nova medicina que surgia a partir do espírito observador e clínico de Hipócrates. Apolo era o único Deus do panteão grego apto a se transformar no novo culto urbano da Grécia clássica. Há uma aura mágica envolvendo também a figura de Apolo. Para ser aceito como o Deus oficial da Grécia, ele também sofreu alguns cortes. 

Nem todos os mitos relatam que ele teria passado por uma Iniciação no longínquo país dos Hiperbóreos, lugar misterioso, sobre o qual existem muitas referências na Teosofia de Helena Petrovna Blavastsky [o correto é ‘Blavatsky’, talvez esse erro justifique a incredibilidade da atual lenda ocultista, de que o Deus Apolo teria recebido iniciação entre os Hiperbóreos!] e na Antroposofia de Rudolf Steiner. Hiperbóreo é o nome de uma suposta civilização de pessoas gigantes, louras e de olhos azuis, que viviam até mil anos [essa terra existia antes da famosa Atlântida dos ensinamentos platônicos]. O país da Hiperbórea estaria localizado na Islândia ou Groenlândia, no norte boreal da terra. Segundo especialistas, de lá teriam partido os xamãs e os magos que, mais tarde, iriam penetrar no continente grego através do Mar Negro e influenciar a religiosidade de todos os povos indo-europeus. Como sempre acontece, a ignorância serve aos governantes. O povo ficava à mercê da ideologia dos políticos que “vendiam” a ideia de que a fome, as doenças, as guerras, as pestes e toda a miséria moral que se abatia sobre a Grécia eram causados pela fúria dos Deuses [e por que não, afinal? Pensa que os fenômenos da natureza e a ordem do cosmos são regidos por quem?]. Enquanto mantinham as massas na ignorância, davam vazão à sua ambição desenfreada, sua política de guerras por mais territórios, mais poder e mais riquezas. Muitas lendas e relatos épicos desse momento histórico traduziam poeticamente esse sentimento de impotência e desamparo do povo.


Como se dava o Chamado para os Mistérios

A iniciação nos Mistérios [ou, na Mysteria, como era chamada] era um processo difícil e prolongado em todas as correntes religiosas gregas e orientais. Primeiramente, havia um chamado interior inapelável sentido pelo adepto. Este chamado passava por uma ruptura abrupta com a vida cotidiana, através de doenças prolongadas, uma crise nervosa, o despertar de percepções extra-sensoriais, visões ou sonhos premonitórios. Era o momento da [...] sede de conhecimento. Em seguida, começava a fase preparatória para a Iniciação nos Mistérios. Essa fase constituía-se de uma vigilância severa sobre os pensamentos, alimentos e relacionamentos; exigia-se abstinência sexual e alimentar, estudo de técnicas de respiração, conhecimentos sobre a influência dos astros, das ervas e dos cristais e um certo isolamento do adepto. A iniciação propriamente dita era uma forma de catarse (Kátharsis) ou purificação. O terceiro momento era a athanasia, ou libertação. Liberto dos apegos e padrões de todo tipo, o Iniciado podia voltar à vida normal, agora transformado em mestre de si mesmo e apto a prestar toda sorte de serviços à comunidade, desde o governo, a pedagogia, o sacerdócio, até a cura. 

Muitos templos de iniciação existiam na Grécia antiga, muitos locais consagrados aos Deuses. Lá se encontram os mais famosos centros de Mistérios, dos quais Dodona (no Epiro, datado de IX a. c.) é o mais antigo, embora Delfos seja o mais conhecido. Um outro centro famoso, localizado a alguns quilômetros de Atenas, é o templo dedicado à Deusa Deméter e Perséfone, onde se realizavam os famosos Mistérios de Elêusis. Outros locais consagrados à iniciação aos Mistérios ainda podem ser visitados, embora em ruínas, e são localizados em Atenas, Andania, Creta, Egina, Elêusis, Mantineia e Samotrácia. Outros templos dedicados aos oráculos estão localizados em Delfos, Dídima, Dodona, Éfiro, Epidauro, Lebadiam, Lesbos, Olímpia, Oropos, Patara, Farai, Eigera e Esparta[2]. As iniciações eram realizadas em duas etapas [isto é, o “círculo exotérico” ou externo, constituído por um ante-grau de aprendizes ou iniciantes, e o “círculo esotérico”, composto dos três graus], sendo que a primeira era pública e aberta a todos os interessados, constando de procissões, cânticos e oferendas; a segunda era secreta, e poucos podiam [ou passavam no teste de provação para] participar.


A Sabedoria de antigos Mestres [ou Magisteres]

As Iniciações aos Mistérios antigos eram a única forma de conhecer o segredo mantido e rigorosamente preservado, que cercava a religiosidade arcaica, permeada dos ensinamentos mágicos dos Deuses. Tudo indica que se tratava de uma experiência conhecida pela maioria dos Sábios que fundamentaram as bases da cultura e da filosofia ocidental. Pitágoras foi um deles [reencarnado, na modernidade, como George Alexander Sullivan, alto-sacerdote do grupo secreto da Inglaterra em que Gerald Brosseau Gardner foi iniciado]. Nasceu em Samos, no século VI a. c. e teria feito diversas viagens ao Egito para estudar com os Sábios sobre geometria, à Caldeia para aprender sobre os astros, e à Fenícia para estudar os números e os cálculos. Com os magos, ouviu e respeitou as artes da magia. Conta-se que, em todos os lugares por onde passou, ele foi submetido a duras provas. Por sua tenacidade, foi admirado pelos sacerdotes de Heliópolis e Mênfis [no Clã Menfita, da Mysteria], que “nunca viram isto ser feito por nenhum outro estrangeiro”. Voltando a Samos, funda a sua escola, mas suporta por pouco a tirania que reinava na Grécia. O espírito livre de Pitágoras faz com que ele decida partir e vai para a Itália, onde inicia seus ensinamentos acerca do Mistério dos números. É desta fase que sua teoria ganhou adeptos e tornou-se conhecida em todo o Ocidente.

Mas, dentre seus textos “apócrifos”, havia algumas recomendações bem esotéricas ao neófito; consta que o grande Sábio grego preconizava dietas, encantamentos, música para a alma e purgação para o corpo. Ensinava danças e caminhadas para a flexibilidade física, cantava para os enfermos e os curava através da magia simbólica das palavras. Dizem que o regime que ele seguia fora ditado pela Deusa Deméter e constava de uma refeição frugal de grãos de papoula, sementes de gergelim, farinha de trigo, cevada, grãos de bico e muito mel. Por causa dessa dieta, seu corpo era saudável e estável, suas emoções eram harmoniosas e sua inteligência prodigiosa[3]Os Versos de Ouro, atribuídos a Pitágoras, na verdade foram compilações feitas por seus discípulos e referem-se a seus ensinamentos secretos. Trata-se de 71 preceitos esotéricos, repletos de alusões e símbolos aos quais dificilmente podemos nos acercar com nossa mente racional. Por exemplo, ele cita a fórmula iniciática conhecida como a “Tétrade” (Tetrakis), ou o Tetragrama sagrado, e adverte aos discípulos que: “De posse desses ensinamentos, conhecerás a natureza dos Deuses imortais e dos homens mortais; em que os seres são separados e em que eles são unidos”Pitágoras finaliza seus Versos com a belíssima afirmação: “Tomando por cocheiro a perfeita Inteligência lá do alto, então, quando abandonares teu corpo, tu atingirás o éter livre, tu serás imortal, deus incorruptível e para sempre libertado da morte”[4].

Em Pitágoras se encontra uma descrição inefável daquilo que a humanidade preservou como o seu grande segredo. Em seus versos ele parece aludir à necessidade de abandonar os sentidos físicos e se entregar a um outro princípio que governaria, então, o encontro com o Absoluto. Por sua inflexibilidade quanto à ética de seus discípulos, conta-se que ele teria impedido de entrar em sua escola um famoso cidadão, filho de proeminente político, mas de moral duvidosa. Inconformado pela recusa de Pitágoras em iniciá-lo, ateou fogo na escola, matando todos os estudantes, o próprio Pitágoras, destruindo toda a sua obra. Um outro filósofo que conhecia profundamente as múltiplas dimensões da consciência e sabia bem como utilizar essa capacidade para a cura e para ensinar, foi o grande Empédocles (472 a. c.). Dele só nos restaram alguns fragmentos (ao todo, 153 fragmentos escritos). No entanto, segundo o testemunho de contemporâneos, ele foi um dos maiores magos e xamãs na época de maior efervescência grega. Contestado, imitado, honrado e endeusado pelos seus patrícios, Empédocles nos deixou alguns princípios importantes, como o de que “semelhante atrai semelhante”, ideia que fundamenta a ciência homeopática que conhecemos, atualmente aceita e legitimada pela medicina oficial. Afirmava também que o mundo é sustentado por duas forças contrárias que unem e separam, às quais chamou de Amor e Ódio. 

Na verdade, esse princípio explica o método da magia sim-pática e anti-pática, ou seja, aquela que age por intermédio de forças amorosas que se associam entre si [isto é, magia para atração], e aquelas que agem por intermédio de forças contrárias que se opõem umas às outras [magia para repulsão ou afastamento]. A partir desse princípio, desenvolveram-se as duas formas de medicina que conhecemos hoje, aquela que atua por semelhança (homeopatia) e aquela que busca curar pela diferença (alopatia). Empédocles, fiel a uma antiga tradição de Iniciados que falam por analogia e símbolos, evoca a ideia de uma evolução da vida, da qual o ser humano é apenas um dos elos dessa infinita cadeia. Ele diz num de seus fragmentos: “Já fui um moço, uma jovem, uma planta, um pássaro e um peixe mudo que saltava acima do mar”. E termina com esse lamento: “Céus, ó infeliz raça dos mortais, ó tu duplamente infortunada! De quais lutas, de quais lamentos és nascida!” [5]O sofrimento da espécie humana e a busca de consolo para seus males parecem ter sido os grandes impulsionadores do conhecimento ao longo da história. Muitos foram os caminhos por ele abertos, em nome de seus avatares. A religião e a medicina antiga sempre andaram juntas e tinham por objetivo comum a cura da dor humana, seja do corpo, seja da alma. Empédocles, que era um mago, tanto quanto um oráculo e um médico taumaturgo (aquele que cura pela palavra), assim responde àqueles que o interrogam pelo caminho: “Alguns desejam o oráculo, outros querem saber a palavra que cura, porque há muito estão transpassados por dores cruéis”.

Pitágoras também dizia que a arte mais divina de todas era a de curar. Ao que um outro grande Mestre, Apolônio de Tiana, completava: “Se curar é o que há de mais divino, os seres humanos devem ocupar-se tanto da alma como do corpo, pois nenhuma criatura pode ter saúde, enquanto sua parte mais elevada estiver doente”[...] Existe uma complexa correspondência analógica entre os símbolos, que escapa à nossa compreensão. Por volta de 2.600 a. c., os então chamados magos definiram um tipo de identidade simbólica entre nome, cor, astro e letra, criando uma ciência dos números completamente desvinculada do cálculo e da matemática que conhecemos hoje. Na verdade, esta ciência está mais para a Numerologia do que para a Matemática. O número tornava-se, então, uma chave mágica para se acercar do real. Mais tarde, Pitágoras irá acrescentar a este simbolismo dos números os elementos da geometria [Será que foi mais tarde que ele “acrescentou” ou, desde o início, já estava formada tal doutrina dos antigos Mistérios por uma vasta complexidade e somente depois tornou-se “conhecida”?!]. A ciência dos nomes e das letras remonta ao Egito faraônico. E partindo da compreensão de que o nome é a coisa, foram estabelecidos os encantamentos e as fórmulas mágicas, pois acreditava-se que, ao se reproduzir o som que fala a coisa, age-se sobre a própria coisa. Este é um princípio de magia simpática, que tem por base o pensamento analógico e suas correspondências.

Um dos textos referenciais desse antigo saber é o Corpus Hermeticum [quando Hermes se emociona ao prever que, no futuro, a doutrina da Arte dos Sábios ou Bruxaria seria banida da terra pelas autoridades arcônticas deste mundo!], para onde parecem confluir antiquíssimos ensinamentos de várias partes do mundo e que sobreviveu até o século XV de nossa era. Sabe-se que ele nos remete à alquimia, à astronomia e às Artes Mágicas. Também as Ciências Ocultas, a Cabalá e a Teosofia condensam tesouros de ensinamentos que, por sua vez, nos remetem a Platão, aos mitos e aos grandes Mistérios gregos, mas também à sabedoria do Egito, dos persas e dos árabes, da China e da Índia. Curiosamente, esta análise nos leva a perceber que estamos lidando com uma vasta área do conhecimento filosófico extra-oficial, extra-acadêmico, extracientífico, que, por sua vez, é herdeira de um antigo saber [se refere ao conhecimento exotérico e popular] obtido por outras vias que não o raciocínio lógico formal que conhecemos hoje. Percebemos também que essa via do saber se relaciona com a consciência transpessoal. A história da metafísica testemunha a prática contínua, ao longo do tempo, de outros estados de consciência que produziram doutrinas de grande beleza e sabedoria, que insistem na existência de outras realidades povoadas por seres multidimensionais. Os nomes desses seres foram perdidos, ficando deles apenas referências lendárias na memória popular, como os devas, as fadas, os gnomos, seres elementais, Deuses e Heróis míticos, Santos e Mestres ascencionados.


A mais Antiga das Lendas

O mais remoto texto conhecido de magia é a Epopeia de Gilgamesh, encontrado na Babilônia e escrito em caracteres cuneiformes gravados em argila. Ele conta a história de uma expedição feita ao mundo subterrâneo pelo rei das terras de Ur, Gilgamesh. No fundo do oceano ele encontra Ea [Enki, nome sumério de Tubalcain, pai-irmão de Hermes Trismegistos, o Fundador da Bruxaria], deus das águas, que lhe ensina as verdades secretas só conhecidas pelos Deuses. Através de sonhos, ele encontra também um Sábio que o leva a atravessar as águas da morte e encontrar a erva mágica da imortalidade. De volta à sua cidade natal, uma serpente rouba a erva mágica. Mas, os tabletes de argila que contam o final da história jamais foram encontrados, deixando-nos sem saber o que aconteceu em seguida com Gilgamesh. Mas este curto relato já é suficiente para que possamos delinear os pontos básicos da magia:

1)      O conhecimento (a autoconsciência) é um presente dos Deuses (seres superiores que habitam regiões mais sutis da realidade) para aqueles que se destacam pela coragem de ir além de si mesmos (coragem de abandonar nossos tesouros, nossos apegos, nosso ego, nossas identidades).

2)      O sonho (estado modificado da consciência) é um meio de viajar pelas terras subterrâneas onde moram os Deuses (outras dimensões da realidade).

3)      Os Deuses colocaram à disposição dos humanos uma “erva mágica” [que pode ser tanto o sexo, presente dos Deuses, quanto uma erva fisicamente falando, ou ambos] que abre a visão da imortalidade. Todas as culturas antigas conheciam as chamadas plantas enteógenas (en-theos: que tem Deus dentro) que induzem estados modificados da consciência e eram usadas para celebrações e rituais religiosos. Ex: o peyote, a ayuasca, a marihuana, a soma.

4)      Todos nós possuímos poderosos sabotadores internos (a serpente do medo) que podem nos roubar a “erva mágica” e impedir nossa ascenção [‘ascensão’ é o coreto] à imortalidade (consciência do segredo).

Com o passar do tempo, todo esse conhecimento, permeado por simbolismos, foi sendo considerado magia, mística, mistério [e, de fato, é]. Mas, para quem conhece as chaves, são verdadeiros códigos para a percepção de outras dimensões da consciência, e que abrem portais para diferentes formas de conceber os Mistérios da vida e da morte. Poucos possuíam as chaves que dão acesso a esses portais. Esses poucos só a transmitiam através de uma linguagem metafórica, hermética, enigmática, para que não caíssem em mãos indevidas. Mesmo assim, esse segredo foi mantido oculto durante milênios. Se, na prática ou na utilização desse saber, as escolas de Mistérios se diferenciavam, sobre a questão do hermetismo havia unanimidade. [...] Hermes dizia que o falar que sustenta toda a grandeza do sagrado não podia ser manifestado. Platão recomendava não divulgar o segredo e a chave dos Mistérios; Pitágoras e Porfírio ordenavam, sob juramento, a seus discípulos, que guardassem o segredo. Orfeu exigia silêncio em seus ritos iniciáticos. Quando se celebravam os Mistérios de Ceres, em Elêusis, somente eram admitidos aqueles que deviam ser Iniciados. [...].


As Chaves de Hermes

          Uma dessas figuras míticas e lendárias, cuja sabedoria ressoa até hoje entre nós, inclusive nas mais recentes descobertas da ciência físico-química, é Hermes Trismegisto [filho-irmão de Tubalcain, nos tempos da Atlântida], que na mitologia grega é contado como filho de Zeus e Maia. Do seu nome derivou o termo hermetismo ou hermético, para designar algo muito fechado, oculto e restrito a poucos. Na mitologia egípcia ele foi representado por Thot, o deus criador da palavra escrita; no século II, seus ensinamentos começaram a circular entre grupos fechados da Europa; muito mais tarde, já no século XV, alguns fragmentos seus foram reencontrados e traduzidos, sendo reunidos num livro que se chamou Corpus HermeticumEntre os caldeus, a magia era praticada de forma extremamente avançada para a época. Alguns fragmentos que foram encontrados falam de como deve o adepto se portar para receber o divino. Eles advertem que existe um Inteligível que só pode ser alcançado pela “flor do intelecto”, nome da faculdade superior que nos permite a conexão com a unidade. De um modo geral, observa-se o mesmo conteúdo em todas as teorias. Afirmam também que é necessário desviar a alma das coisas percebidas pelos sentido, esvaziar a mente pensante dos pensamentos, pois o Inteligível se encontra além da percepção humana.

“Procura o canal da alma; de onde ela, trabalhando à custa do corpo, desceu de uma certa ordem [...] e então, deves unir o ato à palavra sagrada, [...] pois o divino não é acessível aos mortais que pensam segundo o corpo, mas àqueles que, nus, correm em direção às alturas”[6].

          Nos primeiros séculos da era cristã (séc. II), surgiram muitos tratados inspirados nas ciências mágicas egípcias, na filosofia grega de Platão e na sabedoria iniciática de Pitágoras. Esses tratados, ao todo 17 textos, foram mais tarde traduzidos para o latim por Marsílio Ficino, em 1463. Passaram a constituir o Corpus Hermeticum, como foi citado acima e deram origem a um forte sincretismo filosófico-religioso. Esse movimento inspirado por Amônio Saccas e, mais tarde, seu discípulo Plotino, foi chamado de Neoplatonismo, e pregava o desenvolvimento de um sistema panteísta, que entendia todas as formas de vida como emanações do Um [o Altíssimo Uno]. Tudo sai e volta a essa unidade, chamada Mônada [no original, “Monos” ou “Monad”, variação grega de Uno]. A alma humana, ao ser reabsorvida pela Mônada, passa por três estágios: a catarse (ou purificação), a dialética (o movimento evolutivo da alma até Deus), e o êxtase (o encontro com a unidade)[7][aliás, eram politeístas, não monoteístas como aparentam os escritos cristãos sobre eles!].


As Artes Mágicas

          A magia, na verdade, constitui-se como um conjunto de ensinamentos secretos das mais antigas tradições da humanidade, em toda sua riqueza e complexidade. Chamada de Grande Arte ou Arte Régia [refere-se aos antigos Reis e os Gênios que desceram das estrelas para ensinar magia a terra, onde, nesta emboscada, instituíram a Bruxaria para preservar a doutrina misteriosa; por isso, a magia visa que cada um torne-se mago, isto é, obreiro de si mesmo para, somente depois, sacerdote ou obreiro de sua comunidade], seus adeptos eram profundos conhecedores das ciências físicas e metafísicas. Por exemplo, a escola Neoplatônica de Alexandria, fundada por Amônio Saccas, o Theodidaktos, ensinava biologia, mineralogia, matemática, botânica, fisiologia, astrologia, psicologia, ética e religião. Todos esses conhecimentos conferiam ao Iniciado misteriosos poderes. Por isso havia um nível muito alto de exigências éticas. Segundo Helena Bavatski, que estudou profundamente as manifestações do espírito, “A austeridade física e a pureza moral desenvolvem o poder anímico da auto-iluminação. E, ao conceder ao homem o domínio de seu espírito imortal, lhe confere também poderes verdadeiramente mágicos sobre entidades elementais inferiores a ele”. Nesta alusão clara ao poder da consciência, Blavatski dá um testemunho claro daquilo em que consiste o segredo. Constituindo-se verdadeiramente numa vivência alquímica da realidade, esse fenômeno vem sendo pesquisado intensamente pelo método transpessoal. 

          É fato que acontece uma transformação interna em todos aqueles que se submetem à experiência da expansão da consciência. Diversos estudos relatam o sentimento de transfiguração da alma e suas consequências práticas na vida cotidiana. A experiência da unidade faz com que o mundo inteiro se torne um “irmão”, como dizia Francisco de Assis. Bichos, plantas, pedras e estrelas não são mais que formas diferenciadas do ser. Só assim faz sentido o preceito budista que diz: “A compaixão não é um atributo. É a Lei das leis”Há, portanto, uma revolução nos valores do adepto. Essa experiência produz, também, um intenso sentimento de liberdade em relação aos apegos materiais e mundanos, que abre os reservatórios do poder àquele que se permite mergulhar nos abismos transpessoais de sua consciência. Não se sabe como advém tal poder [Será que não? Ah, lembrei que esse papo é “científico”!]. Por isto se fala em magia. Talvez por esse motivo, sempre existiu, em todos os tempos e em todas as tradições, uma insistência no mistério e no segredo. Sobre as razões desse segredo, Marco Pugliesi, na introdução de um livro sobre alquimia atribuído a Tomás de Aquino[8] [reencarnação de um filósofo], afirma que as “ciências ocultas são um setor de conhecimento restrito para a massa e reservado a poucos”Por quê? Ainda segundo Pugliesi, por causa dos perigos do encantamento pelo poder, que podem destruir. Ao levantar o véu do mistério do mundo, o adepto toma posse de uma verdade transformadora.

          Há uma grande diferença entre o saber do Mago e o do Sábio, e esta diferença é a qualidade do tênue véu da Iniciação [‘Sábio’ refere-se ao Iniciado, ao passo que ‘Mago’, que também significa Sábio, é usado aqui no sentido negativo, de Mágico ou Enganador]. “Iniciar-se é obter equilíbrio e um ponto de apoio para a alavanca do espírito”, continua Pugliesi, pois o que move o real são formas-pensamento, ou sistemas de grande força energética organizados mentalmente. Por isso é tão importante compreender que, se “o mago vence no mundo, o sábio vence o mundo”O processo da Iniciação é um marco sutil que delimita o início de uma transformação interna, que tem no despojamento, na renúncia e no silêncio, a consolidação do poder sobre a vontade[...] O aprofundamento sobre si mesmo, que é exigido por uma atitude transpessoal, não pode ser reduzido a uma experiência visando meramente a aquisição de poderes mentais, como um capital a mais numa sociedade que só visa o lucro. A conquista de bens pessoais, da abundância ou prosperidade, o acesso ao poder de mudar sua realidade, têm sido enfaticamente colocados como meta, nas diversas teorias que circulam nos últimos tempos. Mas, a atitude transpessoal é algo equivalente a uma transmutação alquímica da alma, e o outro que surge não é, como escreveu Hermes Trismegisto, o ouro vulgar. Se desta alquimia resultar também o ouro da abundância, que isto seja consequência, não o objetivo.

         
De Magos a Bruxos se Perpetua o Segredo

“O espírito é a cambalhota do pensamento para o miraculoso;
é o ato de nos estendermos além de nossas fronteiras
e tocarmos o inconcebível”.
(Castanheda, O Poder do Silêncio)
         
          “Yo no creo em brujos, pero que los hay los hay”. Assim brincamos com isso que nos assombra e do qual quase nada sabemos. Há pouco mais de um século (1894), um grande mistério foi levantado graças à tradução, por Wilheim Kroll, dos “Oráculos Caldeus” atribuídos a um mago chamado Juliano[9]. Consta de versos fragmentados obscuros e incoerentes, que sugerem uma comunicação em transe com “guias espirituais”, como modernamente se conhece. O estilo dos versos está bem de acordo com a prática dos oráculos oficiais existentes em Delfos, onde era necessário que alguém interpretasse aquilo que a sacerdotisa em transe murmurava. O mago Juliano [instituidor da Bruxaria Medieval Pentárquica] teria tido essa função em relação aos Oráculos Caldeus. Juliano era considerado um mago poderoso, que viveu no primeiro século da era cristã. Era consultado por governantes, invocava o espírito de divindades e seres mitológicos e, segundo algumas lendas cristãs, competia com Apolônio de Tiana e Apuleio, dois outros magos famosos, na exibição das artes mágicas. Os fragmentos dos Oráculos foram estudados e comparados com a magia greco-egípcia de alguns papiros encontrados, dando origem à concepção de uma doutrina chamada Teurgia [Teurgia nunca foi doutrina e, sim, a manifestação dos Deuses, prática utilizada entre os Clãs da Mysteria, cujo termo foi cunhado pelos Iniciados do Clã Platônico para distinguir a Alta Magia da Baixa Magia que, no Clã Eleusino, chamava-se por Grande Obra e Pequena Obra, que mais tarde tornar-se-ía comum entre os escritos de alquimia]. A Teurgia consistia em complexas práticas simbólicas de magia baseada numa relação com hierarquias de seres espirituais (anjos, arcanjos, mestres, divindades, etc), com o objetivo de obter concessões especiais, solução para problemas ou cura para doenças.

          Até aqui, nada há que a distinga das outras práticas místico-religiosas que conhecemos. No entanto, existe uma diferença crucial em seu modus operandi. Enquanto as primeiras falavam sobre os Deuses, a Teurgia “agia sobre eles” [um equívoco da autora, pois, nos Clãs da Mysteria também havia a manifestação de Deuses e o uso de práticas mágicas e, no caso do Clã Platônico, que cunhou o termo Teurgia, seus Iniciados buscavam fazer distinção entre o Iniciado ou Sábio versus um ‘Mágico’ ou Enganador ou Sofista – o qual suas operações não eram realizadas por intermédio de Deuses e visavam ordenar espíritos ou obrigar entidades aos seus próprios objetivos egoístas, semelhante como prescrevia a demagogia Sofística – atitude oposta ao do verdadeiro Iniciado, cujos seus atos devem ser justos e em prol do bem comum ou justiça]. Há uma grande diferença nisso [e como, hein!]. Se a "unio mystica" dos Neoplatônicos era atingida por meio de uma disciplina severa do corpo e da mente, a Teurgia baseava-se na prescrição de rituais para o culto do fogo e do sol e para a evocação mágica dos Deuses, através do uso de ervas, cristais e sons sagrados. Além disso, possuía um grande conhecimento de astrologia. Essa diferença de método era bastante criticada pelos filósofos Neoplatônicos [com certeza! Por isso, a distinção entre um Mágico ou enganador versus um Mago Teurgo!], mais voltados para a contemplação. [Os Iniciados Platônicos] Diziam que era uma loucura tentar manipular os Deuses por meio de magia [isto é, fazer mau uso da magia ou usar magia para finalidades injustas]. 

          Mas, os adeptos dessa escola argumentavam que a União Mística se obtinha por vários meios, e um deles era o ritual [acho que a autora não compreendeu adequadamente a verdadeira essência da Mysteria e sua Teurgia, nesta parte, embora tenha um bom raciocínio]. Afirmavam que a razão não tinha meios de atingir o inefável. O Neoplatônico Jâmblico assim se referiu, defendendo essa prática: “A união teúrgica só é atingida pela eficácia de certos atos inefáveis, realizados de modo apropriado, atos além de toda a nossa compreensão, pela potência de símbolos impronunciáveis que só são compreendidos pelos Deuses [...] Mesmo sem esforço intelectual de nossa parte, os emblemas cumprem por virtude própria, sua função”[10]Apesar da discordância que havia entre os dois métodos [são um único método que, quando conhecidos em sua completude, compreender-se-á; a diferença é que Elêusis estava entrando em decadência e superstições, ao passo que a tradição de Pythagoras e Socrates, descendentes do Clã Menfita ou do Amonita, restauraram a antiga Mysteria dando ênfase à filosofia, ao invés da mitologia], a magia exercia um imenso fascínio sobre a mente daqueles filósofos teóricos desesperançados, que discutiram, por tantos séculos, suas questões num nível elevado da razão e da lógica, e agora viam a cultura helênica declinar a olhos vistos. Inútil acusar os teurgistas de “fazedores de milagres”, “pessoas enlouquecidas”, que elaboravam “estudos pervertidos sobre certos poderes oriundos da matéria”[11], comenta Dodds.

          Porfírio (séc. III), um discípulo de Plotino, relata uma sessão de magia à qual teria assistido num templo egípcio, “em terreno recentemente descoberto pela cheia do Nilo e ainda não pisado”, que o teria impressionado extraordinariamente. Um outro filósofo [Platônico], chamado Proclo (séc. V), profundo conhecedor das artes mágicas, define a Teurgia como: “[...] um poder mais elevado do que toda a sabedoria humana, englobando as bênçãos da adivinhação, os poderes purificadores da Iniciação e, em uma palavra, todas as operações da possessão divina”Embora ele defendesse uma função mais elevada da prática Teúrgica, que seria uma arte mágica aplicada com propósitos religiosos, havia também uma magia vulgar, que se utilizava de fórmulas e procedimentos de caráter profano, como técnicas de adivinhação e revelações sobre passado e futuro. Nos comentários que faz aos Oráculos Caldeus, Proclo se refere ao uso de animais, ervas, pedras e perfumes como de uso mágico. Cada um dos Deuses possui seu representante nos mundos animal, vegetal e mineral, sendo sua natureza de essência divina. Era conhecida apenas dos Iniciados nessa arte a pronúncia correta das fórmulas e dos nomes que estabeleciam uma correspondência mágica com os Deuses. Por isso, as fórmulas perdiam sua eficácia quando traduzidas para o grego ou outra língua qualquer [por isso, utilizava-se a Linguagem Prateada no sistema pagão de Árvore da Lua chamado como Filosofia antiga, analogamente ao sistema hebraico da Cabalá].

         
Como Surge o Poder das Imagens

          Dessa vasta e complexa doutrina na qual confluem, por um lado, o conhecimento adquirido de outras realidades através de estados alterados da consciência e, por outro lado, o uso que desses conhecimentos foi feito, surgiam práticas que persistem até nossos dias e que foram, inclusive, incorporadas pela cultura e pelo Cristianismo [como é o caso de algumas Ordens co-maçônicas Neotemplárias”, a Ordem Rosacruz e a Ordem Martinista e seus ramos descendentes]. Uma delas se refere ao culto às imagens. No Egito Antigo as fórmulas sagradas eram escondidas dentro de estátuas, que adquiriam assim a qualidade de objeto divino. Com o tempo, essa prática evoluiu para a arte de aprisionar deuses e demônios no interior de imagens consagradas para este fim, com a ajuda de ervas, gemas e aromas. A partir do século I de nossa era, essa prática se expandiu para fora do Egito, passando do uso pagão das imagens para os amuletos e talismãs medievais. Afirmavam poder provar que “os ídolos são divinos e estão cheios de Deuses”, desde que feitos sob determinadas condições astrológicas e consagrados devidamente; daí a crença tão comum do poder das imagens em prever o futuro, proteger dos males e das doenças, prevenir acidentes. Enquanto os magos procuravam induzir a presença divina no interior de receptáculos inanimados [como o Crânio com Tíbias Cruzadas, símbolo órfico do Uno, utilizado na Bruxaria Medieval para comunicação com o além], um outro ramo da Teurgia [ou, melhor falando, do Clã Platônico] buscava apreender a presença de seres espirituais no interior do próprio corpo humano. 

          Proclo afirmava a capacidade da alma de deixar e retornar ao corpo, e que havia uma técnica capaz de induzir este fenômeno em condições especiais. Esta crença fazia parte, naturalmente, dos Oráculos Caldeus, mas também dos papiros egípcios. Dodds reconhece que este ramo da Teurgia é particularmente parecido com o Espiritismo moderno [afinal, o instituir do Espiritismo, o vergôbreto Allan Kardec, era um Bruxo e Druida!]. O deus (ou o espírito) era visto entrando no corpo do médium não como um ato espontâneo de graça, mas como resposta a um apelo [que, também, podia materializar coisas e, como faziam as Bacantes, Bruxas e Iniciados do Clã Dionisíaco da Bruxaria Clássica, promover o florescimento da vegetação e das plantas ou verter vinho ou água, como um ato de magia considerada "miraculosa" para quem não têm domínio]. As sessões assistidas por Proclo no começo de nossa era, no Egito, se iniciavam com uma purificação do médium com água e fogo [ou com água, ar e fogo]; depois vestia uma cinta especial [chamada de Cíngulo, na Bruxaria Medieval Pentárquica], apropriada para a invocação da Divindade, a Lintea Indumenta dos magos, segundo Porfírio, ou o Purum Pallium de Apuleio. Essa indumentária constava de uma grinalda magicamente consagrada, uma longa capa [a Túnica ou Bassaris que, na Bruxaria Medieval Pentárquica, sua cor variava segundo o grau da bruxa] e uma adaga especial [o Athame, na Bruxaria Medieval Pentárquica] para uso religioso. 

          Segundo os narradores, a pessoa do médium podia se metamorfosear, tornar-se alongada, dilatada ou até mesmo levitar [vide: as Bruxas Medievais Pentárquicas sob o Báculo ou Vassoura, ou as Bruxas/Iniciadas Bacantes sob o Tirso ou Liknites Dionisíaco]. Muitas vezes, as manifestações tomavam a forma de luminosas aparições, mas, na falta dessas, afirma Jâmblico que não havia certeza sobre a natureza do deus (ou do espírito) presente. [...] Durante cerca de 600 anos de filosofia (calcula-se um período que vai do fim do século IV a. c. até o séc. III), a razão tentou elevar o espírito humano a uma dimensão crítica e consciente de sua liberdade de pensamento. Durante todo esse período, o racionalismo dogmático dos filósofos [não de todos os filósofos, pois, a filosofia sempre foi multifacetada e utilizada por diversas pessoas em todos os povos e tempos, a espiritualidade perene, pertencente a movimentos sem relação direta entre si, apesar de que a Filosofia greco-romana era um mais puro e autêntico ocultismo que se pode conceber] se concentrou apenas numa imagem idealizada do ser humano, iluminada pelo Logos e pela Ratio, deixando de ver o fundo de sua alma, suas paixões, seu inconsciente nebuloso, seu mistério. 


          Zenão [um filósofo do Sofismo, opositor da filosofia do Clã Socrático-platônico] chegou mesmo a declarar que os Templos eram supérfluos, porque o verdadeiro templo de Deus era o intelecto humano. Esta apologia à Razão obscureceu o lado espiritual e intuitivo da consciência, que passou a ser associado a forças irracionais e primitivas. Na medida em que declinava esse período fugaz de brilhantismo da razão, onde o ceticismo predominava entre os intelectuais, voltavam gradativamente crenças e tradições antigas locais e de outras culturas, sobretudo orientais. Uma literatura “pseudo-científica”, divulgada sob pseudônimos e calcada em revelações divinas, começou a se alastrar por toda a Grécia e Roma, entre elas a astrologia. A astrologia também faz parte desse “retorno do irracional”, segundo as palavras de Dodds [puritano, hein!]. Ele cita que ela “caiu sobre a mentalidade helenística como uma nova doença que atinge algum povo de uma ilha remota”[12]. Para que um conhecimento antigo seja tratado como uma peste, é preciso que a cegueira tenha tomado conta dos corações. A astrologia era um conhecimento complexo e muito antigo, cuja origem remonta aos Sábios da Babilônia. De lá teria se espalhado pelo Egito até se alastrar por toda a Grécia durante o século II de nossa era, chegando até Roma.

“As almas dos ainda não nascidos assumem o caráter dos Deuses que elas seguem [...] e esses doze [...] parecem estar localizados nos doze signos do Zodíaco”.

          Assim foram traduzidos por Bidez e Festugière, dois estudiosos do assunto, esses fragmentos que falam da relação da vida humana com os astros. Embora fosse conhecida tanto pelos [Iniciados] Platônicos quanto pelos [filósofos] Aristotélicos, a astrologia trouxe consigo um conjunto de analogias que iria influenciar profundamente o pensamento até à Idade [Média ou Moderna].





[1] E. R. Dodds. Os Gregos e o Irracional. P. 71-72.
[2] Pierre A. Riffard. O Esoterismo. Editora Mandarim, 1996.
[3] Porfírio. Vie de Pyithagore. Editora des Places, Les Belles Lettres, p. 51-52.
[4] Seguers. Paroles d’Or des Phitagoriciens. Editora des Places, 1973, p. 113-151.
[5] Seguers. Empédocles. Editora des Places, 1966, p. 185-188.
[6] Oracles Chaldaiques. Editora des Places, Les Belles Lettres, p. 66-67.
[7] Junito de Souza Brandão. Mitologia Grega. Vol. II, Editora Vozes.
[8] Tomás de Aquino. A Arte da Alquimia e a Pedra Filosofal. Editora Global, p. 10-11.
[9] W. Kroll. De Oraculis Chaldaicis. Breslauer Philologische Abhandlugen, VII.I, 1984 apud E. R. Dodds. Os Gregos e o Irracional.
[10] Bidez. De Misteriis ou “Abammon”. Mélanges Desrousseaux, 1911.
[11] E. R. Dodds. Os Gregos e o Irracional.
[12] Idem. Ibidem, p. 246.



[Ambos os textos apresentaram um ensaio da origem da Bruxaria. Neste portal virtual dispomos a sabedoria da origem da Bruxaria, o que foi a Bruxaria no passado e o significado da Bruxaria, mas, de nada adianta, termos acesso ao conhecimento teórico se não acessarmos este mesmo conhecimento que está submerso em nosso íntimo, como um iceberg, cuja grandiosidade está oculta pela água que, como argonautas, devemos atravessar o mar dos instintos e das paixões, em busca do "Caput Galeatum" ou Velocino Dourado do Elmo Cornígero, o halo áurico ou auréola de magia na gálea de que ensinou Hermes Trismegistos o Crióforo como conquistar. Pois, apenas é conhecido o sentido deste conhecimento se tirarmos nossas cascas e cavarmos nosso próprio Tesouro ou Ouro de Theseus escondido na profundidade do eu, ou seja, é preciso relembrar e trazer o conhecimento antigo à consciência, recordando "de quem somos e de onde viemos, onde estamos e para onde vamos" e, somente a partir disso, percebemos realmente que 'Nascemos!'. Uma maravilha indescritível que, descendo das trombetas do alto, inunda nosso ser em chamas de fogo, o estado inspirador de Musa ou Mênade, em busca de heroísmo ou santidade de que está previsto pelos desígnios dos Deuses. Boa sorte!].



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Ao benemérito St. Prior J.'.E.'.C.'.S.'.
Pela divindade do Uno, do Deus e da Deusa,
Ao Filho Divino, Vida, Saúde, Força e União!

Três Vezes Abençoado.