{A tradução ao português, às vezes, pode apresentar dificuldades de compreensão das palavras, mas, no entanto, dá de entender}.
Fonte: GARDNER, Gerald B. A Bruxaria Hoje ("Witchcraft Today"). Edª Brasileira. São Paulo: Madras Editora, 2003.
1.
A
garra de um lince. Usada hoje em dia como remédio e como amuleto.
7.
A
lâmina de uma faca de ferro e um fio de bronze. O aço tem uma grande força,
especialmente em forma de lâmina.
1. A liturgia começa com
uma donzela que, ajudada por um criado e dois jovens rapazes (um deles
segurando um espelho diante dela), e supervisionada por uma sacerdotisa, está
preparando seu enxoval de casamento. Ela está envolvida no sindon, um véu ritual que era posto
nos neófitos dos mistérios; ela é a noiva mística, a catecúmena, preparando-se
para celebrar, sob o símbolo do matrimônio, sua comunhão com
5. A neófita renasceu em
Zagreus; começou a viver a vida do deus, mas terríveis provas a esperam.
Sileno, sentado em uma coluna, mostra a ela uma caixa de prata hemisférica, na
qual um jovem está deitado em êxtase enquanto o seu companheiro segura no alto,
atrás dele, uma máscara dionisíaca. Sileno se volta para a neófita,
identificada pelo sindon, e
mostra aquilo que visivelmente a enche de terror. Ela se encolhe como quem quer
fugir e faz o gesto de alguém que quer expulsar de seus olhos a terrível visão.
A caixa hemisférica na qual o jovem está deitado extaticamente é um espelho
mágico; ele está fascinado e caiu vítima de um monoideísmo alucinatório e, como
acontece em cristalomancia, vê no espelho uma série de visões que têm seu ponto
inicial na máscara e na vida de Dionísio. Ele vê desenrolar-se no espelho a
vida do deus, vê como foi feito em pedaços e devorados pelos Titãs e, em
resumo, vê o futuro destino da neófita, que, se nascesse de novo como uma nova
criatura, deveria morrer junto com Zagreus. É essa assustadora morte dionisíaca
que ele anuncia à donzela. É uma adivinhação que se está vivenciando e é por
meio de Sileno, primeiro o pedagogo e depois o mistagogo de Dionísio, que ela é
vivenciada. Além de incluir a anunciação da futura morte da neófita, essa cena
envolve outras repetições dos mais importantes gestos atribuídos por mito ao Deus:
Dionísio, quando criança, observa em um espelho mágico, feito para ele por Hefestos,
seu futuro destino. Outra tradição é que os Titãs assassinaram Zagreus mostrando-lhe
em um espelho seu próprio rosto desfigurado, distraindo assim sua atenção para
poder matá-lo. Como o drama sacramental consistia na repetição das ações do Deus
para obter, por essa imitação, a comunhão com ele, isso explica por que a neófita,
ou o jovem em seu benefício, olha no espelho como Dionísio o fez para se tornar
igual a Dionísio e morrer com ele.
6. A neófita, após receber
a anunciação, tornar-se-ia a noiva mística de Dionísio; para representar simbolicamente
esse casamento ela está prestes a descobrir um imenso phallus que trouxe consigo em um cesto sagrado. Ela o coloca no
solo e parece humildemente suplicar o assentimento de uma figura alada seminua,
calçada com suas botas dionisíacas, com um rolo ritual na cintura e uma vara na
mão. É Talatéia, a filha de Dionísio, a personificação e executora da
iniciação.
Fonte: GARDNER, Gerald B. A Bruxaria Hoje ("Witchcraft Today"). Edª Brasileira. São Paulo: Madras Editora, 2003.
By Gerald Brosseau Gardner
PREFÁCIO
PREFÁCIO
Bruxas da
Inglaterra me disseram: "Escreva e conte às pessoas que não somos
pervertidas. Somos pessoas decentes, apenas
queremos ser deixadas em paz, mas há certos segredos que você não pode
revelar." Após alguns argumentos sobre o que não deveria ser revelado,
tive permissão de contar muito do que jamais havia vindo a público em relação a
suas crenças, seus rituais e suas razões para o fazer; também para enfatizar
que nem suas presentes crenças, nem seus rituais e práticas são maus.
Escrevo
apenas sobre o que ocorre no Norte, Sul, Leste e Oeste da Inglaterra de hoje,
em grupos de bruxas que eu conheço.
Além disso, mostrei a origem de pelo menos algumas das histórias que foram
contadas sobre o ofício. Posso apenas repetir as palavras de Lúcio Apuleio nas Metamorfoses,
XL, 23, que escreveu um longo relato de sua própria iniciação nos mistérios
em linguagem crítica, dizendo: "Contei a você coisas que, embora você
tenha ouvido, não pode saber o significado".
O Museu de Magia e da Bruxaria em
Castletown é o único no mundo devotado à magia e à bruxaria. Tenho provas materiais do
que digo.
Eu
gostaria de manter contato com pessoas de outros grupos de bruxaS para discutir esses assuntos e ouvir alguém que tenha
mais informações sobre o tema da bruxaria. Desejo agradecer ao sr. Ross
Nichols, editor da cristã História e Pré Magia, por me fornecer informações suplementares e por suas sugestões e comentários muito úteis.
Gerald B. Gardner
Diretor,
Museu de Magia e da Bruxaria
The
Witches' Mill
Castletown,
Ilha de Man.
INTRODUÇÃO DA EDIÇÃO BRASILEIRA
A
Bruxaria Hoje, de
Gerald Gardner, é um marco no renascimento da bruxaria, ou na criação da wicca
(palavra de origem anglo-saxã). Este livro serviu para trazer a público a
bruxaria e para reavivar o interesse pelo tema, tarefa engendrada anos antes
por Aradia, o Evangelho das Bruxas de Charles Godfrey Leland, o
importantíssimo O Culto das Bruxas na Europa Ocidental de Margaret
Murray* e A Deusa Branca de Robert Graves, sem esquecer, é claro, O
Ramo de Ouro de Sir James Fraser. Todos estes livros semearam o caminho
para que a wicca viesse a florescer.
Gardner
passou a maior parte de sua vida trabalhando na Malásia. Desta forma, pôde
entrar em contato com várias tradições exóticas. Este gosto fez com que, após a
sua aposentadoria e regresso à Inglaterra, ele ingressasse na "Sociedade
de Folclore". Além dela, ele percorreu os meandros do ocultismo britânico, pesquisando as mais
diversas fontes. Nessas pesquisas, ele conheceu Aleister Crowley e Old Dorothy
Clutterbuck, importantes figuras em sua trajetória.
Gardner
foi membro da "Fellowship of Crotona", em New Forest , onde ele se
deparou com Dorothy Clutterbuck, que o teria
iniciado na bruxaria.
Podemos
imaginar que Gardner forjou a iniciação no coven de Old Dorothy, ou, de
fato, ele se deparou com este coven, talvez um grupo formado baseado no
trabalho de Murray. Há quem diga que este coven nunca existiu, mas há
relatos que dizem que na segunda grande guerra, em New Forest , um grupo de
bruxas se reuniu para impedir o desembarque dos exércitos nazistas.
A própria
existência de Old Dorothy Clutterbuck era colocada em dúvida; por sua vez, Doreen
Valiente, discípula de Gardner, consegue provar a existência de Old Dorothy
Clutterbuck.
* Lançado pela Madras Editora
Nada disso
prova efetivamente a afirmação de Gardner e, por sua vez, também não a nega. O que salta aos olhos é o ecletismo
de elementos usados por Gardner na confecção da wicca. Muitos dos rituais são
criados a partir de elementos da Magia Cerimonial, especialmente a advinda da
Aurora Dourada (Golden Dawn), da Maçonaria, dentre outras fontes. Os
fundadores da G.D Mathers, Westcoott e Woodman eram maçons e membros da SRIA,
da qual, por sua vez, Hargrave Jennings era membro.
Havia
boatos da ligação de Jennings com um conventículo, e Gardner até imaginava que
ele poderia ser o "autor" do Livro
das Sombras. As ligações de Jennings com cultos fálicos são proverbiais. Hargrave
Jennings era o autor do livro Os Rosa-crucianos, no qual narra várias
facetas do ocultismo e dentre elas elementos da
bruxaria.
Duas
fontes têm uma importância especial na criação da wicca: Aleis-ter Crowley e
Charles Godfrey Leland, através do seu livro
Aradia, o Evangelho das Bruxas. Para alguns estudiosos, o verdadeiro
"pai" da bruxaria wicca foi Aleis-ter Crowley e não Gardner, sendo
Crowley o autor do Livro das Sombras*
Muitos
anos antes, Crowley já havia se colocado como profeta na nova era e ressurgidor
do paganismo. Tinha pesquisado e
desenvolvido várias vertentes da Magia e seria a pessoa ideal para "consultor" de
criação de um culto de bruxaria. Gardner foi feito membro da O.T.O,** ordem
Mágicka reestruturada por Crowley. Lá ele veio a conhecer Kenneth Grant, dentre
outros. A relação entre os dois (Crowley e Gardner) era amistosa, e o próprio
Gardner crê que uma das pessoas capazes de ter escrito o
Livro das Sombras era Crowley. Uma forma talvez de lhe dar a autoria sobre o livro, ou
justificar a grande quantidade de material de Crowley.
Independentemente
de quem foi o autor, há inúmeras passagens de Crowley no Livro das Sombras de
Gardner: "Eu sou a chama que arde em todo coração humano, e no núcleo de
toda estrela. Eu sou Vida, e o doador da vida, entretanto, conhecer-me é
conhecer a morte". "Eu os amo! Eu anseio por vós! Pálido ou púrpura, velado
ou voluptuoso, Eu que sou todo prazer e púrpura, e ébria no sentido mais
profundo, os desejo."
De todas
as passagens, a mais clara é "Faz o que tu queres desde que não
prejudiques a ninguém" (ou correlata), uma adaptação clara de "Faz o
que tu queres há de ser o todo da Lei", a máxima de Crowley. Ou ainda o
uso do pentagrama "Meu número é 11, como todos seus números que são nossos. A Estrela de Cinco
Pontas, com um Círculo no meio". O pentagrama wiccan é o inverso, ou seja, uma estrela
circundada pelo círculo.
*A
History of Witchcraft, J.B. Russell Thames and Hudson ltd.
*_ O.T.O: Caixa Postal 12108-São
Paulo/SP - CEP. 02013-970 - e-mail: oto@otobr.org
Site: www.aleistercrowley.com.br.
Há
inúmeras outras passagens e partes nitidamente influenciadas (ou escritas por
Crowley). A outra como vimos foi o livro de Leland Aradia, o Evangelho das
Bruxas, escrito através do relato de uma jovem chamada Maddalena -uma bruxa
de Florença, na Toscana. Ela se diz descendente de uma tradição da bruxaria, a Stregoneria.
O quanto disso foi invenção da "fonte" (uma bruxa que concordou
em revelar alguns segredos) de Leland ou criação dele próprio não sabemos, mas
o importante é que este livro trazia em "primeira mão" um culto de
bruxaria.
No Evangelho
das Bruxas é narrada a história de Diana, que se une com seu irmão e filho Lúcifer.
Desta união nasce Aradia, que vem à Terra para ensinar a arte da bruxaria.
Tecnicamente, esta tradição remontaria aos etruscos. Por mais que a narrativa
de Leland seja difícil de sustentar-se, é bom lembrar que relatos sobre o culto
da deusa Diana (mãe de Aradia) são conhecidos durante a Idade Média. Este culto
era atribuído às bruxas, as fiéis da deusa.
O
historiador (antropólogo) Cario Ginzburg em seus livros Storia Notturna, Una
decifrazione dei sabba e / benandanti: stregoneria e culti agrari tra
Cinquecento e Seicento coletou vários relatos sobre bruxaria, paganismo e
cultos da fertilidade na Idade Média e Moderna. Vale salientar que na pesquisa
de Ginzburg um dos nomes da deusa era Diana, nomenclatura usada pela Igreja.
Por sua vez, a deusa era chamada na verdade de várias outras formas. O sincretismo
entre os cultos pagão e o cristianismo se fazia presente, mas muito
provavelmente a roupagem cristã fosse a camuflagem de um substrato pagão muito
mais antigo.
O papel
da Igreja foi demonizar os cultos e enquadrá-los às idéias oficiais, ou seja o
Sabá de adoração ao diabo. A igreja católica
contribuiu à sua moda para a união entre Diana e as divindades germânicas da fertilidade, já que,
durante as conversões destes povos, nomenclaturava as divindades locais de Diana, um nome
"clássico". De outra feita, isso facilitava "encaixar" as
crenças politeístas à sua teoria demonológica.
A
influência da igreja fez também com que as deusas se confundissem no imaginário popular; as narrativas no púlpito
acabavam criando o que tencionavam erradicar. Não só a Igreja interpretava as divindades de outros
locais como sendo as do mundo clássico, os romanos muitas vezes efetuavam correlações entre as
suas divindades e de outros povos. Faziam parte do Império populações celtas, teutônicas e
eslavas, dentre várias outras. Desta forma, por exemplo, Diana - a Deusa romana - ganhava atributos da
Epona céltica.
O Império
Romano acabou por promover a miscigenação de cultos. Isso produziu sincretismo
entre algumas divindades. Para completar o quadro no fim do Império, com a
invasão dos bárbaros, mais tradições e influências se acumulam. A Itália foi conquistada
por godos, vândalos, lombardos e hunos. Séculos depois, veio o Sacro Império Romano
Germânico.
Essa
miscigenação produziu lendas sobre a "cavalgada das bruxas",
chefiadas pela Deusa Diana. Um sincretismo entre as
divindades mediterrâneas e as germânicas. Os nórdicos em seus Eddas mencionam
que as bruxas iam para sua reunião montadas em lobos, javalis ou "paus de
cerca". Para termos uma idéia, as crenças em uma deusa noturna,
"Diana", se manteve bem viva em alguns locais da Itália. Em 1457,
três senhoras são processadas por causa disso. As acusadas chamavam a deusa de
Bona Domina ou Richella.
O Bispo
que as interrogou tentou convencê-las das loucuras de suas afirmações, dizendo
que eram induzidas pelo Demônio, por
demência e ignorância. As senhoras haviam narrado que participavam de reuniões,
nas quais se comia, bebia e dançava, e havia homens vestidos de peles. Richella surgiu em uma carroça; era
uma mulher bem vestida, e ao tocar as senhoras fez delas suas seguidoras.
Estas
"bruxas" eram praticantes de um culto extático de natureza xamânica,
centrado na adoração de uma deusa. As partes da Europa que tiveram em sua
história influência céltica eram locais proeminentes desses cultos.
É curioso
como o padrão se repete em vários locais do velho mundo, de forma alguma mantendo
um todo coeso, mas, por sua vez, mantendo vivos elementos do paganismo (ou xamanismo)
até períodos recentes. Os locais mais impensáveis foram palcos destes cultos,
como por exemplo a Sicília do século XVI.
Na
Romênia, por exemplo, a deusa tinha o nome de Irodiada ou Arada. Cario Ginzburg
afirma: "Relatos vindos de um lado a outro da Europa, em um intervalo de tempo
milenar, trouxeram à tona os traços de uma religião extática predominantemente
feminina, governada por uma deusa noturna de muitos nomes. Nessa deusa
vislumbramos um hibridismo tardio, de divindades célticas."
No
julgamento de Isabel Gowdie no Reino Unido, há narrativa do encontro com o
mundo elemental, ou das fadas, mas prontamente os inquisidores levaram o
julgamento ao ponto que os interessava, o Diabo. Os familiares
das bruxas eram derivados dos espíritos dementais, fadas, gnomos, etc, e não de
demônios.
O
processo de satanização das crenças é bem observado no caso dos Benandanti, um
culto da fertilidade que protegia as
colheitas e lutava contra as bruxas ( na verdade, uma batalha simbólica). A
princípio o sincretismo entre o cristianismo e as crenças locais é harmonioso,
e os Benandanti são defensores das crianças e das colheitas; com o passar do
tempo, eles se enquadram na visão do sabá satânico, fruto talvez de anos de
pregação ou da evolução dos costumes e da degradação do ambiente. O palco foi o
Friuli no norte da Itália, que era um rincão isolado, onde se encontravam as influências
germânicas, eslavas e italianas.
É
possível rastrear cultos similares por todo o leste europeu, onde tradições
xamânicas se mantêm vivas, unidas a elementos do
cristianismo. Santo Agostinho menciona que as religiões pagas foram inventadas
pelo Diabo para afastar as pessoas da fé cristã. Quando os fiéis cultuam as
divindades pagas, na verdade cultuam o Diabo. Por outro lado, a Igreja usurpava
as características e os dons dos deuses pagãos para os seus santos.
A Igreja
tratou todos os cultos que encontrou da mesma forma, tanto que o termo pagão,
em sua origem, é pejorativo, designando
algo primitivo, rústico. Um ponto curioso sobre a bruxaria é o padrão muito
similar encontrado nos locais mais diferentes e sem nenhum contato. A melhor,
ou uma das melhores explicações, é o inconsciente coletivo e a teoria dos
arquétipos.
Desta
forma, a grosso modo, a bruxaria seria transmitida não-linear-mente, de bruxa
para bruxa, mas sim, como um aspecto profundo da raça humana. Desta forma, ela
poderia emergir nos locais mais distantes entre si, como de fato aconteceu.
Isso explica, em parte, a similitude entre alguns aspectos da bruxaria africana
e a inglesa. Notei isso em minha pesquisa sobre Vampiros e Bruxaria, em que o
padrão dos relatos se repetia, da Malásia ao Caribe. Inúmeros outros pesquisadores
se depararam com este padrão, suscitando as mais diversas teorias.
A
bruxaria é parte integrante da Magia européia, e não só no passado remoto.
Alguns membros de Ordens como a G.D fizeram
pesquisas de campo, nas quais afirmam ter encontrado estas tradições vivas. Temos o relato de J.W
Brodie-Innes sobre as tradições celtas e de bruxaria, publicadas na revista Occult
Review (vol XXV), ou mesmo o brilhante artista plástico Austin Osman Spare,
criador do Zos Kia Cultus, que foi iniciado pela senhora Paterson, uma
americana que alega ser descendente das bruxas de Salen.
Gerald
Gardner recebeu inúmeras críticas, e seu caráter foi colocado em dúvida. É
sempre bom lembrar que na época de Gardner a teoria de Murray era aceita e
oficial, tanto é assim que o verbete da enciclopédia britânica sobre bruxaria
era dela.
A
bruxaria, após seu renascimento efetivo, nas mãos de Gardner, se multifacetou
em várias tradições. Cada uma delas ao seu modo tenta resgatar (em verdade
recriar) os mistérios antigos. Algumas tradições mais sérias, outras nem tanto,
mas, sem dúvida, um movimento de vital importância no resgate do feminino (o papel da
mulher na religião), da natureza e de uma visão mais holística do Cosmos.
Bons
ventos trazem estas novas (e antigas) tradições. O criador da wicca, seja
Gardner ou Crowley, estaria feliz em muitos pontos com o resultado. E devemos
muito a eles. Por mais que muitos se digam hereditários, não teríamos a
liberdade e o entendimento, fruto do trabalho dos dois.
Marcos Torrigo
INTRODUÇÃO
Neste
livro, o Dr. Gardner afirma ter encontrado em várias partes da Inglaterra
grupos de pessoas que ainda praticam os mesmos ritos das chamadas
"bruxas" da Idade Média; declara também que os ritos são uma
verdadeira sobrevivência e não um mero renascimento copiado de livros. Em seu
estilo simples e agradável, ele dá um esboço de práticas similares nas antigas
Grécia e Roma; suas experiências pessoais no Extremo Oriente o habilitam a
mostrar que há muitas pessoas, no Oriente ou na Grã-Bretanha, que ainda
realizam atos de culto ao Doador de Vida Todo-Poderoso, de acordo com o antigo
ritual. Embora o ritual da Europa esteja agora em conformidade com a
civilização moderna, o sentimento que une os primitivos aos civilizados é o
mesmo: gratidão ao Criador e esperança na continuação de Sua bondade.
O culto
pessoal pode tomar qualquer forma, mas um grupo de pessoas cultuando juntas sempre
demanda algum tipo de ritual, especialmente quando o culto é sob forma de
dança. A dança ritual, realizada como forma de culto ou como expressão de uma
prece, é caracterizada pela ação rítmica. A dança-prece serve usualmente para
pedir a multiplicação do alimento e imita de forma estilizada os movimentos dos
animais ou o crescimento das plantas cujo incremento é desejado. A dança-culto
é ainda mais rítmica que a prece. Todos os movimentos são rítmicos e o acompanhamento
é um canto ou instrumentos de percussão que marcam fortemente o ritmo. Os movimentos
rítmicos, os sons rítmicos e a sintonia de muitas pessoas, todas empenhadas nas
mesmas ações, induzem um sentimento de euforia, que pode aumentar para uma
espécie de arrebatamento. Esse estágio é frequentemente visto pelos adoradores
como um favor divino especial, denotando o real advento da Deidade no corpo de
um adorador. As bacantes da ardente Grécia induziam a intoxicação bebendo vinho
e tornando-se assim uma só com seu Deus.
O Dr.
Gardner mostrou em seu livro o quanto a chamada "Bruxaria" vem dos
antigos rituais e nada tem a ver com lançar feitiços
ou outras práticas maldosas, sendo a sincera expressão do sentimento para com
Deus, também expresso, mais decorosamente embora não com maior sinceridade,
pela cristandade moderna nos cultos da Igreja. Mas as danças processionais das
bacantes bêbadas, as cabriolas selvagens em torno do Santo Sepulcro como
registradas por Maundrell no fim do século XVII, a dança saltitante das
"bruxas" medievais, o solene zikr do camponês egípcio, os
rodopios dos dervixes, tudo tem origem no desejo de estar "Mais próximo,
meu Senhor, de Ti", e de mostrar por suas ações a intensa gratidão que os
adoradores acham incapazes de exprimir com palavras.
Dra. Margaret Murray
Outrora Professora Assistente de
Egiptologia na University College,
Londres.
CAPÍTULO I
BRUXARIA VIVA
Alguns livros sobre bruxaria - o autor teve permissão
de escrever sobre bruxas — "visão de dentro " — iniciações primitivas
afins à bruxaria — o poder das bruxas exsuda do corpo, a partir da nudez — a
teoria do autor sobre um campo eletromagnético — certos ritos aumentam a
clarividência — o autor refuta a visão do sr. Pennethorne Hughes de que a
bruxaria é um culto ao mal - rituais das bruxas — bruxas não são pervertidas
frustradas — sua crença de que seus ancestrais vêm do Oriente e o paraíso é ao Norte -
cerimônia do renascimento do sol - o caldeirão da regeneração e a dança da roda
- a natureza do círculo da bruxa para manter o poder - negação do uso de
caveiras, etc. - bruxas nada têm a ver com a Missa Negra - a iniciação à
bruxaria desenvolve certos poderes conhecidos coletivamente como magia -
"dentro do círculo elas estão entre os mundos " - necessidade de um
parceiro.
Muitos
livros foram escritos sobre bruxaria. Os primeiros foram, na maioria,
propaganda escrita pelas Igrejas para desencorajar e assustar as pessoas que
tivessem conexão com o que para eles era um odiado rival - pois a bruxaria é
uma religião. Mais tarde, apareceram livros empenhados em provar que esses
ritos jamais existiram. Alguns desses livros podem ter sido inspirados ou mesmo
escritos pelas próprias bruxas. Depois, muitos livros trataram da bruxaria de
maneira científica, com autores como a Dra. Margaret
Murray, R. Trevor Davis, Christine Hoyle, Arne Runeberg, Pennethorne Hughes e
Montague Summers. O Sr.
Hughes, em seu livro mais pesquisado, provou claramente (em minha opinião) o
que muitas pessoas já sabiam: que o Povo Miúdo dos lugares quentes, chamados
fadas ou elfos em uma época, foram chamados de bruxas mais tarde; mas, a meu
ver, todos esses livros têm um erro. Embora seus autores soubessem que bruxas
existem, nenhum deles consultou uma bruxa¹.
1. Há tanto bruxas homens quanto
mulheres, mas em inglês (e em português - n. da T.) uma bruxa é
sempre chamada "ela ", de forma que vou usar esse gênero - e o
leitor deve entender como sendo tanto masculino como feminino.
sobre suas visões a respeito da
bruxaria. Afinal, a opinião de uma bruxa deveria ter algum valor, mesmo se não se encaixasse nas opiniões
preconcebidas.
É claro
que há boas razões para essa reticência. Recentemente, conversava com um culto professor
continental que escrevia sobre bruxas de dois mil anos atrás e ele me contou
que obtivera muita informação das próprias bruxas. Mas, embora tivesse sido
convidado, teve medo de comparecer a suas reuniões. O sentimento religioso era
muito forte em seu país e, se descobrissem que ele se comunicara com bruxas,
ele se arriscaria a perder sua cadeira. Além disso, as bruxas são um povo
tímido, e publicidade é a última coisa que querem. Perguntei à primeira que
conheci: "Por que você mantém
secreto todo esse maravilhoso conhecimento? Hoje em dia não há mais
perseguição". Ela me respondeu: "Não
há? Se a aldeia soubesse o que sou, cada vez que uma galinha morresse, cada vez
que uma criança adoecesse, eu seria a culpada. A bruxaria não paga as janelas quebradas!"2
Sou
antropólogo e é consenso que o trabalho de um antropólogo é investigar o que as
pessoas fazem e em que acreditam, e não o
que outras pessoas dizem que elas fazem ou acreditam. Também é parte dessa tarefa ler tantos
escritos sobre o assunto investigado quanto possível, embora sem aceitar tais escritos cegamente,
especialmente quando são conflituosos com o que mostra a evidência. Os antropólogos devem esboçar suas
próprias conclusões e fazer algumas teorias próprias, mas devem deixar claro que aquelas são suas
próprias conclusões e teorias, e não fatos provados; e este é o método que
proponho adotar. Quando se trata de raças nativas, é preciso gravar seu
folclore, as histórias e ritos religiosos nos
quais baseiam seu atos e crenças. Então por que não fazer o mesmo com as bruxas inglesas?
Devo explicar
por que falo de coisas em geral desconhecidas. Fui por toda a minha vida interessado em magia e assuntos
afins, tendo feito uma coleção de instrumentos e encantamentos mágicos. Esses estudos me levaram
aos espiritualistas e a outras sociedades, quando encontrei pessoas que diziam ter me conhecido
em vidas passadas. Aqui devo dizer que, embora acredite em reencarnação assim como a maioria
das pessoas do Oriente, não me lembro de nenhuma vida passada, embora tenha tido
experiências curiosas. Eu gostaria de lembrar. De qualquer maneira, logo eu estava no círculo e prestei
os juramentos usuais de silêncio que me obrigavam a não revelar nenhum dos segredos do culto. Mas,
por ser um culto moribundo, sempre lastimei que todo aquele conhecimento devesse perder-se, de
forma que me foi permitido escrever, como ficção, algo sobre a crença das bruxas na obra High
Magic 's Aid? O presente volume tem o mesmo propósito, mas trata do assunto de maneira factual.
2. Lembro-me de um garoto lendo nos
jornais sobre uma mulher sendo lentamente queimada até a morte na Irlanda como bruxa. Para
esse relato, veja Folk-lore,
Vol. 6, 1895: "A queima da Bruxa em
Clonmel".
3.
Publicado por Michael Houghton, 49 Museum Street, Londres, W. C. 1.
Muitas
pessoas me perguntam como posso acreditar em magia. Se eu explicar o
que acredito que seja a magia, dou um grande
passo em direção à resposta. Minha opinião é que se trata simplesmente do uso de algumas
faculdades extraordinárias. É fato reconhecido que tais faculdades existem. Os chamados meninos
calculadores são famosos e muitas pessoas têm a capacidade de, sob transe hipnótico, calcular o
tempo mais acuradamente. Enquanto dormem, recebem ordens de fazer algo ao fim de, digamos, um
milhão de segundos; eles nem compreenderiam tal ordem em seu estado normal, mas seu
inconsciente profundo faz os cálculos e ao fim do milionésimo segundo eles obedecem a ordem sem saber o
porquê. Tente calcular um milhão de segundos no estado de vigília e diga quando eles se
tiverem passado, sem um relógio, para saber o que isso significa. Os poderes usados são completamente
diferentes de qualquer poder mental que conheçamos.
Exercitá-los
é, normalmente, impossível. Logo, se há pessoas com poderes além do normal, por que não poderiam haver outras
pessoas com outras formas de poderes extraordinários e modos não usuais de induzi-los?
Continuamente
me perguntam sobre o culto das bruxas e apenas posso responder: quase todos os povos primitivos tinham
cerimônias de iniciação e algumas dessas eram iniciações a sacerdócios, a
poderes mágicos, sociedades secretas e mistérios. Eles eram usualmente vistos
como necessários para o bem-estar da tribo, assim como para o indivíduo.
Incluíam normalmente a purificação e alguns testes de coragem e força -
frequentemente severos e dolorosos -, aterrorização, instrução em sabedoria
tribal, em conhecimento sexual, na realização de encantamentos e em assuntos
gerais ligados à magia e à religião e, freqüentemente, a um ritual de morte e
ressurreição.
Eu não
questiono os povos primitivos por fazer essas coisas; simplesmente sustento que
as bruxas, sendo em muitos casos as
descendentes dos povos primitivos, fazem de fato muitas delas. Logo, quando as
pessoas me perguntam, por exemplo: "Porque
você diz que as bruxas trabalham nuas?", eu apenas posso dizer: "Porque elas o fazem". "Por quê?" é a questão
seguinte e a resposta, simples, é que os rituais dizem a
elas que é necessário. Outra resposta é que suas práticas são remanescentes de uma religião da
Idade da Pedra e elas mantêm os antigos costumes. Há também a explicação da Igreja: "Porque bruxas são inerentemente
más". Mas eu acredito que a melhor explicação é a das próprias bruxas:
"Porque apenas dessa forma podemos obter poder".
As bruxas
acreditam que o poder reside no interior de seus corpos e elas podem libertá-lo
de diversas maneiras, sendo que a mais
simples é dançar em roda, cantando ou gritando, para induzir um frenesi; esse poder que elas creem exsudar de seus corpos seria retido pelas roupas. Tratando de tais assuntos fica difícil, é claro,
dizer o que é verdade e o que é imaginação.
No caso
da rabdomancia, se um homem acredita que quando é isolado do chão por palmilhas de borracha não pode encontrar água,
essa crença o inibe, mesmo se as palmilhas não contêm borracha, enquanto que se
vestir palmilhas de borracha - embora não o sabendo - ele pode encontrar água,
como muitos experimentos provam.
É fácil
imaginar que uma bruxa que acredita firmemente ser essencial estar nua não
poderia empreender o esforço necessário para
atingir o êxtase sem estar nua. Porém, uma outra que não compartilhasse dessa
crença poderia, mesmo estando parcialmente vestida, empregar suficiente energia
para forçar o poder por seu rosto, ombros, braços e pernas, obtendo algum
resultado; mas quem poderia garantir que ela não estaria produzindo duas vezes
aquele poder com metade do esforço se estivesse na nudez tradicional? Apenas
podemos ter certeza de que nos tempos antigos as bruxas faziam dessa forma e
mesmo viajavam até seus encontros nesse traje; mas em tempos mais recentes a
Igreja, e mais especialmente os Puritanos, tentaram silenciar esse fato e
inventaram a história da velha louca em uma vassoura, para substituir a
história conhecida de danças selvagens de jovens e belas bruxas sob a luz da
lua.
Pessoalmente,
inclino-me a acreditar que, embora dando margem à imaginação, há algo de certo
na crença das bruxas. Penso que há na natureza um campo eletromagnético que
rodeia todos os corpos vivos, que algumas pessoas vêem e a que chamamos aura.
Algumas vezes eu mesmo a posso ver, mas apenas em carne nua, de modo que as
roupas evidentemente obstruem seu curso; porém, essa é simplesmente minha
crença pessoal. Acredito que uma bruxa, com suas fórmulas, a estimula, ou
possivelmente a aumenta. Dizem que bruxas, com prática constante, podem treinar
suas vontades para potencializar essa força nervosa, ou o que quer que seja, e
que suas vontades unidas podem projetá-la como uma irradiação de força e que
elas podem usar de outras técnicas para adquirir a clarividência, ou mesmo para
alcançar o corpo astral. Essas práticas incluem aumentar e acelerar o fluxo de
sangue, ou em outros casos desacelerá-lo, assim como o uso da vontade-poder;
então é razoável acreditar que produza algum efeito. Não estou afirmando que produz.
Apenas registro o fato de que elas buscam tais efeitos e acreditam que algumas
vezes eles ocorrem. O único modo de provar a verdade ou falsidade disso seria
experimentando (eu poderia pensar que tangas ou biquínis poderiam ser usados
sem necessariamente causarem perda de poder.
Seria
interessante testar o efeito de um grupo na tradicional nudez e um outro de
biquíni). Ao mesmo tempo, poder-se-ia citar o
ditado das bruxas: "Você deve estar dessa forma sempre de acordo com os ritos, este é o comando da
deusa". Você deve fazê-lo de modo que se torne uma segunda natureza; você não está mais nu,
apenas natural e confortável. O culto, seja na Inglaterra ou em qualquer outra
parte, começa com diversas vantagens.
Primeiro,
usualmente as recrutas são muito jovens, sendo lentamente treinadas até terem o
senso do mistério e do fantástico, o conhecimento de que têm uma tradição de
eras por trás delas. Elas provavelmente viram acontecer coisas e sabem que elas
podem voltar a acontecer; em vez de mera curiosidade ou de crença piedosa de
que "algo pode ocorrer", inibidas por um desconhecimento, mas uma
firme crença de que "nunca acontecerá comigo".
O que
ocorreu, então, foi isto: certas pessoas nasciam com poderes de clarividência.
Elas descobriam que certos ritos e
processos desenvolveriam tais poderes, de forma que eles se tornariam úteis à
comunidade. Elas cumpriam esses ritos e obtinham benefícios; sendo felizes e tendo
sucesso, eram olhadas com inveja e antipatia pelos outros, tendo começado a
cumprir seus ritos em
segredo. O poder que pode ser usado para o bem pode também
ser usado para o mal, e algumas vezes elas eram tentadas a usá-lo contra seus
oponentes, o que as tornou mais impopulares. Como resultado, calamidades eram
atribuídas a elas e pessoas eram torturadas até confessarem tê-las cometido. E
quem poderia culpar os filhos de alguns desses que foram torturados até a morte
por fazer uma imagem de cera de seus opressores?
Em
resumo, tal é a verdade sobre a bruxaria. Nos dias vitorianos ela seria
chocante, mas, nestes dias de clubes nudistas, seria tão terrível? Parece ser,
para mim, uma espécie de festa de família na qual se tenta um experimento
científico de acordo com as instruções de um livro.
Eu
gostaria, agora, de tratar da visão, muito freqüentemente sustentada, de que a bruxaria
tem conexões com o demonismo. O próprio sr. Summers parece pensar que a questão
está resolvida apenas porque a Igreja católica romana disse que o culto é
diabólico, e o livro do sr. Pennethorne Hughes também dá a impressão de que a
bruxaria seria um culto ao mal. O Sr. Hughes diz na página 128:
"Enquanto o culto declinava,
alguma prática comum deve ter sido perdida, pois por volta do
século XIX os praticantes caseiros
do demonismo autoconsciente meramente conduziam a Missa
Negra do catolicismo invertido. Na
época dos julgamentos havia obviamente uma espécie de serviço formal bastante
separado do crescendo da dança
da fertilidade. Numa era católica, seria muito parecido com o conhecido
esplendor das celebrações da própria Igreja, com velas, vestes e uma paródia de
sacramento. Deveria ser conduzida por um sacerdote destituído, usando hóstias
com o nome do diabo estampado em vez do de Jesus e o enlameamento do crucifixo
- para insultar os cristãos e agradar ao Demônio. O próprio Demônio recebia
orações e homenagens. Uma liturgia do diabo era repetida, havia um sermão
zombeteiro e uma absolvição feita com a mão esquerda e uma cruz
invertida."
Aqueles
presentes nesses encontros, ele trata da seguinte maneira (página 131):
"Alguns eram, talvez, pessoas
com perversões reprimidas e tinham vergonha ou orgulho culpado; alguns eram
apenas membros de uma dinastia primitiva, já quase desaparecida, mas ainda seguindo
os passos de seus pais, sabendo que a Igreja os desaprovava, mas encontrando
nisso satisfação física e psicológica. Alguns eram extáticos. 'O Sabá', disse
um deles, 'é o verdadeiro paraíso'."
O Sr.
Hughes não diz por que ele pensa que eles teriam aberto mão de seus próprios
ritos, que eram feitos com um propósito
definido e produziam resultados definitivos, para simplesmente parodiar os de
uma fé estranha. Presenciei diversos desses rituais e declaro que a maior parte
do que ele diz não é verdadeiro. Pode haver uma dança da fertilidade, mas os
outros ritos são simples e têm um propósito, e de nenhuma maneira se parecem
com os da católica romana ou qualquer outra Igreja que eu conheça. É verdade
que às vezes há cerimônias curtas em que bolos e vinho são abençoados e comidos
(elas dizem que, nos antigos tempos, hidromel e cerveja eram freqüentemente
usados). Pode até ser uma imitação do ágape cristão primitivo, a Festa do Amor,
mas não há nenhuma sugestão de que o bolo se torne carne ou sangue. A intenção
da cerimônia é ser um curto repasto, embora seja definitivamente religioso.
As
sacerdotisas usualmente presidem. Velas são usadas, uma para ler o livro e
outras em torno do círculo. De forma alguma
isso se parece com a prática de qualquer seita religiosa que eu conheça. Não acho que possa ser
chamado "imitação do esplendor da Igreja".
Não há crucifixos,
invertidos ou o que seja, não há sermões, zombaria e nenhuma absolvição ou hóstias, salvo o bolo e o vinho
já mencionados. O incenso é usado, mas tem um propósito prático. Não há oração
ou homenagem ao diabo, nem liturgia, ou mal, nem nada do tipo, nada é dito de
trás para a frente e não há gestos com a mão esquerda; de fato, com a exceção
de ser um serviço religioso e de todos os serviços religiosos serem
semelhantes, os ritos não são de forma alguma imitação de nada que eu tenha
visto. Não digo que nunca tenha'havido demonistas.
Apenas
digo que, até onde conheço, as bruxas não fazem as coisas de que são acusadas
e, conhecendo como conheço suas
religiões e práticas, não penso que elas já as tenham feito. Naturalmente, é
impossível falar por todas. Já li que sacerdotes e clérigos foram condenados por
todos os crimes que há na lei inglesa, e na Ilha de Man sacerdotes foram
condenados por ter cantado salmos de destruição contra povos (ver Isle ofMan
N. M. &A. Soe. Proceedings, vol. V, 1946), o que, ao menos para mim, é
um novo crime; mas isso não significa que a maioria dos sacerdotes e clérigos
sejam criminosos. Também não penso que seja justo acusar as bruxas de pervertidas
enrustidas. Elas podem ser chamadas de seguidoras de uma religião primitiva, já
em vias de desaparecimento; elas seguem os passos de seus pais, sabendo que a
Igreja desaprova suas práticas, mas encontrando nisso satisfação física e
psicológica. Não se pode dizer o mesmo dos budistas e xintoístas? Eles têm
antigos e, para eles, bons ritos e não se preocupam se os outros os desaprovam.
Tudo o
que importa é: estão no bom caminho? Aprendi a tolerância nos muitos anos que
passei no Oriente e, se alguém acha que o verdadeiro paraíso está nos ritos
budistas, no Sabá ou na Missa, fico contente por ele da mesma
forma. Se me fosse permitido revelar todos os seus rituais, seria fácil provar
que as bruxas não são demonistas; mas os juramentos são solenes e as bruxas são
minhas amigas. Eu não gostaria de ferir seus sentimentos. Elas têm segredos que
lhes são sagrados. Têm grandes razões para seu silêncio. Porém, tenho permissão
para fazer um resumo de seus ritos. Isso pouco diz, pois além dos ritos elas
próprias pouco conhecem. Por uma razão qualquer, elas mantêm o nome de seu deus
ou deusa em segredo.
Para elas, o culto existiu imutável desde o princípio dos
tempos, embora haja uma vaga noção de que o antigo povo veio do Oriente,
possivelmente como resultado da crença cristã de que o Leste é o lugar sagrado
de onde tudo nasceu. Deve-se notar que as bruxas começam pelo Leste a formar o
círculo, e a imagem do deus ou deusa é usualmente posta a leste.
Pode ser
simplesmente porque o Sol e a Lua nascem no Leste, por causa da posição do
altar ou por qualquer razão desconhecida, uma vez que na verdade as invocações
principais são dirigidas ao Norte. Não me foi dada nenhuma razão
para isso; mas tenho idéia de que nos tempos antigos acreditava-se que o
paraíso era no Norte, sendo que elas afirmam que as Luzes do Norte são as luzes de seu paraíso, embora comumente se
pense que ele é sob a terra ou em uma colina oca. Deve-se notar, também, que a
mitologia escandinava faz do Norte a morada dos deuses e que no mito gaélico o Sul, freqüentemente camuflado como a
"Espanha", é o mal ou o inferno. Presumivelmente, seu oposto, o
Norte, é o paraíso.
Assisti a
uma cerimônia muito interessante: o Caldeirão da Regeneração e a Dança da Roda,
ou Yule, para fazer com que o sol renasça, ou com que o verão retome. Em tese,
deveria acontecer em 22 de dezembro, mas hoje em dia é realizada na data mais
próxima em que seja conveniente para todos os membros. A cerimônia começa da
maneira usual. O círculo é construído e purificado, sendo também os celebrantes
purificados da maneira usual e os procedimentos normais do culto são cumpridos.
Então a pequena cerimônia é realizada (geralmente chamada "Atraindo a Lua"). A grande sacerdotisa é vista como uma
encarnação da deusa. Segue-se a cerimônia do Bolo e do Vinho. Então um
caldeirão (ou algo que o represente) é posto no meio do círculo, cheio de aguardente,
e inflamado. Várias ervas, etc, são adicionadas. Então as sacerdotisas ficam
perto dele, na posição de pentágono (deusa). A Grande sacerdotisa fica de pé no
lado oposto do caldeirão, liderando o canto. As outras formam um círculo, segurando
suas tochas. Estas foram acesas no caldeirão em chamas e elas dançam em torno
na direção "solar", ou seja, no sentido horário. O canto que ouvi foi
o seguinte, embora outros sejam também usados:
"Rainha da Lua,
Rainha do Sol Rainha dos Céus,
Rainha das Estrelas Rainha das Águas,
Rainha da Terra
Traga a nós o Filho da Promessa!4
É a grande mãe que o dá à luz
É o Senhor da Vida que renasceu
A escuridão e as lágrimas são deixadas de lado
Quando o Sol aparece de manhã
Sol Dourado das Montanhas
Ilumina a Terra, Acende o Mundo,
Ilumina os Mares e os Rios
As tristezas são deixadas de lado,
alegria no Mundo
Abençoada seja a Grande Deusa Sem princípio, sem fim
Infinita pela eternidade I.O.EVO.HE seja abençoado."
Elas
dançam em roda furiosamente, gritando:
"I.O.EVO.HE
Abençoado seja I.O.EVO.HE seja abençoado".
Algumas
vezes os pares se dão as mãos e pulam sobre o caldeirão em chamas, como pude
ver. Quando o fogo se extingue, a
sacerdotisa comanda as danças usuais. Segue-se a isso uma festa. Haverá algo muito
mau ou terrível nisso? Se fosse realizado em uma Igreja , omitindo-se
a palavra deusa ou substituindo-a pelo nome de um santo, alguém faria objeções?
Estou
proibido de falar de outros ritos por serem definitivamente mágicos, embora
eles não façam mais mal do que este. Mas elas não querem que se saiba como
fazem para aumentar seu poder. As danças que se seguem parecem mais
brincadeiras de criança do que danças modernas — podem ser tempestuosas e
barulhentas, com muito riso. Na verdade, são mais ou menos brincadeiras
de crianças realizadas por gente crescida e, como brincadeiras, têm uma
história ou são feitas para um propósito muito mais definido do que simples
diversão.
Tenho
permissão também para dizer pela primeira vez na imprensa a verdadeira razão de
a coisa mais importante na cerimônia
ser o "Arranjo do Círculo". Elas dizem que o círculo está "entre
os mundos", ou seja, entre este mundo e o próximo, o domínio dos deuses.
4. O sol, tido como renascido.
O círculo
tal qual é mostrado em pinturas pode ou não ser usado. Não é conveniente
marcá-lo com giz, tinta ou nada assim, para
mostrar onde está; mas marcas no tapete podem ser utilizadas. Os móveis podem
ser dispostos de forma a marcar as bordas. O único círculo que importa é o que
é desenhado antes de cada cerimônia com uma espada mágica afiada ou uma faca,
conhecida como o Athame das bruxas ou a Faca de Punho Negro, que possui sinais
de magia no cabo e é a mais usada. O círculo tem geralmente nove pés de
diâmetro, a não ser que seja feito com um propósito muito especial. Há dois
círculos externos, separados em seis polegadas, de forma que o terceiro círculo
tenha o diâmetro de onze pés. Após desenhado, esse círculo é cuidadosamente
purificado, assim como todos os que celebrarão o rito. As bruxas dão grande
importância a isso, uma vez que dentro do círculo está o domínio dos deuses.
É
necessário que haja uma distinção clara entre este e o trabalho de um mago ou
feiticeiro, que desenha um círculo no chão e o fortifica com palavras
carregadas de poder e invocações (ou tentativas de evocar) de espíritos e
demônios para obedecer a suas ordens. Nesse caso, o círculo impede que eles lhe
possam fazer mal; ele não ousaria sair dali.
O Círculo
das Bruxas, por outro lado, é para manter o poder que elas acreditam fazer
crescer de seus próprios corpos e para
evitar que ele seja dissipado antes que elas possam moldá-lo à sua vontade.
Elas podem pisar fora ou dentro se o desejarem, mas isso envolve alguma perda
de poder, de forma que elas evitam fazê-lo tanto quanto possível.
As
pessoas tentam fazer-me dizer que, nos ritos, caveiras ou outras coisas
repulsivas são usadas. Eu nunca vi tais coisas, mas
elas me contaram que nos tempos antigos, às vezes, quando o Grande Sacerdote não estava
presente, uma caveira e ossos cruzados eram usados para representar o Deus, morte e ressurreição (ou
reencarnação). Em nossos dias, a Grande Sacerdotisa está em posição de
representar a caveira com os ossos cruzados, ou morte, e se move para outra
posição, o pentágono, representando a ressurreição, durante o rito. Suponho que
o tipo de bruxa herbalista da aldeia antiga possa ter usado caveiras e ossos e
outras coisas para impressionar o povo, já que isso era esperado delas. Elas
eram boas psicólogas e, se um paciente fosse convencido de que um remédio
amargo seria bom para ele, a mistura da bruxa certamente teria um gosto
horrível – e conseqüentemente curaria. Se as pessoas acreditassem piamente que
mambo-jambo com caveiras e ossos davam à bruxa poder para curar ou matar, então
as caveiras e os ossos estariam ali, já que as bruxas eram provocadoras; aquilo
fazia parte de seu repertório.
Diz-se
freqüentemente que a realização da Missa Negra é parte da tradição da bruxaria;
mas, para usar as palavras do Dr. Joad, "tudo depende do que se quer dizer"
com Missa Negra. No meu entender, é uma paródia blasfema da
missa católica. Nunca vi nem ouvi falar disso como tendo relação com o culto e não acredito que esse
já tenha sido um de seus ritos. Os ritos são realizados com certos propósitos.
Isso leva tempo, mas quando terminados a assembléia faz uma pequena refeição,
depois dançam e se divertem. Eles não têm tempo ou inclinação para cair na
blasfêmia. Alguém já ouviu falar em pessoas se incomodando para realizar uma
paródia de um rito budista ou maometano?
Outra
coisa que sempre entendi foi que, para realizar uma Missa Negra, seria
necessário um sacerdote católico que realizasse
uma transubstanciação válida: o Deus presente na hóstia seria profanado. A menos que fosse uma
comunhão válida, não haveria profanação. Eu me surpreenderia por encontrar um
padre católico entre as bruxas em nossos dias, embora no passado se dissesse
que muitos tomavam parte nos cultos. Sugeriu-se que as bruxas não realizavam a
Missa Negra, mas que as pessoas se tornavam bruxas obtendo hóstias, seja
roubando o sacramento das igrejas ou recebendo a comunhão, mantendo-a debaixo
da língua e por fim guardando-a no bolso; assim elas eram levadas aos ritos e
profanadas.
Durante
toda a minha vida, ocorreram problemas por sacerdotes e missionários terem
destruído ou profanado figuras de deuses bárbaros e também creio que alguns
homens de Igreja não-conformistas obtiveram hóstias consagradas e as levaram ao
ridículo. Mas eu nunca ouvi falar que isso os fizesse bruxos, e não creio que
bruxas o fizessem ou façam. Por outro lado, houve diversas ocorrências de
hóstias consagradas sendo usadas de maneira não-ortodoxa por pessoas do povo
que não eram bruxas; para acabar com incêndios ou erupções vulcânicas, por
exemplo, ou para pendurar no pescoço como amuleto, para trazer a boa fortuna, afastar
o mal e, especialmente, impedir ataques de vampiros; mas tudo isso foi feito
por crentes.
Uma bruxa
não faria tais coisas, uma vez que acredita poder fabricar amuletos muito mais poderosos
sozinha. Acredito, porém, que algumas vezes a
Missa Negra é realizada. Eu costumava duvidar disso; mas, em fevereiro de 1952, eu estava
em Roma e me disseram que padres e freiras destituídos a celebravam de tempos em tempos. Meus
informantes garantiram poder arranjar tudo para que eu assistisse a uma delas, mas me
custaria vinte libras; eu não tinha dinheiro estrangeiro suficiente ou teria comparecido, para resolver
essa questão para minha própria satisfação. Imagino que fosse provavelmente um espetáculo armado
para turistas, embora a pessoa responsável houvesse me informado que não.
Resumindo,
acredito que as pessoas podem realizar Missas Negras às vezes para fazer medo, ou com intenção má; mas não creio
que essas pessoas sejam bruxas, ou que saibam algo sobre bruxaria. Por acaso, encontrei mais
de uma bruxa em Roma, embora as bruxas se mantenham distantes, e elas nada sabiam sobre
a Missa Negra. Ser iniciada no culto das bruxas não dá a uma bruxa poderes
sobrenaturais da forma como os vejo, mas são dadas instruções, em termos
bastante velados, sobre processos para desenvolver diversas clarividências e outros
poderes, naqueles que já os possuem naturalmente. Se eles nada têm, nada podem
criar.
Alguns
desses poderes são afins ao magnetismo», mesmerismo e sugestão, e dependem da possibilidade de se formar uma
espécie de bateria humana, combinando vontades humanas para influenciar pessoas
ou acontecimentos a distância. Elas têm instruções sobre como aprender essas práticas.
Seriam necessárias muitas pessoas por um longo tempo, se é que entendi bem. Se
essas artes fossem mais difundidas e praticadas em nossos dias, poderíamos
chamar à maioria delas espiritualismo), mesmerismo, sugestão, P. E. S., Ioga ou
mesmo ciência cristã; para uma bruxa tudo isso é Magia, e a magia é a arte de
obter resultados. Para tal, certos processos são necessários e os ritos são
feitos de forma a empregar esses processos». Em outras palavras, você é
condicionado a eles. Este é o segredo do culto».
Não digo
que esses processos sejam o único modo de desenvolver o poder. Presumo
que clarividentes profissionais, por exemplo, têm algum método de ensino ou
treinamento para desenvolver o poder que possuem naturalmente. E possível que
seu método seja superior ao da bruxaria; possivelmente, eles conhecem o sistema
das bruxas e todo o ensinamento envolvido, mantendo-os como um segredo de
profissão. As bruxas também crêem que, de um modo misterioso, "dentro do
círculo elas estão entre os mundos" (este mundo e o próximo) e que "o
que acontece entre os mundos nada tem a ver com este mundo". Para formar
sua bateria de vontades; inteligências masculinas e femininas são necessárias em pares. Na praticai, são
comumente marido e mulher, mas há jovens que fazem ligações que frequentemente
acabam em casamento. Há
também, claro, pessoas solteiras, ou alguns cujos consortes respectivos não
são, por alguma razão qualquer, membros do culto. Ouvi de alguns puristas
convictos que nenhum homem ou nenhuma mulher casada deveria pertencer, ou
assistir, a nenhum clube ou sociedade à qual seus respectivos parceiros não
pertencessem; mas tais visões estreitas não são parte da bruxaria.
A
bruxaria não foi, e não é, um culto para todos. A não ser que você tenha uma
atração para o oculto, um senso de fantástico, um
sentimento à que você pode escorregar por alguns minutos deste mundo
para o outro mundo de encantamento, ela não terá uso para você. Com ela você
pode obter paz, acalmar os nervos e diversos outros benefícios, apenas com o
companheirismo, mas para obter os efeitos mais fundamentais você deve
tentar desenvolver qualquer poder oculto que possa ter. Mas é inútil tentar
desenvolver tais poderes, a não ser que você tenha tempo e um parceiro
adequado, não sendo apropriado chamar sua tia solteirona, mesmo se ela for
romântica; pois bruxas, para ser realista, têm poucas inibições e se quiserem
produzir certos efeitos elas o fazem de maneira simples.
Embora a
maior parte de suas atividades seja para o bem, ou ao menos não tenham nada de
mau, certos aspectos dão à Igreja da Inglaterra e aos puritanos a chance de acusá-las
de toda espécie de imoralidades, culto ao Diabo e canibalismo, como já mostrei.
A tortura às vezes fez com que algumas pobres coitadas confessassem tais
impossibilidades, para induzir o questionador a permanecer longe da verdade. O
fato de seu Deus ter chifres fez com que o povo o confundisse com o Diabo. O
fato de que as bruxas fossem freqüentemente pessoas de alguma posse que
merecesse ser roubada deu o incentivo; a tortura e os ferros em brasa fizeram o
resto. O temor cristão e o fogo cristão prevaleceram. Os poucos membros
remanescentes do culto retiraram-se e continuam em segredo desde então. Estão
felizes praticando seus adoráveis antigos ritos. Eles não querem converter:
converter significa falar: falar significa aborrecimento e semiperseguição.
Tudo o que desejam é paz.
CAPÍTULO II
HOUVE BRUXAS EM TODAS
AS ERAS
Poderes largamente hereditários - seu uso na Idade da
Pedra - o mito da Grande Mãe — o desejo de renascer do homem primitivo é também
o das bruxas –paraíso especial para adoradores - bruxaria no Antigo e no Novo
Testamentos – bruxas em diversos lugares e eras — papado e sacerdócio tratam a bruxaria como
rival, como maniqueus e cataristas, valdenses e albigenses - identificação dos
pagãos com bruxas e heréticos — a verdade sobre as vassouras - os tempos da perseguição;
Matthew Hopkins e suas vítimas - uma era de bronze da bruxaria na Dinamarca —
crenças druídicas — cultos bruxescos mexicanos com uma deusa nativa —
encobrimento da bruxaria com o advento da cristandade — o povo miúdo: duendes,
fadas ou uma raça primitiva?
Houve bruxas em todas as épocas e
países. Ou seja, houve
homens e mulheres que tiveram conhecimento sobre curas, filtros, encantos e
poções do amor e, às vezes, venenos. Algumas vezes, acreditou-se que elas
podiam afetar o clima, trazendo chuva ou seca. Por vezes foram odiadas, por vezes
foram amadas; houve épocas em que foram altamente honradas, em outras, perseguidas.
Elas diziam, ou faziam acreditar, estar em comunicação com o mundo dos
espíritos, com os mortos, e algumas vezes com os deuses menores. Geralmente se
pensava que seus poderes eram hereditários ou que o ofício podia ser exercido
por famílias. As pessoas acorriam a elas sempre que necessitavam de curas, boas
colheitas, boa pesca ou qualquer que fosse sua necessidade. Elas eram, de fato,
as sacerdotisas ou representantes dos deuses menores, que, por serem menores,
se preocupariam em ouvir os problemas do povo. Geralmente pensa-se nelas como
dançarinas selvagens, "com poucas inibições".
Na Idade
da Pedra, o que o homem queria principalmente eram boas colheitas, boa caça,
boa pesca, aumento de rebanhos e manadas
e muitos filhos para fortalecer a tribo. Tomou-se tarefa das bruxas realizar ritos para obter
essas coisas. Era provavelmente uma era matriarcal, quando o homem caçava e a
mulher ficava em casa praticando a medicina e a magia. Historicamente, o
período matriarcal foi datado aproximadamente da metade do nono à metade do
segundo milênio a.C, durante o qual cavernas, árvores, a lua e as estrelas eram
provavelmente reverenciadas como emblemas femininos.
Assim, o
mito da Grande Mãe veio à luz e a mulher era sua sacerdotisa. Provavelmente na
mesma época, o homem tinha um Deus caçador, que comandava os animais. Mais
tarde talvez tenha vindo a idéia de uma vida futura e pensamentos de que o
próximo mundo seria um lugar infeliz, a menos que fosse possível atingir a
morada dos deuses, uma espécie de paraíso. Este era imaginado como um lugar de descanso e alívio, onde a
pessoa rejuvenesceria novamente e estaria pronta para a reencarnação na terra.
O homem
primitivo temia renascer fora de sua própria tribo, então suas orações rogavam
ao Deus que o fizessem nascer novamente
no mesmo local e ao mesmo tempo que seus entes queridos, e que ele pudesse
lembrar-se e amá-los novamente. O deus que governava esse paraíso seria, acho,
a Morte, mas em alguns lugares ele é identificado com o deus da caça e usava
seus chifres. Este deus da morte e da caça, ou seu representante, parece ter
tomado a liderança do culto em uma época e o homem se tornou o mestre. Mas
deve-se enfatizar que, por causa de sua beleza, doçura e bondade, o homem
colocou a mulher, como deus colocando a deusa, no lugar principal, de forma que
a mulher dominasse as práticas do culto.
Eis o que
provavelmente aconteceu: havia uma religião tribal organizada, com um deus
tribal masculino, e uma ordem de
sacerdotisas e seus maridos que se preocupavam com a magia. O grande sacerdote
do culto tribal dominava quando estava presente, mas em sua ausência a sacerdotisa
comandava. Minhas bruxas falam dele como o deus da "Morte e o que está
além": com isso elas não apenas estão falando da vida no próximo mundo,
mas da ressurreição (ou reencarnação). Ele comanda não apenas uma espécie de
terra das felizes caçadas, para onde pessoas comuns vão e se reúnem com pessoas
com as quais têm afinidades; pode ser um lugar agradável ou desagradável, de
acordo com a sua natureza. Conforme os seus méritos, você pode ser reencarnado
no tempo e tentar sua sorte no lugar e com as pessoas em que tal ocorrer; mas o
deus tem um paraíso especial para seus adoradores, que condicionaram seus
corpos e sua natureza sobre a terra, que gozam de vantagens especiais e são
preparados mais rapidamente para a reencarnação, que é dada pelo poder da deusa
em circunstâncias que asseguram seu nascimento novamente em sua própria tribo.
Isso é novamente trazido à baila em um círculo de bruxas. Pode parecer que
envolve uma série infinita de reencarnações; mas me disseram que em algum tempo
você se torna poderoso, também chamado de morto poderoso. Nada pude aprender
sobre eles, mas me parecem uma espécie de semi-deuses - mas também poder-se-ia
chamá-los de santos.
Mais
tarde houve, talvez, outras razões para que as mulheres fossem dominantes nas
práticas de culto, embora, como já foi dito,
haja quase tantos homens quanto mulheres entre as bruxas. A Bíblia nos conta da
pobre Bruxa de Endor, perseguida, trabalhando em segredo quando todas as outras
bruxas haviam sido expulsas da terra. Também é relatada a história da
feiticeira Huldah, que vivia no Estado de Jerusalém e era consultada pelo rei
sobre pontos profundos da religião que o próprio Grande Sacerdote não podia
responder. A conseqüência desafortunada da baixa posição da mulher durante a
Idade Média, quando era contra a tradição geral da Igreja elevar e melhorar sua
situação, ou pelo menos erguê-la ao que era nos tempos pré-cristãos, também
deve ser lembrada. Assim, a Igreja vituperou contra Paracelso, quando ele
escreveu um livro glorifícando as mulheres, chamando-o um "adorador de
mulher". Segundo Hughes:
"Isso significa que a maior
parte das mulheres ressentia-se dessa subjugação, e uma religião secreta, na qual a mulher era
importante e que fazia da atividade sexual um mistério de orgulho em vez de um trabalho penoso, foi
nascendo. Essa religião serviu também como uma caverna de Adulão psicológica para mulheres
emotivas, depressivas, masculinizadas e para aquelas sofrendo com desapontamentos pessoais, ou de
desajustamento nervoso que não foi resolvido com os recursos locais da Igreja."
Os
motivos individuais que persuadem uma pessoa a se tornar bruxa, além daquelas
para quem a bruxaria era uma antiga religião, em geral são bastante
complicados. Como em outros cultos, embora as práticas proporcionem repouso,
paz e alegria para muitos, alguns de seus recrutas são apenas um empecilho e,
como legiões de espiões devem ter tentado entrar apenas para traí-los, em um
primeiro momento só eram admitidos ingressantes que tinham aquilo no sangue; ou
seja, de uma família de bruxas. Os vários rituais de adoração, segredos do
conhecimento das ervas e o grande segredo ao qual eles chamam magia foram
tratados de forma que se tornaram quase uma sociedade familiar secreta.
Na
Palestina e em outros países há dois tipos de bruxas: a herbalista ignorante e
vendedora de amuletos, e a bruxa descendente de
uma linhagem de sacerdotes e sacerdotisas de uma religião antiga e
provavelmente da Idade da Pedra, que fora iniciada de uma certa maneira
(recebida no círculo) e tornou-se receptora de um certo conhecimento antigo.
Houve
épocas em que a Igreja ignorava a bruxa, mas, quando o papado se enraizou, os sacerdotes
trataram o culto como um odioso rival e tentaram levá-lo à extinção. Os
puritanos também empreenderam esse trabalho e, entre eles, praticamente tiveram
sucesso.
Do século
XI em diante a Igreja teve diversos rivais perigosos. As doutrinas maniqueístas
estavam espalhadas na Europa meridional; havia diferentes seitas, mas elas
conviviam pacificamente lado a lado. Havia também semelhanças com os
cataristas. Eles tinham seus próprios bispos e diáconos e grande reverência por
seus "Perfeitos" - iniciados que eram vistos como quase divinos. Prostavam-se
ante eles, dizendo "Benedicte". Os Perfeitos também se adoravam entre
si, embora sua adoração não fosse dirigida a eles próprios, mas ao Espírito
Santo que descera entre eles. A Igreja fazia com que os cataristas acreditassem
que eles poderiam livremente entregar-se a todos os tipos de prazer e boêmia
até terem entrado no círculo dos Perfeitos; que suas almas passariam de uma
criatura para outra (reencarnação) até que se tornassem Perfeitos e então
ascendessem ao céu com a morte. Eles também eram encarregados de persuadir as pessoas
a não dar dinheiro para a Igreja.
Havia
seitas similares conhecidas como valdenses e albigenses. Sabemos praticamente apenas
aquilo que a Igreja nos conta sobre eles e ela os ataca a todos, com a bruxaria
no meio. Organizaram-se cruzadas, enormes massas humanas foram massacradas, as
seitas desapareceram na subversão e a perseguição estendeu-se aos pagãos, o
Povo das Matas, que ainda praticava a antiga religião. Aparentemente, dizia-se
que todos os pagãos eram heréticos e bruxas, e que todas as bruxas eram
automaticamente heréticas.
Como
parte dessa campanha, toda espécie de falsas ideias foi difundida, até que a
noção popular de bruxa tornou-se a da definição comum: "uma bruxa é uma velha que voa em uma vassoura". Mas nenhuma
bruxa jamais voou em uma vassoura nem nada parecido, pelo menos até que o avião
fosse inventado. Porém, há um encantamento de fertilidade para trazer boas colheitas
que é praticado montando-se num bastão, vassoura ou cavalo de pau. Sem dúvida,
as antigas bruxas praticaram esse rito, pulando alto para fazer com que a
plantação crescesse. Nos primeiros julgamentos, testemunhas falavam ter visto a
acusada montada em bastões, ou vassouras, correndo pelos campos (não pelo ar),
e isso era frequentemente aceito como evidência de que elas estavam praticando
a magia da fertilidade, que se tornou uma ofensa penal. No Museu de Castletown
há um desses bastões de montar, sendo o topo esculpido em forma de falo para
atrair a fertilidade.
Na Ilha
de Man, em 1617, uma mulher foi vista tentando obter uma boa colheita dessa maneira.
Ela foi julgada, condenada e queimada até a morte na praça do mercado. Havia evidência
suficiente de que ela estava sozinha em sua tentativa de atrair a fertilidade,
mas seu jovem filho foi queimado com ela, para que todos soubessem que as
crianças eram iniciadas desde a mais tenra idade. Isso apenas mostra que a
história da bruxa velha é mito. As crianças eram feitas bruxas já bem jovens;
logo, as bruxas eram de todas as idades. Além disso, relatos de julgamentos incluem
itens como este: "Condenadas e queimadas, duas bruxas, meninas de
dezesseis anos, ambas jovens e deploravelmente bonitas".
Quando
praticamente todas as bruxas estavam condenadas à marginalidade, estimava-se que
cerca de nove milhões de pessoas haviam sido torturadas até a morte durante a
perseguição na Europa; qualquer velha que vivesse sozinha, que perturbasse ou
fosse impopular, era passível de ser acusada, especialmente se tivesse uma
mascote e falasse com ela, ou falasse sozinha, tal como muitas senhoras
solitárias gostam de fazer. Tais acusações eram diversão para as massas,
despojamento, espetadelas, mergulhos e assim por diante, assim como um bom
pagamento para o caçador de bruxas profissional. Na Inglaterra, Matthew Hopkins
fez disso um bom negócio. Ele capturava quem fosse impopular ao regime puritano
e o torturava até lhe arrancar confissões; também apanhava qualquer velha
impopular e fazia com que a executassem. Ele recebia uma libra por cabeça em
todas as acusações; essa quantia representa consideravelmente mais em nossos
dias.
Havia
muitos outros que faziam o mesmo. Espetadelas e mergulhos asseguravam uma
acusação e os ofensores podiam ser torturados à vontade. Frequentemente eles
confessavam, pois o enforcamento, ou mesmo um cozimento de meia hora, eram
melhores que semanas de tortura contínua. Dessa maneira, a noção de bruxa velha
tornou-se popular. Não é razoável que nenhuma dessas velhas fossem bruxas de
verdade, ou seja, que tenham sido iniciadas no círculo; mas sem dúvida algumas
delas conheciam velhas curas populares.
Voltando
a um tempo muito mais antigo, Ame Runeberg nos conta sobre um túmulo de bruxa
na Idade do Bronze encontrado na Dinamarca. Entre caras espadas e joias de
ouro, esta maga tinha uma tigela de bronze contendo o seguinte. Adaptamos seu
uso a nossos dias:
2. Ossos de doninha. A pele da
doninha ainda é usada como remédio contra todas as espécies de doenças em
animais.
3. Vértebras de cobra. Pele de cobre
pulverizada e juntas de cobra ainda são usadas em tratamento de animais
doentes.
4. Dentes de cavalo, quebrados e
feitos em pedacinhos.
São usados hoje, postos em volta do pescoço das crianças para
fazer com que seus dentes cresçam fortes.
5. Um galho de sabugueiro. Galhos de
sabugueiro são usados hoje em dia em amuletos, etc.
6. Carvão de álamo. O carvão de um
álamo aceso ainda hoje é um remédio de força especial.
8. Duas pederneiras. Toda espécie de
olho gordo é curada acendendo-se fogo com piritas sobre a cabeça do paciente.
9. Diversas peças de ossos pequenos,
seixos e argila.
Logo, pode-se notar que antigas ideias
perduram por muito tempo. Essa bruxa da Idade do Bronze era evidentemente uma
pessoa importante e as curas que usou são praticamente as mesmas que os
encantamentos dinamarqueses de hoje, de forma que é provável que outros
conhecimentos possam ter sobrevivido. As Sagas Escandinavas mostram semelhanças
notáveis com as crenças das bruxas europeias de hoje, andando em bando, com o
cabelo desgrenhado em ondas, enviando a alma para fora do corpo, mudando formas
e muitas outras coisas. A religião dos antigos celtas era bem diferente da
escandinava, mas os druidas eram sacerdotes, doutores e professores que
causavam boas ou más colheitas, tornavam férteis as mulheres e os rebanhos, e
provocavam um sono mágico (hipnótico).
As
considerações, tanto de escritores latinos como de gaélicos, nos dão uma boa
ideia da alta estima em que os nativos tinham seus
druidas e tanto na Gália quanto na Irlanda acreditava-se que o culto se
originara na Bretanha. Assim, eles enviavam para lá seus "estudantes de
teologia" para aprender as doutrinas da fonte mais pura. Plínio, o velho,
nos conta que a Bretanha "deve ter ensinado magia à Pérsia". Sabemos
pouco sobre seus ensinamentos, mas eles acreditavam na reencarnação. César nos
conta que eles tinham a seguinte crença: "As
almas não são aniquiladas, mas passam após a morte de um corpo para outro...
com esse ensinamento, os homens são encorajados ao valor, embora desconhecendo
o medo da morte". Essa era a crença usual, já que o herói Cuchulainn
foi apressado pelos homens do Ulster a se casar, uma vez que eles não queriam perder
o maior guerreiro da tribo e sabiam que ele renasceria entre seus descendentes.
O Livro de Dun Cow nos conta que o famoso Fin Mac Coul renasceu no Ulster na
pessoa do rei Mongan, duzentos anos após sua morte.
Também
havia uma classe de adivinhas chamadas Druidesas e mencionada por César em seu De Bello Gallico, que era vista como sendo ainda mais
antiga que os druidas; elas podiam mudar de forma e parece que tinham todas as
características das bruxas. Elas faziam chuva derramando água sobre ou perto de
virgens nuas. Os cristãos as acusavam de "batizar" crianças no
paganismo. Apenas se podia entrar em sua associação pela iniciação, aprendendo
e praticando sua sabedoria secreta. Seu poder mágico era muito temido pelos
primeiros cristãos, que o atribuíam ao Demônio.
Se apenas
soubéssemos em que os druidas realmente acreditavam e o que ensinavam, se havia apenas uma forma de crença ou se
eles tinham diversas seitas entre eles, seria muito mais fácil dizer o que tem
ou não uma conexão com a bruxaria. As mais tardias podem ter sido puramente ortodoxas,
embora de um tipo extremamente elevado ou ultrabaixo, a religião fantástica de diversas
mulheres, uma heresia vil, ou simplesmente a religião das nativas com quem
nenhuma pessoa decente tratava. E bastante possível que houvesse várias dessas
coisas em diferentes épocas e diversas partes do país. Minha impressão é que
isso era visto como a religião do povo pré-céltico, com seus próprios deuses, e
os druidas achavam bom e certo que o povo pudesse ter e adorar seus próprios
deuses. Mas pouco a pouco as idéias célticas se
infiltraram. Penso que com o mito da deusa se deu o mesmo.
Assim, uma deusa
celta menor infiltrada por sua beleza e doçura trouxe grandes mudanças em um primitivo
culto de caçadores. Esta é simplesmente uma teoria pessoal e dou essas opiniões
porque não tenho permissão de relatar os ritos e orações nos quais as baseio.
E, é claro, o inverso pode ter ocorrido; pode ter havido um culto céltico
ortodoxo no qual práticas e crenças mais primitivas se infiltraram durante o
colapso havido após a invasão romana e a introdução do cristianismo; devemos
levar em conta os efeitos das religiões de mistério gregas e romanas. Após a
invasão saxâ houve provavelmente um influxo de cristãos romano-britânicos que
entraram no culto das bruxas pensando que a invasão era uma punição por terem
abandonado os antigos deuses, e que os deuses das bruxas eram os deuses
verdadeiros com outros nomes.
Pode ser
apenas coincidência que no México haja um culto de bruxas muito semelhante ao
da Europa, que existiu desde os tempos
pré-colombianos. Eles tinham uma deusa, ou rainha bruxa, sempre representada
nua e trazendo uma vassoura (que representa limpeza ou pureza ritual no México).
A bruxa européia dava grande ênfase à limpeza e à pureza.
Em seus
encontros, as mulheres sempre estavam despidas, mas traziam uma gravata ou uma capa curta (as bruxas européias dão
grande importância à gravata). No México, os homens usavam uma lapela de pele na frente e atrás,
como as bruxas irlandesas, mas a removiam para certas cerimônias. Os índios não
beijavam, mas davam uma carícia de boas-vindas. Eles usualmente trabalhavam em pequenos quartos, com
pinturas nas paredes que confinavam o poder acumulado, assim como as bruxas usam o círculo
para o mesmo fim.
Embora
não seja impossível que haja algum cruzamento do Atlântico antes de Colombo, imagino que essa semelhança seja
mais provável por produzir efeitos similares nos dois lados do mundo.
Pode
parecer impossível a alguns que um culto tenha preservado sua identidade e ensinamentos
por tanto tempo; deve-se lembrar ainda que não é apenas a lenda religiosa a ser
preservada, mas também o rito, as condições e os efeitos produzidos. A religião
pode mudar, a raça pode mudar, a linguagem pode mudar, mas a causa e o efeito
permanecem, e é isso que tende a manter a lenda imutável.
Com o
advento do cristianismo, a bruxaria teve de ser ocultada. Sob os saxões, ela
continuou em comunidades marginais ou migrou
para Wales, Cornualha e Bretanha. Diversos membros do culto, junto com
remanescentes dos antigos habitantes, viveriam em lugares para os quais as
raças conquistadoras não iriam. Após algumas gerações de alimento escasso, uma
raça naturalmente pequena, provavelmente cruzada com os pictos e tribos
pigméias, tornar-se-ia ainda menor em comparação com os bem-alimentados saxões,
e foi chamada de "Povo Miúdo", sendo que a palavra "pixie"*
derivou-se de pictos. Essa raça selvagem - caçadores que deviam manter-se
ocultos, conhecer a prática de alguns ritos mágicos, usar setas envenenadas -
naturalmente tornar-se-ia odiada e temida. Um verso bem conhecido descreve a
situação:
Sobre a montanha pedregosa
Abaixo no vale musguento
Não ousamos ir caçar
Por medo dos homenzinhos
Eles eram pessoas misteriosas, mas,
embora não gostassem que outros entrassem em seus domínios, podiam ser bons
amigos se a pessoa fosse gentil com eles e a ajudariam sempre que precisasse.
Na Ilha de Man há a Ponte das Fadas, pela qual nenhum sulista passa sem saudar
as fadas. Isso vem de uma época em que os nortistas repentinamente invadiram o
Sul, expulsando os sulistas; estes fizeram um último e desesperado esforço de
resistência sobre essa ponte, quando de repente nuvens de longas setas de
zarabatana, revestidas de pedra, untadas de uma substância preta, vieram às
costas dos invasores. Os nortistas as reconheceram; um arranhão significava a morte.
O grito ecoou: "Fujam, os homenzinhos estão nos atacando!", e os
invasores escaparam.
Mais
tarde, a história foi transformada em um conto de fadas para as crianças, por
causa do amor do povo pelo maravilhoso; mas sem dúvida o fato realmente
aconteceu.
Em
Bornéu, há cerca de cinquenta anos, eu vi o terror surgir com um ataque similar
de setas de zarabatana. Elas tinham o tamanho
aproximado de agulhas de costura. Um arranhão causava a paralisia em cerca de
trinta segundos; a morte vinha em poucos minutos. Nunca corri tão rápido em
minha vida; mesmo assim, não pude alcançar os outros do grupo.
* N. do T.: Pixie = duendes, fadas [ou Pictos].
CAPÍTULO III
CRENÇAS DAS BRUXAS
O reino após a morte, onde há o alívio antes do
renascimento — texto integral do Mito da Deusa - paralelos com outras crenças ~
a declaração lida antes da iniciação na comunidade das bruxas — a bruxaria não
é anti-cristã — liderança com
primazia feminina.
Acho
difícil dizer exatamente em que a bruxa de nossos dias acredita. Conheço uma
que vai à Igreja de vez em quando, embora ela seja apenas uma conformista
ocasional. Acredita firmemente em reencarnação, assim como muitos cristãos. Não
sei como ela ou eles reconciliam isso com os ensinamentos da Igreja. Mas, para
começar, a crença em muitos paraísos diferentes, cada um com seu deus
diferente, não é incomum. O deus do culto é o deus do próximo mundo, da morte e
da ressurreição, ou da reencarnação, o consolador, o confortador. Após a vida,
você vai alegremente a seu reino para o descanso e o alívio, tornando-se jovem
e forte, esperando a época de renascer na terra de novo, e você pede a ele que
mande de volta os espíritos de seus mortos queridos para que se regozijem com
você em suas festas.
Torna-se
claro que elas acreditam em algo desse tipo, por causa do mito da deusa que
forma a parte central de um de seus
rituais. É um tipo de espiritualismo primitivo. Bruxas não têm livros de
teologia [Será, Dr. Gardner? Na Bruxaria genuína, há teologia e ensinamentos que explicam a origem da vida e dos Deuses, que uma boa parte das pessoas desconhecem, mas, talvez, Gerald Brosseau Gardner se refira no sentido dogmático e especulatório, como se concebe no Cristianismo],
então para mim é difícil descobrir em que elas realmente acreditam. Com todos
os milhares de livros escritos sobre a cristandade, ainda acho difícil definir
as crenças cristãs. Transubstanciação, por exemplo. Por outro lado, é fácil
fornecer a idéia central ou mito, que em minha opinião pode-se definir como uma
história que afeta as ações das pessoas.
Estritamente
falando, nesse sentido o mito da cristandade está na crucifixão e na
ressurreição, e poucos cristãos discordam disso. O
mito da bruxaria parece ser a história da deusa aqui citada. Estou proibido de
fornecer seu nome, então vou chamá-la G.
G.
nunca amou, mas ela resolve todos os mistérios, mesmo o mistério da Morte, e
assim ela viajou às terras baixas. Os guardiões dos portais a desafiaram.
"Despe teus trajes, tira tuas jóias, pois nada disso podes trazer contigo
em nossa terra. "Assim, ela pôs de lado seus trajes e suas jóias e foi
amarrada como o eram todos os que entravam nos reinos da Morte, a poderosa*.
Tal
era a sua beleza que a própria Morte se ajoelhou e beijou seus pés, dizendo: ''Abençoados
sejam esses pés que te trouxeram por estes caminhos. Permanece comigo, mas
deixame pôr minha mão fria sobre teu coração ". E ela respondeu: "Eu
não te amo. Por que fazes com que todas as coisas que eu amo e que me alegram
se apaguem e morram?"
"Dama", respondeu a Morte, "isto é a idade e o destino, contra os quais não
sou de nenhuma ajuda. A idade faz com que todas as coisas feneçam; mas, quando o
homem morre ao fim de seu tempo, eu lhe dou descanso e paz e força para que ele
possa retornar. Mas tu és adorável. Não retornes; permanece comigo. "
Mas
ela respondeu: "Eu não te amo ". Então a Morte disse: "Como não
recebes minha mão em teu coração, receberás o açoite da
Morte". "Esse é o destino, que seja cumprido, " disse ela, ajoelhando-se.
A Morte açoitou-a e ela gritou: "Conheço os sofrimentos do amor ". E
a Morte disse: "Abençoada sejas " e lhe deu o beijo quíntuplo,
dizendo: "Que possas atingir a felicidade e o conhecimento ".
E ela
lhe contou todos os mistérios e eles se amaram e se tornaram um; e ela lhe
ensinou todas as magias. Por isso, há três grandes eventos na vida do homem -
amor, morte e ressurreição no novo corpo - e a magia os controla a todos. Para
realizar o amor, você deve retornar na mesma época e lugar que os entes amados
e deve lembrar-se e amá-lo ou amá-la novamente. Mas, para renascer, você deve
morrer e ficar pronto para um novo corpo; para morrer, você deve ter nascido;
sem amor você não pode nascer e eis toda a magia.
Esse mito
sobre os quais os membros baseiam suas ações é a idéia central do culto. Talvez
seja trabalhoso explicar idéias e rituais já concebidos e explicar por que o
deus mais sábio, mais velho e poderoso deveria dar seu poder à deusa por
intermédio da magia. É muito fácil dizer que é
5. Havia um costume céltico de
amarrar cadáveres; a corda com a qual um deles fora amarrado era de grande
valia na obtenção da segunda visão. Mas no Mundo Antigo
parece ter sido difundida a idéia de que uma pessoa viva deve ser amarrada para
chegar à presença dos Senhores da Morte.
Tácito, em Germânia XXIX , fala de bosques sagrados onde homens se
juntam para obter augúrios ancestrais, para entrar
nesses domínios sagrado dos Senhores da Morte. "Todos são atados com
correntes para mostrar que estão em poder da Divindade e, se
lhes acontecesse cair, não tinham ajuda para levantar. Deitados como estão,
devem rolar pelo caminho da melhor forma
possível. " Isso mostra que eles eram amarrados bem forte, de forma que
não podiam erguer-se; logo, é claro que não era uma
amarração "simbólica". Luciano, em sua obra Vera Historia, que, embora seja um
romance, trata de crenças populares, fala de pessoas vivas desembarcando na Ilha dos Abençoados,
sendo instantaneamente atados com correntes e levados à presença do Rei dos
Mortos. A idéia de pessoas vivas, ou
recém-mortos, sendo amarrados com correntes logo que chegam à terra dos mortos
pode ser, em minha opinião, a origem da idéia de
fantasmas arrastando correntes; mesmo no Limbo eles permaneceriam amarrados.
apenas a história de Ishtar descendo
aos infernos, mas o ponto principal da história é outro. Pode-se dizer também
que é simplesmente Shiva, o deus da Morte e da Ressurreição; mas novamente a história
é diferente. É bastante possível que as histórias de Ishtar e Shiva tenham
influenciado o mito, mas acho que sua origem é mais provavelmente céltica. Nas
lendas célticas, os Senhores do Submundo preparavam a pessoa para o
renascimento; dizia-se que muitos vivos haviam entrado em suas regiões, formado
alianças com eles e retornado em segurança, mas era preciso grande coragem;
apenas um herói ou um semideus se arriscaria desse modo. Os mistérios célticos certamente
continham rituais de morte e ressurreição e possivelmente visitas ao submundo
com um retorno em
segurança. Acho que o purgatório de São Patrício em Lough Derg é uma versão
cristianizada dessa lenda.
O homem
primitivo temia a idéia de renascer em outra tribo, entre estranhos, de forma
que rezava e realizava ritos para se assegurar de que nasceria novamente na
mesma época e no mesmo lugar que seus amados, que o conheceriam e o amariam em
sua nova vida. A deusa do culto das bruxas é obviamente a Grande Mãe, a que dá
a vida, o amor encarnado. Ela comanda a primavera, o prazer, a festa e todos os
deleites. Mais tarde, ela foi identificada com outras deusas e tinha uma especial
afinidade com a lua.
Antes de
uma iniciação, lê-se uma declaração que começa assim: Ouça as palavras da
Grande Mãe, que antigamente foi chamada
pelos homens de Artemis, Astartéia, Diana, Melusina, Afrodite e muitos outros
nomes. Em meus altares a juventude da Lacedemônia fez o devido sacrifício. Uma
vez por mês, de preferência quando a lua está cheia, encontrem-se em algum lugar
secreto e me adorem. Pois sou a rainha de todas as magias... Pois sou uma deusa
graciosa, dou alegria à terra, certamente, não a fé, durante a vida; e após a
morte, a paz inexprimível, o descanso e o êxtase da deusa. Nada peço em
sacrifício...
Essa
declaração vem, eu acho, da época em que romanos ou estrangeiros chegaram; isso explicaria o que nem todos sabiam em
épocas passadas e identifica a deusa com deusas de outras terras. Imagino que
uma declaração similar era uma característica nos antigos mistérios.
Estou
proibido de revelar algo mais; mas, se você aceitar a regra dela, tem a
promessa de vários benefícios e é admitido no círculo, apresentado à Morte
Poderosa e aos membros do culto. Há também um pequeno "susto", uma
"prova" e um "juramento"; mostram-lhe algumas coisas e lhe
dão alguma instrução. Tudo é muito simples e direto.
Entre as
declarações mais comuns contra as bruxas está a de que elas repudiam ou negam a religião cristã. Tudo o que posso
dizer é que eu e meus amigos jamais ouvimos algo sobre tais negações e
repúdios. Minha opinião
é de que em tempos primitivos todos pertenciam à velha crença e adoravam
regularmente os antigos deuses antes de serem iniciados. Para as pessoas como
os romanos e romano-bretões, eles estariam apenas adorando seus próprios
deuses, identificados com os célticos; logo, nada haveria para ser repudiado.
Possivelmente,
durante a perseguição, se pessoas desconhecidas apareciam em um encontro religioso,
seriam questionadas para se descobrir se eram espiões; provavelmente lhes
pediam para negar o cristianismo, como uma espécie de teste. Eles nunca
iniciariam alguém, não o trariam ao círculo, a menos que soubessem com certeza
que era pertencente à velha crença. Quando a perseguição aumentou, o culto
escondeu-se e praticamente só as crianças nascidas e criadas no culto eram
iniciadas. Acredito que algumas vezes, quando alguém que não fosse do sangue
desejasse ingressar, ele era questionado; mas daria na mesma pedir ao
postulante médio que negasse o cristianismo ou que negasse uma crença em Fidlers Green , sobre
o qual os velhos marinheiros costumavam falar: o paraíso para onde os velhos marinheiros
iam, que ficava bem longe do Inferno.
Logo,
penso que, embora houvesse casos de pessoas que negavam o cristianismo, estas
foram bem poucas. Dizer que isso é "provado" porque muitas bruxas
foram torturadas para admitir que repudiavam o cristianismo é a mesma coisa que
dizer que tal testemunho prova que elas voavam em vassouras. Meu
grande problema para descobrir quais foram suas crenças reside no fato de elas
terem esquecido praticamente tudo sobre seu deus; tudo o que posso saber é por
meio dos ritos e orações dirigidos a ele.
As bruxas
não conhecem a origem de seu culto. Minha própria teoria é, como já disse, que
é um culto da Idade da Pedra, dos tempos matriarcais, quando a mulher era
líder; mais tarde, o deus homem se tornou dominante, mas o culto das mulheres,
por causa de seus segredos mágicos, continuou como uma ordem distinta. O grande
sacerdote do deus homem às vezes compareceria aos encontros delas e os lideraria;
quando estivesse ausente, a grande sacerdotisa era sua representante.
Deve-se
notar também que há certos ritos em que um homem deve liderar, mas, se um homem
do grau requisitado não está
disponível, uma sacerdotisa chefe veste uma espada e é vista como um homem para
a ocasião. Mas embora a mulher possa ocasionalmente tomar o lugar do homem, o
homem nunca pode tomar o lugar da mulher. Isso deve vir da época da associação
das Druidesas, que os romanos tratavam de bruxas. Se eram druidesas
verdadeiras, eu não sei. Essa parece ter sido uma organização religiosa
separada, possivelmente sob o comando do druida líder, da mesma forma que havia
um sacerdote ou alguém que num encontro de bruxas era reconhecido chefe; ele
era chamado "o Diabo" na época medieval.
Imagino
que o uso do círculo das bruxas, em magia, pode ter vindo do povo druídico, ou
mesmo pré-druídico, que construiu Stonehenge e Avebury, e que os usaram para concentrar
os poderes gerados. É descendente direto dos círculos usados na magia da
caverna pré-histórica, embora, é claro, deva ter vindo do Oriente. Os romanos
aniquilaram os druidas nas áreas que efetivamente ocuparam, mas acredito ser
possível que uma divisão feminina possa ter continuado mesmo aí, talvez em
segredo; ou talvez elas fossem toleradas e alguns romanos e gregos que pertenciam
aos diferentes mistérios, particularmente o de Mitra, encontrando tais
organizações, se tornassem membros, de forma que as deusas se identificavam com
sua deusa clássica; daí a construção da declaração.
CAPÍTULO IV
PRÁTICAS DAS BRUXAS
As
pessoas que se sentiram atraídas pelo culto das bruxas pertenciam
principalmente às classes intelectuais, compreendendo artesãos, soldados,
mercadores, médicos, marinheiros, fazendeiros e caixeiros. Todos eram pessoas
que queriam aventura, os “jovens brilhantes” da época, combinados, é claro, com
aqueles que sempre se unem a algo secreto ou estranho ou religioso na esperança
de alívio; ou seja, pessoas com algum tipo de desajuste sexual. Havia, claro,
as sábias da aldeia com suas curas e maldições, e os moradores dos castelos e
grandes casas. Não que essas pessoas “pertencessem” – elas dizem “pertencer”,
nunca dizendo a quê -, mas eram as classes do povo que mais assistiam aos sabás
dos homens das matas; pelo menos alguns deles eram iniciados nos mistérios.
A
perseguição foi dirigida primeiro contra os gentios, depois contra os pagãos e
então se voltou para seus associados nas cidades maiores e aldeias. Eram fáceis
de reconhecer, por serem principalmente pessoas que estavam melhor que seus
vizinhos, comendo melhor e levando vidas mais razoáveis. Se bebessem e batessem
nas esposas, estavam livres de suspeita. Quem quer que levasse o que se chama
de uma vida razoável, e, além disso, fosse inteligente, era suspeito e o grito de
comando era: “Matem-nos a todos; o Senhor conhecerá o que é Dele”. Mas o
problema em matar todas as pessoas inteligentes era a perda para a comunidade. Assim,
o massacre foi interrompido no fim; mas a maioria dos membros do culto já
estava morta e apenas uns poucos haviam sobrado para levá-lo adiante. Eram
principalmente os associados que haviam sido iniciados.
Em vez
dos grandes sabás com cerca de mil ou mais espectadores, aconteciam pequenos encontros
em casas particulares, com provavelmente uma dúzia de pessoas, de acordo com o tamanho
do quarto. Sendo os números pequenos, eles não eram mais capazes de adquirir
poder, de aumentar o estado hiperestático por meio de centenas de dançarinos
fogosos sacudindo-se selvagemente; eles tinham que usar outros métodos secretos
para induzir a esse estado. Isso era fácil para os descendentes dos homens da
floresta, mas não para as pessoas de raça não-céltica. Algum conhecimento e
poder sobreviveu, uma vez que muitas das famílias casaram-se entre si, e depois
de algum tempo seus poderes cresceram e, aqui e ali, o culto sobreviveu. O fato
de serem felizes deulhes uma razão para lutar. É de fato dessas pessoas que as
bruxas sobreviventes provavelmente descendem. Elas sabem que seus pais e avós
pertenceram, e contaram a eles de encontros na época de Waterloo, quando era
tido como um velho culto, embora tendo existido em todos os tempos.
Apesar de
a perseguição ter esmorecido, elas perceberam que sua única chance de ser
deixadas em paz era permanecer desconhecidas, e
isso é tão verdadeiro hoje como era há quinhentos anos. A grande questão que as
pessoas fazem é: “Como você sabe que o culto é antigo?” Seria fácil responder
se eu tivesse permissão de publicar os ritos na íntegra. Mas tenho familiaridade
com diversas formas de ritual, incluindo a magia cabalística, e todas têm
certas coisas em comum e trabalham invocando um espírito ou inteligência e
comandando-o à sua vontade.
Todos os
membros ficavam em um círculo para proteção e eram prevenidos de que se
deixassem o círculo antes que o espírito se despedisse eles seriam
amaldiçoados. Uma variação é trabalhar num cemitério e tentar levantar um
cadáver para tirar informações dele. Há outra escola que acredita que todas as
cerimônias mágicas deveriam consistir em um ato junto com um feitiço rítmico.
Ou seja, você deve mostrar aos Poderes o que fazer e então amarra-los com um
ritmo.
Se alguém
nos últimos duzentos anos tivesse tentado fazer um rito, teria usado um desses métodos
ou algum parecido. O método das bruxas inglesas é totalmente diferente. Elas
acreditam que o poder está dentro delas e exsuda de seus corpos. Ele se
dissiparia se não fosse pelo círculo, traçado, como já se disse, para manter o
poder dentro dele, e não, como os magos usualmente fazem, para manter os
espíritos fora. Uma bruxa pode e se move livremente para dentro e para fora do
círculo como quer.
O único
homem que conheço que pode ter inventado ritos é o saudoso Aleister Crowley. Quando
o encontrei, ele estava mais interessado em ouvir que eu era um membro e disse
que ingressara ainda muito jovem, mas que não diria se havia reescrito algo ou
não. Mas as práticas das bruxas eram inteiramente diferentes em método de
qualquer tipo de magia sobre a qual ele tenha escrito – e ele escreveu sobre
muitos tipos. Há, porém, certas expressões e certas palavras utilizadas que
batem com as de Crowley; possivelmente ele emprestou coisas dos escritos do
culto, ou mais provavelmente outra pessoa emprestou alguma coisa dele. O único
outro homem de que me lembro que talvez o tenha feito foi Kipling; mas os
escritos do culto são tão estranhos a suas idéias e expressões que tenho
certeza de que ele não deveria tê-los escrito, embora imagine, a partir de alguns
de seus trabalhos, que ele conhecia algo sobre o assunto. Há muita evidência de
que em sua forma presente os ritos desenvolveram-se muito antes que Kipling e
Crowley nascessem. As pessoas que certamente teriam tido o conhecimento e a
habilidade para inventá-los eram as pessoas que formavam a Ordem da Aurora
Dourada há cerce de setenta anos, mas, conhecendo seus fins e objetivos, acho que é a última coisa
que eles teriam feito.
Hargrave Jennings pode ter um dedo nisso, mas seus escritos
são tão intrincados que dificilmente posso acreditar que ele pudesse ter inventado
algo tão simples e justo. Avôs e avós contaram a pessoas que ainda vivem sobre encontros,
que assistiram há cerca de cento e trinta anos, quando se achava que o culto
existira em todos os tempos. Barrat do Magus, por volta de 1800, teria tido a
habilidade de inventar ou ressuscitar o culto, mas ele estava mais interessado
em magia ritual, que eu penso ter mostrado nos rituais. Sir Francis Dashwood,
do Hell Fire Club, é outro que poderia ter posto uma mão, mas ele era um
demonista livre-pensador e seria o último homem a começar ou inventar uma nova
religião; se ele tivesse feito, teria sido algo nas linhas diabólica ou
clássica. Também não penso que ela possa ter sido inventada quando a Inglaterra
era governada pelo C.A.B.A.L. (o governo de Clifford, Arlington, Buckingham, Ashley e
Lauderdale) e os homens estudados eram todos cabalistas; se eles acreditavam e
trabalhavam com linhas cabalistas, não teriam inventado algo assim. É bastante possível
que as partes principais do culto tenham sido trazidas da Itália na época da
Renascença ou mesmo depois, mas, se o foram, teria sido como um culto de bruxas
totalmente desenvolvido [é, Gardner está
certo... a Bruxaria veio de Roma, mas não no tempo de Renascença e, sim, antes
da Idade Média.], que se juntou então aos encontros de bruxas locais.
Imagino
que certas práticas, tais como o uso do círculo para segurar o poder, foram invenções
locais, derivadas do uso do círculo druídico ou pré-druídico. Houve uma época
em que acreditei que todo o culto descendia diretamente da cultura do Norte
Europeu na Idade da Pedra, sem quaisquer outras influências; mas agora penso
que foi influenciado pelos mistérios gregos e romanos e que devem ter vindo do
Egito. Porém, mesmo sendo fascinante pensar que o culto descende diretamente do
antigo Egito, devem-se considerar as outras possibilidades.
Há, é
claro, a visão católica romana ortodoxa de que o culto foi inventado pelo Diabo
ou por pessoas que odiavam a Igreja católica. Se esse fosse o caso, certamente
isso ficaria óbvio nos ritos ou nos ensinamentos; mas todos estes acontecem
como se os praticantes jamais tivessem ouvido falar sobre o assunto, o que
aponta para uma origem ao menos pré-cristã. Outras pessoas dizem: “Foi um
protesto contra a tirania dos nobres e da Igreja”> Se fosse apenas isso, não
ficaria evidente, também, nos cultos e ensinamentos? Impostos altos podem
induzido um grande número de pessoas a se juntar ao culto em busca de proteção
– o que me faz lembrar de uma história da época em que os nativos da Cornualha
eram bons pagãos, mas implicavam com a Igreja católica.
“Quando
eles ouviram falar do protestantismo, organizaram uma grande reunião para
decidir qual dos dois aborreceria mais a Igreja, continuar pagãos ou tornar-se
protestantes. Decidiram, após muito argumentar, que, como a Igreja não se
importava muito por serem pagãos, eles deveriam tornar-se protestantes”. Posso
imaginar muito bem que na época do rei John, quando toda a Inglaterra estava
sob interdição – quando, como disse o imortal Smith Minor, “o Papa fez uma lei segundo
a qual ninguém poderia nascer, casar-se ou morrer, no espaço de dez anos” -,
muitos bons cristãos, desprovidos de consolo religioso, poderiam facilmente ter-se
voltado para a religião rival.
Afinal, o
paraíso das bruxas é muito atraente para o homem comum. Causas similares no Continente
podem ter levado diversos convertidos para o culto e esses teriam trazido novas
idéias. Possivelmente o Grande Deus, o Protetor, o doador de descanso e paz,
aos poucos começou a ser visto como o único em sua função de deus da morte e,
assim, foi mais ou menos identificado como o Demônio. É difícil saber
exatamente o que aconteceu; mas acredito que não seja razoável que um grande
influxo de pessoas comuns nos séculos XII, XIII e XIV tenha alterado
significativamente as crenças.
A Igreja
nunca havia prestado muita atenção à feitiçaria, como se não fosse um rival do calibre
da bruxaria; muitos papas e sacerdotes proeminentes eram conhecidos como
praticantes. Com a Renascença, o espírito de investigação levou ao
livre-pensamento, que por sua vez causou uma volta da magia matemática, da
astrologia e da Cabala, de estudos clássicos e do conhecimento dos antigos
deuses. A lenda de Fausto foi difundida e circulou a história de que para
praticar a magia era preciso vender a alma ao diabo. O tratamento desse tema
mais conhecido na literatura inglesa é, obviamente, o Doctor Faustus do “ateu”
Marlowe, enquanto que uma longa série de histórias e representações do tema
culminou no esplêndido Fausto de Goethe. Era uma crédula e a história foi
engolida facilmente: ninguém parece ter considerado se alguém acharia que vale
a pena milhões de anos de sofrimento e tortura em troca de alguns anos de prazer.
Há exemplos da existência de tais pactos, mas é presumível que eles se baseiam
em falsas evidências inventadas para condenar algum pobre coitado ou em atos de
livre-pensadores tolos ou loucos. O bispo Wilson relata um caso de Manx em seu
diário, datado de Peel, 29 de novembro de 1720, da forma que se
segue:
“John Curlitt de Murlough, no
distrito de Down, na paróquia de Killough, deu ele mesmo corpo e alma a Satã, o
Demônio, que é chamado de Lúcifer, após o termo de nove anos, sob a condição de
que ele lhe dê tanto dinheiro durante o período quanto lhe agradasse, em lugar
de que ele se compromete a cumprir a troca e promete lutar sob seu estandarte
durante o termo citado, que se ele desertar, ele será entregue ao prazer de
Satã, e promete ao fim de nove anos ir por si mesmo. Assinado com sangue, selado e
entregue ao Demônio. John Curlitt”.
John
Curlitt totalmente negou ter escrito isso, dizendo que havia sido forjado
contra ele. O bispo afirmava que aquela era sua caligrafia e evidentemente
acreditava nisso, mas, curiosamente, não parece ter movido nenhuma ação legal.
Esse pode ter sido um caso de falsificação feita por um inimigo, ou
possivelmente feita por bravata, já que existiam diversos Clubes do Fogo do
Inferno.
Mas nessa
época acreditava-se firmemente na idéia de se fazerem pactos com o Diabo, e os
juristas
aceitavam a idéia de que se alguém
era tão mau a ponto de vender sua alma por dinheiro ou qualquer outra razão,
dava uma prova clara de heresia. E heresia significava morte. Aparentemente, eles
não se preocupavam em pensar que, se executassem o criminoso, o Diabo teria sua
alma ainda mais depressa.
A Igreja
tomou medidas para obter informações sobre todos os assuntos e dessa forma agir
contra todos os atos que desaprovava. Uma vez que o relato de Manx é
considerado ficção por muitos, citarei o seguinte trecho, de The dungeons of
saint Germains, de David Crain:
“O acusador anualmente arranjava
tudo para o juramento de seus representantes paroquianos e também convocava a
lista dos convidados para a assembléia, que, com os carcereiros, se reunia a
cada três ou quatro semanas sob a presidência do vigário ou reitor. Eles eram
obrigados por juramento a relatar e apresentar pessoas ditas culpadas por
violar o Cânone. Então, cada paróquia tinha seu corpo de nove ou dez homens, os
Skeet, cuja tarefa era espionar seus vizinhos. Na prática, a eficiência do
sistema era limitada pelas restrições que governavam a conduta dos indivíduos
em uma pequena comunidade, e veio um tempo em que os espiões ficaram mais relutantes
em realizar seu ofício. Mas, embora hesitassem em destruir a boa-vontade de
seus vizinhos por excessivo zelo durante o ano de exercício, tinham um grande
respeito por juramentos, e o resultado foi que a pesquisa exercia uma firme
pressão na vida da paróquia, encorajando o ressentimento, a desconfiança e o
medo”.
Daí o
ódio do moderno Manx pelo informante. Por esses meios a Igreja conseguia
conhecer o tipo de pessoas que poderiam ser bruxas. Os espiões bisbilhotavam e
procuravam por toda parte, tendo sido provavelmente um deles que pesquisou as
crenças de John Curlitt e encontrou, ou fingiu ter encontrado, o pacto com
Satã. Eles, sem dúvida, causaram a morte de quase todas as bruxas restantes e
de muitos outros, alguns dos quais não pertenciam ao culto, até que houvessem
sobrado apenas aqueles cujas famílias eram muito poderosas e possivelmente
aqueles que eram tão pobres que não mereciam ser espionados. As bruxas se
teriam tornado bons membros da Igreja para evitar a perseguição; afinal, elas
tinham autoridade bíblica para inclinar a cabeça a Rimmon, e é possível que
algumas destas repudiassem o cristianismo quando de sua iniciação.
O novo
terror trouxe grandes mudanças e, como se podia confiar apenas nos próprios
filhos ou em relações muito próximas, o culto se tornou praticamente uma
sociedade familiar secreta, separado de todas as outras convenções de bruxas.
Eles mantinham os ritos dentro de casa; muitos tiveram de ser cortados por
falta de membros e diversos ritos foram esquecidos. Foi provavelmente nessa
época que a prática de as bruxas manterem registros tornou-se comum, já que o
sacerdócio regular não mais existia e os ritos eram realizados apenas
ocasionalmente.
Em todos
os escritos das bruxas havia esta advertência, usualmente na primeira página:
“Mantenha o livro escrito em sua
própria mão. Deixe que irmãos e irmãs copiem o que quiserem, mas nunca deixe
esse livro fora de sua mão, e nunca guarde os escritos de outro, pois se for
encontrado com a sua letra você será apanhada e torturada. Cada um deve zelar
por seus próprios escritos e destruí-los quando o perigo ameaçar. Aprenda tanto
quanto você puder de cor e quando o perigo passar reescreva seu livro. Por essa
razão, se alguém morrer, destrua livro dela se ela não tiver sido capaz de fazê-lo,
pois se for encontrada será uma prova clara contra ela. Você não pode ser
bruxa sozinha, então todos os seus amigos estão em perigo de tortura, por
isso destroem todo o desnecessário.
Se o seu livro for encontrado em seu
poder, será uma prova clara contra você; você pode ser torturada. Mantenha
todos os pensamentos do culto em sua mente. Diga que teve sonhos maus, que um
diabo a obrigou a escrever aquilo sem seu conhecimento. Mentalize: Não sei de
nada; não me lembro de nada; esqueci tudo. Mantenha isso em mente. Se a tortura for
grande demais para suportar, diga: Eu confesso. Não posso suportar esse
tormento. O que vocês querem que eu diga? Perguntem a mim e eu o direi. Se
eles tentarem fazê-la falar de impossibilidades, tais como voar pelos ares, correspondências
com o demônio, sacrifício de crianças ou comer carne humana, diga: Tive
sonhos maus. Eu não era eu mesma. Eu estava enlouquecida.
Nem todos os magistrados são maus.
Se houver uma desculpa, eles podem ser piedosos. Se você confessou algo, negue-o mais tarde; diga que você balbuciou sob tortura
e não sabia o que fazia ou dizia. Se você for condenada, não tema, a Irmandade
é poderosa, eles podem ajudá-la a escapar, se você for decidida. Se você trair
de algum modo... NÃO HAVERÁ AJUDA PARA VOCÊ NESTA VIDA OU NA QUE VIRÁ. SE
LEALMENTE VOCÊ CAMINHA ATÉ A PIRA, AS DROGAS CHEGARÃO A VOCÊ e você se sentirá
aniquilada, mas irá para a morte e para o que está além, o Êxtase da Deusa.
O mesmo com as ferramentas de ofício.
Que elas sejam como coisas comuns que qualquer um tenha em casa. Que os pentáculos
sejam de cera para que possam ser derretidos ou quebrados rapidamente. Não
possua espada, a não ser que seu posto permita que você tenha uma. Não possua
nomes ou signos sobre nada, escreva os nomes e signos com tinta antes de
consagrá-los e lave-os imediatamente depois. Nunca se gabe, nunca ameace, nunca
diga que quer o mal para ninguém. “Se alguém falar do seu trabalho, diga: Não
me fale disso, pois me assusta, traz má sorte falar disso”.
Isso diz
muito. Deve datar do tempo da perseguição ferrenha no Continente e deve ter
sido traduzida grosseiramente para o inglês. O problema de tratar desses
documentos é a lei das bruxas: todos podem copiar o que quiserem de outros; mas
antigos escritos não podem ser guardados. Como todos são passíveis de alterar
levemente as coisas, modernizar a linguagem e fazer outras mudanças, é
impossível fixas a data em que isso se tornou corrente. Obviamente, não foi escrito
na Inglaterra. Embora bispos possam ter queimado bruxas por vezes, o
enforcamento era a única sentença de morte legal. Poderia ter sido escrito na
Escócia, mas os escoceses teriam escolhido palavras mais claras, acho. Isso
mostra uma coisa: que a corporação era poderosa. Podia subornar carcereiros
para que aplicassem drogas nas pobres coitadas. Isso explica, em minha opinião,
a queixa da Inquisição de que as bruxas dormiam mesmo sob tortura. A
declaração, além disso, deve datar de um tempo em que as pessoas se tornavam
letradas. A queima das bruxas no Continente era uma espécie de lei de
linchamento; os bispos faziam o que gostavam, dizendo que a Igreja estava acima
da lei da Terra.
As
pessoas me fazem perguntas sobre as bruxas porque ouviram muitos contos sobre
elas. Elas vão ao sabá? É verdade que usam uma pomada voadora? Por que as
bruxas se besuntam? Elas voam pelos ares em vassouras, quando vão aos seus
encontros? Nos tempos antigos, geralmente elas andavam carregando bastões ou
varas, que eram úteis como armas. Algumas vezes faziam uma espécie de salto com
vara sobre os obstáculos, úteis para encontrar o caminho e evitar obstáculos no
escuro. Nos tempos da perseguição, pelo menos, elas deveriam colocá-los entre
as pernas e correr com eles até o local do encontro; ou, se desafiadas, como
sinal de que pertenciam ao culto. Um erro poderia significar uma flecha entre
as costelas e a flecha teria sido untada com alguma variedade de sangue de
porco ou heléboro. Por fim, elas montavam nesses bastões durante a dança da
fertilidade; mas, a montá-los, era preciso que houvesse alguma graxa e fuligem
neles, e um bastão tão manchado poderia ser usado como evidência contra elas;
assim, frequentemente apanhavam um galho ou um cabo de vassoura, que são
normalmente sujos, e os usavam para reconhecimento, para pular ou para a dança
da fertilidade. Se o lugar do encontro fosse distante, elas montavam cavalos. Nunca
voaram em vassouras.
Hoje em dia, como pessoas comuns, elas andam ou tomam o
ônibus, ou o que lhes seja mais conveniente.
Nunca conheci bruxas que se
besuntassem inteiras, mas já me mostraram uma receita de óleo para ungir.
Consistia de verbena ou menta amassada e empapada em azeite ou banha, mantida durante
toda a noite, então coada em um pano para remover as folhas. Então se
adicionavam folhas frescas e a operação se repetia por três ou quatro vezes até
que o óleo estivesse fortemente aromatizado e pronto para o uso. Dizem que se
elas vivessem em uma localidade em que não seriam vistas tiravam as roupas,
passavam o óleo no corpo e iam nuas ao sabá. O óleo as manteria quentes até
começar a dança. Por vezes, elas misturavam ferrugem ao óleo para não ser
vistas à noite. Uma das acusações contra as bruxas é que se tornavam invisíveis
à noite e, deve-se notar, a verbena era tida como capaz de conferir a
invisibilidade. Elas possuem um óleo aromático muito poderoso, chamado hoje em
dia de óleo de unção. É usado apenas pelas damas, que o passam nos ombros, atrás
das orelhas, etc., como um perfume comum. Quando elas se aquecem com a dança,
vapores muito fortes são exalados e diversos deles produzem um efeito muito
curioso. Como esse óleo é produzido é um grande segredo; foi usado sem esse
ingrediente durante a guerra e por algum tempo depois, porém mais tarde os
suprimentos chegaram. Elas iam nuas aos encontros porque, se fossem atacadas,
não haveria tempo para se vestirem e assim acabariam deixando roupas
incriminadoras para trás.
Outra
razão é que elas acreditavam que um soldado deixaria uma moça nua partir, mas levaria
prisioneira uma moça vestida. Os escorregadios corpos untados também as
tornavam difíceis de ser apanhadas. No inverno, elas arranjavam um lugar
coberto, uma caverna ou ruína, onde pudessem acender o fogo e se aquecer.
Vestiam roupas na ida e na volta desses lugares. A “busca” local, que indagava
sobre acontecimentos anormais, certamente ficava em casa no inverno. Elas me disseram
também que na maioria das aldeias as bruxas arranjavam para que a primeira e a
últimas casas fossem ocupadas por um membro do culto, “e uma bruxa estrangeira,
em viagem ou de passagem”, poderia ir para onde estivesse segura de ter ajuda e
proteção. Nas aldeias, os membros do culto iam vestidos para essa casa e se
untavam lá. Os ocupantes da casa nunca assistiam ao sabá, mas logo que a última
bruxa saía, eles arrumavam uma desculpa para ser vistos.
Pelo
maior número possível de habitantes da aldeia, pois se alguém descobrisse que
houvera um sabá nas vizinhanças eles estariam
livres de suspeita. Há muitas histórias sobre pessoas saindo por janelas e
mesmo por chaminés quando haviam pessoas que não eram membros do culto na casa.
A maioria das pessoas, naquele tempo, acreditava em duendes e diabos e tinha
medo do escuro; então, se as bruxas estivessem a algumas jardas da aldeia,
estariam a salvo de larápios. Claro que as bruxas faziam todo o possível para
estimular esses temores. Elas eram grandes anedotistas e piadas bem-sucedidas
salvaram suas vidas muitas vezes; mas seus contos de advertência sobre o escuro
não eram inteiramente infundados. Os homens da floresta sempre usaram setas
envenenadas.
Após ter
escrito isso, recebi uma carta datada de 29 de setembro de 1952, informando-me de
um encontro realizado em um bosque no sul da Inglaterra, cerca de dois meses
antes na nudez tradicional (felizmente o tempo estava quente). Elas formaram o
círculo com o Athame, fizeram a dança da fertilidade em cabos de vassoura,
realizaram o próprio da estação, assim como outros ritos, e dançaram algumas
das danças antigas. A carta mencionava também três encontros internos nos últimos
meses, quando tudo acontecera de maneira satisfatória e os feitiços realizados
funcionaram!
O que me
interessa aqui é o fato de que muitas pessoas se encontram todo ano e realizam
ritos de bruxas porque acreditam neles. Um
crítico me sugeriu: “Essas pessoas não são bruxas; elas apenas fazem ritos de
bruxas porque isso lhes dá prazer e porque são supersticiosas”. Se esse fosse
um critério, uma superstição não é uma crença? Um cristão que acredita em sua
religião, e que, além disso, obtém prazer e conforto realizando seus ritos
religiosos, deixaria de ser um cristão? Também se diz, não sei com que razão,
que os Wee Frees (membros da Igreja Presbiteriana Livre) apenas acreditam em
religiões que tornam você miserável. Nem as bruxas nem eu próprio concordamos com
os Wee Frees a esse respeito.
CAPÍTULO V
O POVO MIÚDO
Raças pigméias na Europa e em outros
lugares – poderes mágicos e veneno – esposas “fadas” e o rapto de crianças e
noivas – a esposa “fada” do clã MacLeod e a bandeira fada de Dunvegan- os Pictos
de Orkney e Harold Haarfaga – empregados anões em famílias líderes - teriam os
anões chamados Kerions construído os megalitos? – fadas engajadas em sua
batalha em 1598 – casamento com povos não-encantados e a pequena estatura dos
Manxmen: teriam eles as características dos povos Pixies?
Eu
acredito no Povo Miúdo que vivia na Ilha de Man; mas eles não eram realmente encantados.
Havia muitas raças de pigmeus na Europa. Eles eram semelhantes aos atuais
pigmeus da África, pessoas pequeninas
ameaçadas por seus vizinhos maiores e expulsas para montanhas, florestas e
outros lugares inacessíveis. Eles assaltam campos cultivados e fazem
travessuras, mas, se seus roubos são perdoados e algumas vezes deixa-se comida
para eles, em troca eles deixam presentes de sua caça, carne, marfim e peles.
Dizem que às vezes roubam bebês e deixam um dos deles em troca, como as fadas
britânicas faziam. Os pigmeus vivem da mesma maneira na África Central, Malaia,
Nova Guiné, Deccan, Ceilão e nas Filipinas. Conheci diversos deles e todos usam
setas envenenadas e diz-se que possuem poderes mágicos.
Há
evidências dessas raças pigméias na Europa. Muitas casas de pedra são pequenas
demais para um homem moderno, mas são bastante confortáveis para crianças. As
pessoas das raças invasoras que os expulsaram das terras melhores inclinavam-se
a despreza-los, pois eles assaltavam suas colheitas e matavam seus rebanhos.
Depois de algum tempo, pensaram que se o Povo Miúdo fosse bem tratado se
tornaria amigável e os ajudaria, como ocorreu no auxílio aos sulistas na
batalha da Ponte das Fadas. Nas Ilhas Ocidentais da Escócia, como na Ilha de
Man, se as pessoas tivessem o Cerrd
Chomuinn (Associação de Ofício), uma espécie de camaradagem de artesãos,
poderiam fazer as fadas vierem e os ajudarem a lavrar e colher em troca de
presentes, como um europeu na Malaia consegue ajuda do Povo Miúdo local, os
Saki e Jakoon.
A Esposa
Fada era um tipo reconhecido chamado Leannan Sidhe. Ela era boa e bonita, mas perigosa,
e não se podia bater nela ou ela correria para seu povo, levando seus filhos e
seus dons de fada consigo. Geralmente exigia a promessa de não se contar sobre
sua origem encantada; logo, ela deveria ter tamanho suficiente para ser tomada
por mortal. As mulheres por vezes tinham maridos encantados, mas deviam manter
esse fato em segredo, ou às vezes apenas o fato de ele ser encantado era
mantido secreto, o que também incluía mostrar seu tamanho. Na Escócia, a Esposa
Fada frequentemente ajudava seu marido no trabalho; podia prever o futuro,
quando ele morreria, ou com quem se casaria após a morte dela ou depois que ela
o deixasse; mas enquanto durava a união ela era em geral muito ciumenta. Diziam
que a Esposa Fada roubava bebês e provavelmente o fazia para que a raça se
fortalecesse. Belas moças eram regularmente raptadas para ser esposas do rei
encantado, e fadas machos frequentemente persuadiam jovens a fugir de casa,
como os Highlanders da Escócia costumavam suprir-se de moças das Lowlandas há
trezentos anos, fugindo com elas ou raptando-as.
O clã dos
MacLeods das Ilhas foi fundado por Leod, filho de Olaf, o Negro, rei de Man,
que era filho de Harold Hardraga, o rei norueguês que foi morto na batalha da
Ponte de Stamford, em 1066. Seu bisneto, o quarto chefe, tinha uma esposa fada,
que lhe deu a celebrada bandeira fada de Duvegan, por volta de 1380. Todos
esses são povos históricos e a bandeira ainda existe. Essa esposa fada era
certamente uma mulher da raça miúda, que porém nunca se multiplicou o
suficiente para que existissem descendentes seus em nossos dias.
As casas
do Povo Miúdo são frequentemente descritas como montanhas cônicas. No Eire,
acredita-se que os sidhe vivem em montanhas ou
montes mortuários até hoje. Uma porta, quase sempre oculta, abria-se ao lado da
montanha; havia longas passagens escuras que levavam a muitas câmaras que eram
às vezes iluminadas por lâmpadas ou tochas. Praticamente todas as histórias
falam do escuro, ou luz crepuscular. A duas milhas de Castletown, na Ilha de
Man, uma aldeia foi escavada em 1943, pertencente a um povo céltico ou,
provavelmente, pré-céltico. A maior das casas era uma redonda, de madeira, com
um telhado parecido com um pires invertido, feito com blocos de capim e sustentado
por centenas de postes de carvalho arranjados em anéis graduados. O anel
interno formava um quarto de cerca de cinco metros e meio de diâmetro com uma
grande pedra no centro.
Essa
casa, de cerca de 1.800 metros quadrados de área e 27,5 metros de
diâmetro, era presumivelmente a casa do chefe ou rei e ele e sua família viviam
na seção central, sendo os círculos exteriores estábulos para o gado. Supõe-se
que ainda estava ocupada na época cristã.
A casa
era iluminada apenas pela chaminé central, que não fornecia mais que um
luscofusco. É certo que às vezes havia um vigia no telhado da casa, que se
parecia exatamente a uma montanha cônica, e é quase certo que esse vigia subia
com uma escada e descia pela chaminé, em vez de dar toda a volta até a porta e
subir a montanha inteira de novo; os outros também preferiam fazer desse modo.
Visitantes da raça alta devem ter notado esse curioso (para eles) hábito de
sair e entrar pela chaminé e foram possivelmente lembranças confusas desse fato
que levaram à lenda de que as bruxas tinham o hábito de sair e voltar pela
chaminé.
Essas
pessoas eram provavelmente membros de numerosas raças que habitaram a Europa em
tempos pré-célticos, possivelmente representados agora pelos finlandeses e
lapões, pequenos e muito fortes como descritos nos contos de fadas de diversos
povos. Nas Ilhas Ocidentais há muitas casas Pictas, de forma cônica e feitas de
pedra, mas que, quando cobertas de turfa, se assemelhavam a montanhas. Além da
conhecida Maeshow de Orkney, em Taransay, Harris, há uma pequena com uma
guarita na passagem de entrada onde os sentinelas se agachavam. Essa cela é
feita de pedra e tem 75
centímetros de altura e 90 centímetros de
largura; evidentemente, a sentinela era do Povo Miúdo! A maior das passagens de
pedra tem apenas um metro e quarenta e algumas têm o comprimento de mais de 20 metros . Pode-se
entender que a necessidade de defesa fazia com que uma porta pequena fosse
desejável, também para não deixar o frio entrar, mas não é razoável que houvesse
alguma vantagem em construir uma passagem longa, na qual seria necessário andar
curvado; logo, parece que a altura média dos usuários seria menor que um metro
e quarenta. O bispo norueguês de Orkney, escrevendo em Kirkwall em 1443, disse:
“Quando Harold Haarfaga conquistou as Orkneys no século IX,
os habitantes eram de duas nações, os Papae (católicos irlandeses) e os Peti
(Pictas ou Peths), e ele exterminou a ambos”. Ele prossegue: “Esses Pictas de Orkney
eram apenas um pouco mais alto que pigmeus e trabalhavam maravilhosamente na construção
de suas cidades noite e dia, mas ao meio-dia eles se escondiam em suas pequenas
casas subterrâneas, com medo da luz”. (Horum alteri scilicet peti parvo
superantes pigmeos statura in structuris urbium vespere et mane mira operantes,
meridie vero cunctis viribus prorsus destituti in subterraneis domunculis pro
timore laturent).
Pela
tradição dos Highlands, cada família tinha empregados anões que eram vistos
como misteriosos ou do povo encantado. Eles andavam quase nus, eram cabeludos e
tinham uma força imensa; eram poderosos arqueiros, travessos, gostavam de dança
e música e eram hábeis para a magia. Realizavam costumeiramente todo seu
trabalho à noite. Também a literatura inglesa se refere a eles; o “demônio
idiota” de Milton a cada noite talhava o leite, e esta e outras tarefas são cantadas
no Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare. Mais tarde, talvez algumas
histórias de macacos mascotes tenham-se misturado a essas lendas e o todo foi
transformado em contos de fadas. Sir Walter Scott se refere aos clãs aborígenes
ou servis e os descreve como “seminus, de crescimento atrofiado e miseráveis no
aspecto.” Eles incluíam os MacCouls, alegados descendentes dos Fian, que eram
uma espécie de gibeonitas ou servos hereditários dos Stewats de Appin.
Manuscritos
irlandeses do século XI afirmam que no século IX, quando os dinamarqueses invadiram
a Irlanda, nada houve nos vários lugares secretos que pertencesse aos Fians, ou
Fadas, que eles não tenham descoberto e roubado. Na Bretanha, a lenda diz que o
povo antigo que construiu os megalitos eram um povo anão conhecido como
Kerions, pequenos em estatura, mas muito fortes. Há uma expressão que diz
“forte como um Kerion”. Muito semelhante com o que os Scots costumavam falar
sobre os Pictas: “Verra sma’butt unco’ strong”. (muito pequeno, mas que força!)
Todos
esses povos parecem ser lembrados pelas mesmas características: bons amigos,
mas perigosos inimigos, muito fortes, capazes de desaparecer quando querem,
fazendo grandes festas à noite e usando flechas envenenadas. Eles foram
perseguidos e banidos pela Igreja, que os culpou de realizar ritos e danças
indecentes. As bruxas tinham relação com eles e frequentemente eles se casavam,
tornando-se a família encantada das lendas posteriores. A idéia escocesa de
bruxa parece afirmar que bruxas e fadas pertencem ao mesmo povo. Como vimos,
eles eram reputados como especialistas em magia. Embora
pequenos, era extremamente ágeis e tinham grande habilidade para trabalhar.
Trabalhavam durante a noite e terminavam ao raiar do dia, sendo bem pouco
vistos por bastante tempo e, a menos que tivessem um acordo com um homem, eles
escapavam para seus montes à menos interferência humana. Até que a época
vitoriana os cobrisse com véus leves e airosos, eles andavam nus ou enrolados
em trajes de pele. Isso mais tarde pode ter causado um mal entendido com a
prática dos Pictas de se pintar com anil e cal, o que os tornava verde-Lincoln,
a famosa cor das fadas. Tendo sido descritas como vivendo no mesmo país ao
mesmo tempo, parece razoável que as descrições dos anões, fadas e bruxas sejam
idéias populares diferentes referentes ao mesmo povo.
Há muitos
casos de nobres que empregaram o Povo Miúdo. Antes da batalha de Tri-Guinard,
em Islay, Escócia, no ano de 1598, Sir James MacDonald empregou um homenzinho chamado
Du-Sith (Elfo Negro) que era conhecido como encantado. Durante a ação, ele
matou o líder adversário, Sir Lachland Mor Maclean, com uma seta encantada com
a ponta de pedra. Isso desorganizou o clã e os MacDonald obtiveram a vitória. Presumivelmente
ele pertencia ao Povo Miúdo, um arqueiro poderoso, e sua flecha estava envenenada,
embora Sir James não o deva ter percebido.
Mas a
crença em uma flecha encantada que sempre matava ou uma flecha envenenada que sempre
assassinava é mais ou menos a mesma coisa e ele provavelmente achou que o
veneno era algo mágico; o fato é que ele empregou esse aliado e assim obteve a
vitória, e isso é um assunto histórico.
Infelizmente,
os conquistadores, como Harold Haarfaga, exterminaram a maior parte deles e reduziram
os outros a um estado servil, vivendo nas florestas como “pagãos” ou então
casando-se com seus conquistadores e misturando-se com a população comum. Isso
fez com que seu tamanho aumentasse um pouco e, quando perseguidos, seus
descendentes negavam ser fadas ou “pagãos”, ressaltando seu tamanho a seu
favor, dizendo: “Fadas são pequenas, nós somos grandes”. Nessa época, poderia
significar a prisão de Bishop, mutilação e a fogueira se alguém admitisse ser
um “pagão” ou uma fada. Mais tarde, os livres foram exterminados e os
habitantes das cidades desapareceram na população geral. Acho que posso
reconhecer alguns de seus descendentes até hoje, pequenos e troncudos, com
ombros bem largos e muito fortes.
Há cerca
de duzentos anos, os franceses acreditavam que na Inglaterra estava se criando uma
raça especial para ser marinheiros. Dizia-se que eram extremamente fortes, com
ombros muito largos e todos com menos de 1,60 m de altura, de forma que poderiam
trabalhar sob os conveses extremamente baixos dos navios de guerra britânicos.
Os franceses não são uma raça de gigantes, então deve haver alguma razão para
essa crença. Um grande número de homens de Manx prestou serviços relevantes na
marinha nessa época e se dizia que os regimentos de Manx (Fencibles) cobriam
mais chão numa parada que qualquer outro regimento britânico, por causa da
notável largura de seus ombros.
CAPÍTULO VI
COMO O POVO MIÚDO SE TORNOU BRUXAS
E SOBRE OS CAVALEIROS TEMPLÁRIOS
E SOBRE OS CAVALEIROS TEMPLÁRIOS
Na
Inglaterra, esses Povos Miúdos eram, em sua maioria, aborígenes pré-célticos,
mas entre eles havia muitos romano-bretões que permaneceram após a conquista
saxã. A maioria desses teria sido cristãos, mas todos os seus sacerdotes haviam
fugido. Naquela época, a maior parte do povo de Roma pensava que todos os seus
problemas surgiram por eles terem rejeitado seus antigos deuses.
Presumivelmente,
os romano-bretões pensavam o mesmo; mas os sacerdotes das fés romanas reconhecidas
haviam sido abolidos duzentos anos antes, quando Roma se tornara cristã. O Povo
Miúdo tinha deusas que se identificavam com Diana e Afrodite, de forma que
seria natural para os romanos que desejavam
adorar seus próprios deuses antigos, que não tinham templos, visitar e adorar
aqueles.
Esse
influxo pode ter trazido algumas mudanças no culto, mas os objetivos principais
não devem ter sido alterados. O que eles queriam era prosperidade e fertilidade
para a tribo, uma vida após a morte em condições felizes e reencarnação em sua
tribo ou nação.
Pouco a
pouco, essas pessoas passaram a falar e comerciar com os saxões, provavelmente urdindo
contra as várias invasões vikings. Foi quando o cristianismo voltou. Os reis e
o povo das cidades o aceitaram, mas as pessoas do interior, os pagãos (pagani –
pessoas que viviam no campo), os aldeões, os gentios (povos da floresta), eram
na maioria da antiga fé, e eis porque se usam esses dois nomes para descrever
os não-cristãos até hoje.
Depois
veio a invasão da normanda. Os normandos eram noruegueses pagãos que haviam recebido
grandes concessões de terra do rei francês, sob a condição de que se tornassem
cristãos e lhe rendessem homenagem. Podemos bem chama-los “cristãos de arroz”.
Dizia-se que tinham uma seita em Rouen, sua cidade principal, que adorava
Afrodite; essa seita foi suprimida, pelo jeito, apenas no século XII. O pai de
Guilherme, o Conquistador, era Robert, o Diabo, e estava envolvido com
bruxaria. O filho de Guilherme, Guilherme Rufus, também era conhecido como
líder de bruxas.
Os
normandos eram poucos entre os muitos saxões que eles reduziram à escravidão.
Estes eram bons fazendeiros e trabalhadores,
vivendo em lugares ao alcance do senhor. Sendo assim habilidosos, eles eram
forçados a trabalhar a terra do senhor da propriedade e pagar taxas. Os gentios,
os povos que viviam nas florestas, eram poucos e inacessíveis e era difícil
forçá-los a pagar taxas ou impostos feudais, de forma que viviam mais ou menos
independentes. As pessoas das cidades os tinham como povos estranhos, viciados
em magia.
Os saxões
odiavam seus conquistadores e eram mal-humorados e rebeldes. É mais do que provável
que os gentios estivessem, em princípio, contentes em ver seu conquistador
saxão tão maltratado e tivessem tido vontade de travar relações com os
normandos, prestando serviços como caçadores e possivelmente como mineiros, em
troca da isenção de taxas. Essas relações mais provavelmente ocorreriam quando
o senhor feudal normando já pertencesse a algum culto da mesma natureza na
França.
Que tais
cultos existiam está provado pelos manuscritos da cúria da Igreja da França,
que contam como as damas da nobreza costumavam ir às orgias ou aos sabás
noturnos de Bensozia, a Diana dos antigos gauleses, também chamada Nocticula,
Herodias e a Lua. Elas inscreviam seus nomes em um registro e após a cerimônia
acreditavam-se fadas. Temos aqui o fato de os nobres terem amizade com um povo
que mantinha uma espécie de sabá de bruxas; as pessoas que celebravam essas
cerimônias eram vistas, aparentemente, como fadas e bruxas ao mesmo tempo. É notável
que a deusa fosse, como a deusa-bruxa, conhecida sob muitos nomes e
identificada com a lua. É claro que essas ligações eram formadas apenas pelos
livres-pensadores ou pessoas menos ligadas aos padres. Edward, o Confessor, não
se teria juntado a eles, mas Guilherme, o Conquistador, ou Guilherme Rufus
poderiam facilmente tê-lo feito. Em conexão com essas idas a Bensozia, devo
mencionar uma história que as bruxas me contaram, de que nos velhos tempos elas
costumavam ir a grandes encontros distantes a cavalo, vestidas com roupas
misteriosas, com aparência de espíritos, gritando e cantando para assustar as
pessoas. Poderiam algumas dessas corridas noturnas ter despertado a lenda de
uma caçada selvagem? Possivelmente foi a lenda que lhes deu a idéia.
Deve-se
notar que Raymond de Lusignon, um personagem histórico, casou-se com uma fada
chamada Melusina, de quem os reis Lusignon de Jerusalém e Cipro descenderam; Melusina
é o nome de uma das deusas das bruxas. Naquela época, embora o povo das
florestas assistisse às cerimônias religiosas, apenas os sacerdotes e
sacerdotisas eram iniciados, passando por testes e prestando juramentos. Apenas
aqueles ligados ao povo e ao culto poderiam assistir a tais cerimônias. Isso
explicaria as histórias de pessoas mascaradas chegando para assistir aos sabás.
Eles eram nobres conhecidos, que se mantinham reservados, não tomando parte nos
procedimentos, mas dançando e festejando entre eles. Também era bem sabido que
havia por vezes seiscentas pessoas presentes em um sabá.
Pode ou
não ser coincidência, mas a idéia de cavalheirismo cresceu por essa época. Em
um tempo em que as mulheres eram tratadas como criadas e em que os homens da
Igreja debatiam seriamente sobre elas terem ou não almas, os nobres menores, ou
seja, a classe social que podia assistir aos sabás, repentinamente desenvolveu
um código de deferência para com as mulheres. Chegaram a ponto de pôr certas
damas graciosas em pedestais e trata-las com o maior respeito possível. A
princípio parece que era apenas para as damas que “entrassem no jogo”, por
assim dizer; mas pouco a pouco estendeu-se o requinte das maneiras para com
todos os membros do sexo. Haveria aí conexão com o culto da deusa?
Os
normandos tomaram alguns dos homens das florestas a seu serviço, como
cavalariços, caçadores e outros trabalhos braçais, em que seu conhecimento
sobre animais tornava-se útil. Penso que eles tinham algum extraordinário
conhecimento e amor pelos animais, que em tempos posteriores apareceu nos
Sussurradores de Cavalo irlandeses que, de acordo com histórias confiáveis,
podiam domar o cavalo mais selvagem apenas sussurrando para ele. Em minha juventude
na Escócia, havia uma espécie de sociedade secreta mística, conhecida como a
Palavra do Cavaleiro, entre empregados de fazendas. Os membros da sociedade
supostamente tinham tratos com o Diabo e certamente tinham poderes estranhos
sobre os cavalos. Acredito que a Igreja e o Sindicato do Comércio os esmagaram,
embora eles ainda devam existir em segredo. O pensamento secreto dessa sociedade ou
culto era que homens e animais eram irmãos de mesma descendência e deveriam ser
vistos e tratados como irmãos. Acho que algo assim era tido como verdade e
praticado pelos Sussurradores de Cavalos; isso explica algumas coisas que eles
eram capazes de fazer. Algo desse tipo deve estar por trás das
histórias de bruxas e similares.
Tudo vem
das práticas dos povos das florestas, que por sua vez vieram dos povos antigos
que primeiro tentaram influenciar os animais por meio de magia. Esta, porém, é
simplesmente minha teoria; não posso dar disso nenhuma prova. Quando o país se
abriu, as raças devem ter casado entre si e os homens das florestas tenderam a
aumentar de tamanho. Uma raça misturada sempre é melhor fisicamente, mas misturando-se
eles tenderiam a perder seus estranhos poderes paranormais, o que parece
ocorrer quando há muitos cruzamentos. Eles são muito comuns em gêmeos idênticos
e menos comuns em gêmeos normais, mas sem dúvida outras pessoas os possuem. São
hereditários, mas as bruxas têm fórmulas para produzir essa forma de
auto-inebriamento, de escape para o mundo do encantamento.
Não podem
ser induzidos, porém, em pessoas com níveis de vibração diversos desses
poderes, como muitos saxões, que os julgam diabólicos. O Povo Miúdo era vívido,
emocional, pródigo; os saxões eram fleumáticos, trabalhadores, religiosos e
respeitáveis. O fato de seus odiados senhores terem relações com o Povo Miúdo e
assistirem a seus chocantes encontros em nada contribuía para diminuir o abismo
entre eles. Os mais selvagens e menos religiosos de seus senhores percorreriam
grandes distâncias para assistir a um sabá. As bruxas contam histórias de
pessoas roubando casas à noite para assisti-los, emprestando os cavalos de seus
patrões; ou talvez o próprio patrão selasse seu cavalo e corresse para o
encontro sem informar sua mulher. Esses cavalos esgotados podem ter dado origem
às histórias de duendes que os furtavam para montar e galopar. No Museu de Castletown,
há uma chave de estábulo com uma pedra furada amarrada, para impedir as fadas
de roubar os cavalos.
Essas
moças encantadas romano-britânicas eram com freqüência muito bonitas, e muitos
homens que assistiam aos sabás traziam com
eles esposas-fadas e faziam casamentos felizes. Isso era bastante comum entre
pequenos fazendeiros que viviam em lugares isolados; mas era visto com desdém
pela parte respeitável da comunidade.
Os tempos
mudavam devagar. Os senhores não eram mais normandos. Muitos haviam se casado
com saxãs, alguns tinham filhos legítimos ou ilegítimos com mulheres
romano-britânicas e a raça tornou-se inglesa. O povo das florestas não era mais
composto por selvagens seminus cobertos de peles; vestiam roupas tingidas de
anil e cal que, como eu disse antes, produzia o verde-Lincoln – uma camuflagem
excelente, que permitia ao Povo Miúdo desaparecer atrás de arbustos. A história
de Robin Hood difundia-se, o conto do arqueiro maravilhoso que nunca errou seu
alvo. Robin era um nome franco-inglês comum para um espírito e Hood era uma
variante freqüente de Wood (floresta), e foi, além disso, derivado do
escandinavo Hod, um deus do vento, variante de Woden. Robin Hood, então, embora
tivesse provavelmente uma existência histórica, era uma forma mítica em que uma
bruxa-líder poderia facilmente se transformar. Ele tinha sua convenção de
bruxas de doze, que incluía a Grande Sacerdotisa, Lady Marian, toda vestida de
verde. Era talvez mais respeitável ir a uma festa de pessoas da floresta que a
uma festa de bruxas. Os jovens brilhantes entre os saxões vinham e os membros
itinerantes aumentavam. Gradualmente, essas festas tornaram-se os Jogos de Maio.
Deve-se
notar que o público dos antigos Jogos de Maio era muito maior do que alguns poucos
escolares dançando em torno de um mastro. Os jogos eram aproximadamente o que
hoje se chama “orgias”. Para dar uma idéia disso, o juiz, que com os jurados
governava Alderney nas Ilhas Channel até recentemente, me contou que até 1900
os velhos costumes eram mantidos em tal extensão que qualquer mulher solteira
de Alderney poderia dizer a qualquer homem de Alderney que o merecesse durante
o ano: “Você estava comigo nos Jogos de Maio, o filho em meu corpo é seu, você
deve se casar comigo”, e ele era forçado a fazê-lo.
Mas hoje
em dia há apenas um costume semelhante ainda forte. Qualquer habitante de Alderney
que tenha uma garrafa de rum no primeiro de maio pode pegar leite da vaca de
alguém para misturar leite e rum e o proprietário não deve objetar. Mas mesmo
esse costume está morrendo causa do preço do rum.
O
escritor puritano Philip Stubbes fala do mastro como um “ídolo fedorento, do
qual esse é o modelo perfeito, ou ainda a coisa em si”, querendo dizer que era
fálico. Ele também diz: “Tanto os homens quanto as mulheres, velhos e jovens...
vão às florestas e bosques, onde passam toda a noite em agradáveis passatempos
e de manhã retornam. Ouvi relatar confidencialmente, viva-voz, por homens de
grande gravidade e reputação, que, se suas empregadas iam às florestas à noite,
havia apenas uma chance muito remota de que retornassem à casa imaculadas”.
Mesmo
dando uma margem ao exagero puritano, parece que o Sabá das bruxas não era nada
mais que os passatempos comuns do povo, tendo qualquer excesso sido
deliberadamente exagerado pelos opositores.
Se as
coisas não tivessem sido alteradas, algumas das práticas mais assustadoras
teriam cessado, ou seriam praticadas apenas em âmbito privado. Mas em 1318 e
novamente em 1320 o papa João XXII publicou uma bula feroz contra a bruxaria,
pronunciando-a como heresia. Na perseguição resultante, que continuou por
séculos, o povo das florestas foi praticamente exterminado. Não havia mais
grandes sabás, pois a organização fora esmagada e os membros sobreviventes
estavam sob a proteção de nobres ou entre os membros do culto secreto.
Os
primeiros julgamentos nos mostram o que aconteceu. As pessoas diziam: “Somos
bons cristãos; fizemos essas coisas para conseguir uma boa colheita”. Em muitos
casos, era o padre da paróquia que comandara os ritos de fertilidade e o povo
dizia que não lhes haviam contado que era errado; realmente o padre dissera que
aquilo era certo. No princípio, apenas penitências e multas eram impostas, mas,
à medida que a Igreja ganhou força, a tortura e o fogo foram usados. A velha religião
cometeu um grande erro. Afirmava-se que o paraíso estava reservado para os
iniciados; que as pessoas comuns, quando morriam, iam para uma espécie de
paraíso espiritualista, uma terra das felizes caçadas: mas ali se tinha que
trabalhar, enquanto apenas os iniciados poderiam obter o conhecimento requerido
que os levaria a um paraíso onde eles descansavam e se aliviavam até estarem
prontos para reencarnar na terra.
A
cristandade primeiro prometeu o que foi irreverentemente chamado “salvação
barata”. “Abjura teus deuses pagãos, acredita nos três deuses que são só um e
irás direto a um paraíso glorioso, onde serás rei com uma coroa dourada, sem
nunca trabalhar, apenas tocando harpa e festejando para sempre.” Todos os que
recusassem essa oferta seriam queimados no Inferno. Há uma velha história sobre
um ministro escocês que pregava: “E, queridos irmãos, após o Dia do Julgamento
eu ficarei nas ameias do Paraíso segurando a mão do Senhor e nós vamos olhar
para baixo para ver vocês se contorcendo no medonho fogo do Inferno. E vocês
gritarão em agonia: “Ó Senhor, Senhor, nós não sabíamos.” E o Senhor vai olhar
para vocês com sua infinita bondade e piedade e lhes dirá: “Bem, vocês sabem
agora”.” (NT: esse trecho, no original, é escrito com inglês arcaico e sotaque
escocês. Transcrevo o trecho em questão: “And dear brethren, after Judgement Day
I will stand on the battlements of heaven by the rich han “o” the Lord, and we
will luk down on ye a-writing in the awfa’ fiers o’Hell. Andy e shall scream in
agony: ‘O Lord, Lord, we didna ken’. And the Lord will luk doun on ye wi’ His
infinite goodness and mercy, and He will say unto ye: ‘Weel, ye ken noo’.”).
Rimos
hoje, mas não era uma piada quando o povo acreditava que tal aconteceria. Os pagãos
não tinham inferno com que assustar as pessoas; eles simplesmente afirmavam que
o melhor paraíso e a melhor reencarnação eram para os ricos e espertos.
Enquanto os respeitáveis e trabalhadores povos das cidades desprezavam os povos
das florestas e se chocavam com seus atos, os nobres menores não se envergonhavam de seu contato com a magia das
bruxas e feiticeiras, pois não a consideravam ofensa séria; diversos papas eram
sabidamente praticantes. O evangelho de São João começa: “No princípio era o
Verbo”, e era sabido que, por conhecer essa palavra de poder, o rei Salomão
fizera os espíritos trabalharem para ele. Manuscritos foram vendidos a altos
preços, fornecendo os ritos e as palavras mágicas usadas por ele e instruindo a
ensinar outras pessoas a fazer o mesmo.
Os nobres
menores que não faziam segredos de suas práticas eram presa fácil e renderam muito
saque para a Igreja, até que a perseguição se virasse para presas maiores, como
Lady Alice Kyteler na Irlanda. Lady Glamis, que acredito que fosse ancestral da
rainha, foi queimada viva em 1537 como bruxa! A duquesa de Gloucester foi
condenada à temida Prisão Bishop em Peel Castle , Ilha de Man, onde ela agonizou por
dezesseis anos até sua morte. Sua companheira, Margery, a Bruxa de Eye, foi
queimada viva, e Roger Witche (NT: NOTE O NOME WITCH= BRUXA EM INGLÊS) ou
Bolingbrook, é clérigo e homem da igreja, foi levado da Torre de Londres para
Tyburn e ali foi enforcado, decapitado e esquartejado.
Há também
o célebre caso dos Cavaleiros Templários. Eles foram atacados repentinamente e
sua destruição pelo fogo e tortura trouxe muitos saques para as mãos do Estado
e da Igreja. Houve inumeráveis livros relatando os casos pró e contra essa
ordem, de forma que o assunto deve despertar algum interesse.
As bruxas me disseram: “A lei sempre
disse que o poder deve ser passado do homem à mulher ou da mulher ao homem,
sendo as únicas exceçõe4s a mãe que ensina sua filha ou o pai ao seu filho,
porque são partes deles mesmos”. (a razão é que um grande amor pode ocorrer
entre as pessoas que participam de um rito juntas). Elas continuam dizendo:
“Esses Templários quebraram essa regra ancestral e passaram o poder de homem
para homem: isso leva ao pecado e, fazendo-o, provocaram sua própria queda”>
Se essa história não tiver sido inventada meramente para explicar a queda da
Ordem, é possível que os Templários tenham conhecido e usado da antiga magia. É
possível que as cabeças ou esqueletos que eles adoravam fossem simplesmente imagens representando a
Morte e o que está além?
O terreno
principal para essa teoria é que as bruxas pensam reconhecer indicações de que
os Templários condicionavam seus corpos da mesma maneira que elas para produzir
a magia; como elas o fazem, porém, estou proibido de mencionar. Elas também
dizem que uma das acusações feitas contra os Templários no Grande Processo em
Paris em 1316 era “que à sua recepção na ordem eles renegassem Cristo,
declarando que ele não era Deus, mas um homem, que não havia esperança de
salvação através dele e que eles não acreditavam nos sacramentos da Igreja”.
Embora elas não neguem Cristo e os sacramentos, as bruxas em geral não
acreditam neles, o que era no mínimo “incomum” naquela época. Em sua iniciação,
uma bruxa é sempre recebida no círculo com um beijo na boca. Os Templários
recebiam um beijo similar. Mas ambos foram torturados para dizer que o beijo
era em outro lugar.
Outra
acusação era que os Templários adoravam uma cabeça, descrita variadamente,
algumas vezes como tendo três rostos, outras apenas um crânio humano ou uma
cabeça de cadáver: eles acreditavam que essa cabeça tinha o poder de fazê-los
ricos, as árvores florescerem e a terra tornar-se fértil (chamaríamos a isso um
culto de fertilidade). Nas iniciações, os candidatos a Templários eram quase ou
inteiramente despidos; mantinham seus encontros e iniciações secretos e
noturnos, como as bruxas. Meus livros de referência fornecem as acusações
oficiais contra os Templários, como segue:
1) Negação de Cristo e enlameamento
da cruz.
2) Adoração de um ídolo.
3) Uma forma pervertida da missa.
4) Assassinatos rituais.
5) Uso de um cordão de significado
herético.
6) O beijo ritual (ou obsceno)
7) Alteração nas palavras da missa e
uma forma não-ortodoxa de absolvição.
8) Traição de outras divisões do
exército cristão na Palestina.
9) Imoralidade.
Em
relação ao nº. 8, nenhuma corporação de homem lutou tão bravamente e por tanto
tempo na Palestina, de forma que essa parece
ser apenas uma acusação “chutada”. Em relação ao nºs. 3 e 7, se isso fosse
verdade, deveria ser feito pelos sacerdotes Templários, e não pelos cavaleiros
guerreiros, mas apenas cavaleiros eram julgados. Nenhuma ação jamais foi tomada
contra um sacerdote Templário.
Em
relação ao nº. 9, todos os cruzados e o clericato comum eram acusados disso vez
ou outra. Há pouca evidência de que os Templários
fossem piores que os outros. Mas em relação aos nºs. 1, 2, 5 e possivelmente 4
e 6, acho que pode haver alguma base para as acusações. Dizem que o ídolo se
chamava Baphomet. Alguns escritores dizem que essa é uma corruptela de Maomé;
mas naquela época os cruzados certamente sabiam que Maomé era um homem e um
profeta, não um ídolo. Também se diz que significaria Bapho Metis, o Batismo da
Sabedoria, sem uma explicação sobre em que consistiria essa sabedoria. Outra
história é que teria sido cunhado a partir das primeiras letras da seguinte
sentença escrita de trás para a frente: TEMpli Omnium Hominum, Pacis ABbas:
O Pai do Templo da Paz Universal entre os homens. Não poderia essa palavra
ter sido cunhada para representar o Consolador, o Confortador, o doador de Paz,
a Morte e o que está além?
Muitos
escritores dizem que a jornada até o Castelo de Graal representava na verdade a
viagem da alma pelo submundo para chegar ao paraíso e que isso se torna muito
claro com as várias evidências dadas ao herói, mesmo que ele não possa entender
certos incidentes (ver The High History of the Holy grail; também, de J. S. M.
Ward, The Hung Society, para maiores detalhes).
Dizia-se
que esse castelo secreto ficava numa terra distante e pertencia aos Templários.
Para alcançá-lo, era preciso vencer provas e fazer certas questões, conhecer
certos segredos e palavras secretas (senhas); em outras palavras, “iniciação”
em uma sociedade mais ou menos secreta cujos segredos eram um talismã mágico,
que tinha cinco formas ou cinco coisas que eram diferentes sendo a mesma; um
segredo de prosperidade e fertilidade e um segredo de ressurreição ou regeneração
conectado com uma lança que gotejava sangue em uma taça ou um caldeirão. Tudo isso
pode ser tomado como sendo equivalente a dizer que era possível ao homem
atingir uma pósvida feliz sem ajuda da Igreja, ou que não havia necessidade de
adorar Cristo para obter a salvação. Isso é exatamente o que a Igreja acusava
os Templários de acreditar. Como batia direto no coração do ensinamento da Igreja, ela dizia
que todos os que sustentavam tais visões deviam ser destruídos; daí os vários julgamentos e
execuções.
Eu não
acho que já se tenha explicado exatamente o que aconteceu com a maior parte dos
Templários. Os registros mostram que cerca de oitocentos foram executados ou
mortos sob tortura; mas havia mais de quinze mil Cavaleiros espalhados por toda
a Europa. Havia também cerca de vinte e cinco sacerdotes e irmãos serventes,
que parecem nunca ter sido perseguidos. Então, aparentemente quarenta mil pessoas
caíram em esquecimento e desapareceram, como as bruxas mais tarde. Um ponto
curioso sobre essa perseguição é que os padres Templários nunca foram acusados.
Se há alguma verdade nas acusações 3 e 7, isso só poderia ser trabalho dos
padres. Dizia-se que eles mandaram o ladrão à cruz, que provavelmente era em
Barrabás – certamente uma pessoa improvável para ser transformada em um deus.
Outra história é que eles chamaram Cristo de ladrão porque Ele dizia ser o
Filho de Deus, mas era o Filho do Homem. Se eles tivessem falado do mentiroso
ou do fingidor na cruz, essa história faria mais sentido.
Na
verdade, acho que não há dúvidas de que se tratava de um caso de “aqui estão
pessoas saudáveis que podemos saquear”, e tirou-se vantagem do fato de alguns
desses cavaleiros serem suspeitos de seguir uma antiga religião. Porém, muitas
falsas acusações foram trazidas ao mesmo tempo, primeiro por causa de um mau
entendimento quanto à importância de alguns ritos, mas principalmente porque,
se a verdade fosse conhecida, a maior parte da opinião pública estaria em favor
dos cavaleiros.
Acusações
eram feitas, por vezes, devido ao mau entendimento de algumas cerimônias, etc. Por
exemplo, os romanos acusavam os primeiros cristãos de ser canibais, porque em
seus encontros dizia-se que eles comiam a carne e bebiam o sangue de seu Deus!
E durante a Primeira Guerra Mundial a polícia turca atacou a Igreja inglesa de
Jerusalém, arrancou o altar e escavou todo o solo, porque ouviram que o
sacerdote encarregado tinha recentemente feito dois cânones no altar (NT: canon,
em inglês, quer dizer tanto “cânone” como “canhão” (Cannon); o trocadilho é
intraduzível.) – cânone tinha apenas um significado para eles.
Uso de
uma corda de significado herético. Para escritores modernos sobre os Templários, essa sempre
pareceu uma acusação curiosamente sem propósito, em uma época em que todos os monges
usavam um cordão ou cinto semelhante. Mas, embora os inquisidores possam ter
sido canalhas, certamente não eram tolos. O modo como se preocuparam com essa
acusação mostra que seu objetivo era desacreditar os Templários com a opinião
pública, de modo a causar o esquecimento de seus grandes serviços à
cristandade. Então, era óbvio que esse cordão ou cinto era tido como, no
mínimo, não-ortodoxo. A Crônica de St. Denis afirma enfaticamente: “Nesses
cintos estava sua maomeria”. Isso poderia significar que eles eram secretamente
maometanos; mas culpálos de abraçar o maometismo teria sido a acusação mais
danosa, e tal nunca foi levantado.
Naqueles tempos,
Mammot era o termo usado para denotar um boneco ou um ídolo e maometria significaria
“fazer coisas com ídolos”. Dizia-se que usavam essas cordas para atar a caveira
ou a cabeça de cadáver que adoravam. Para uma bruxa, atar uma caveira pode ter
um significado. Parece claro que os Templários davam importância àquela corda.
Nas Crônicas de Cipro, ouvimos que o servo de um Templário removeu (roubou?) o
cinto de seu mestre. Quando o Templário descobriu aquilo, imediatamente matou
seu servo com sua espada. Ainda, um forasteiro diz ter ouvido um Templário instruindo
alguns noviços, dizendo a eles que guardassem bem aquelas cordas, usando-as
ocultas sob os trajes, pois por intermédio delas eles poderiam chegar à
prosperidade.
Tudo isso
pode se aplicar à corda consagrada que as bruxas possuem e usam de muitos modos.
Todas as que vi eram coloridas, comumente vermelhas, embora eu tenha visto
outras cores. Elas lhe dão valor como a seus outros instrumentos de trabalho e
naturalmente ficariam muito aborrecidas se alguém removesse (roubasse) algum
deles. Deve-se notar que nessa época a Igreja acusava as bruxas de “conjurar
tempestades, sacrifícios humanos e uso de cintos”. Uma curiosa combinação!
Estou
proibido de contar os usos que uma bruxa faz de seu cordão, e duvido que a Igreja
soubesse, ou eles o teriam mencionado nos julgamentos. Ou talvez eles o
soubessem e não quisessem que esse conhecimento se tornasse público.
Pode ser
mera coincidência; apenas o citei para mostrar em que algumas bruxas acreditam atualmente.
Por mim, nada vejo de impossível nisso. Não se sugere que os Templários fossem membros
do culto das bruxas, simplesmente que alguns deles possam ter tido lembranças
de um antigo culto de morte e ressurreição e, mesmo sendo mais ou menos
cristãos, ainda tinham tendências para ele e possivelmente praticavam alguma
magia a ele ligada.
Deve-se
lembrar que os noviços eram proibidos de falar de qualquer coisa que
acontecesse durante sua iniciação, mesmo para um outro membro. Se eles fossem
apenas proibidos de falar com forasteiros, poderia ser simplesmente como os
maçons e outros, que têm ritos secretos de iniciação; mas sendo os noviços
proibidos de comparar observações, pareceria que nem todos os pontos da iniciação
seriam mostrados a todos os noviços ou, alternativamente, que várias
explicações eram dadas sobre a mesma cerimônia. Provavelmente certos
comandantes favoreciam os deuses mais antigos e poderiam introduzir certas
práticas, e o fato de que em muitos casos os noviços disseram ter sido
ameaçados por espadas para fazê-los prosseguir na cerimônia apontaria nessa
direção.
Pode ser
também que houvesse um círculo interno na Ordem que pegava alguns noviços como
membros preferenciais que poderiam trabalhar com magia: em outras palavras,
pessoas que tinham poderes mediúnicos. Esses não deveriam necessariamente ser
atraídos pela antiga fé e precisavam de um certo “susto” antes de realizar
certos atos, tais quais cuspir na cruz. Após fazê-lo, o noviço provavelmente se
sentia um excomungado e mais fácil de ser manejado para obedecer às ordens do círculo
interno. Essa teoria explicaria que aparentemente a maior parte dos cavaleiros
não conhecesse essa prática nem tivesse visto a cabeça ou caveira, mas tenha
ouvido que outros as haviam visto. Ou é possível que durante a cerimônia certas
coisas que eram feitas não seriam notadas se a atenção do noviço não fosse
despertada para aquilo. Se o Grande Mestre ficasse por um minuto ou dois com os
braços cruzados no peito, quem o notaria?
Mas se
lhe dissessem que naquela posição ele representa o Deus da “Morte e o que está
além”, por meio do qual haveria a salvação, ele seria notado e isso poderia ser
interpretado pela Igreja como o pensamento de que não havia esperança de
salvação por intermédio de Cristo, ou ainda, de que seria possível ter uma
pós-vida feliz e a regeneração sem a Sua ajuda.
Se lhe
mostrassem uma cabeça ou uma cabeça de cadáver depois, dizendo que representa Deus
e que se deveria reverenciar aquele objeto, isso pode ser tomado como adoração
de um ídolo pela Igreja. Se a outro noviço mostrassem a mesma caveira e
dissessem que era simplesmente um emblema da mortalidade ou a cabeça de um
santo, o padre mais ortodoxo não poderia objetar. Há algumas evidências de que
essas caveiras existiram. Algumas foram encontradas, uma delas em Paris.
Há uma
curiosa história templária sobre uma caveira que trouxe boa sorte ou
fertilidade. Uma nobre dama de Maraclea era amada por um Templário, um senhor
de Sidon; mas ela morreu e foi enterrada. Tal era a força do amor do cavaleiro
que ele desenterrou o corpo e o violou. Quando uma voz lhe disse que voltasse
em nove meses, ele obedeceu e encontrou uma caveira entre as pernas de um
esqueleto (um crânio e ossos cruzados). A mesma voz lhe disse para “guarda-la
bem, pois era o doador de todas as coisas”. Tornou-se seu gênio protetor e ele
venceu seus inimigos e ganhou grande saúde. Mais tarde, ela tornou-se
propriedade da Ordem. E por meio dela a Ordem ganhou sua força e poder. Os
escritores dizem que essa parece ser uma narrativa distorcida de uma cerimônia
da Morte e Ressurreição, talvez vista por alguém de fora.
Há muitas
lendas antigas sobre cabeças ou crânios: a de Bran, o Ferido, no Mabinogin, a Cabeça
Sangrenta na História de Peredur e outras, todas portadoras de vitória e
prosperidade, remanescentes das velhas lendas de Adônis e Astartéia e de Hórus,
que foi gerado pelo morto Osíris.
Os
Templários podem ter experimentado práticas que, embora sendo heresias para uma
bruxa, foram fundadas em seus métodos. As bruxas ensinam que para trabalhar com
magia é preciso começar com um casal, pois é necessária uma inteligência
masculina e feminina; eles devem estar em sintonia um com o outro; e elas
acreditam que durante a prática eles gostam um do outro. Algumas vezes é
indesejável que eles possam apaixonar-se. As bruxas têm métodos com os quais
tentam evita-lo, mas nem sempre têm sucesso. Por essas razões, segundo elas, a
deusa proibiu estritamente um homem ser iniciado ou trabalhar com outro homem,
ou uma mulher ser iniciada ou trabalhar com outra mulher, sendo as únicas
exceções um pai que inicia o filho e a mãe, a filha, como dito acima; e a
maldição da deusa pode cair sobre aquele que quebrar essa lei. Elas acham que os
Templários quebraram essa lei e trabalharam com magia, homem com homem, sem
saber o modo de evitar o amor; e eles pecaram e a maldição da deusa caiu sobre
eles.
De meu
próprio conhecimento, usar os métodos das bruxas pode muito bem causar uma afeição
que talvez leve a um “caso”, se não for suprimido desde o começo. Mas isso
significa fazer duas coisas ao mesmo tempo, tentar produzir simpatia e
simultaneamente evitar qualquer afeição natural; é muito mais fácil fazer só
uma das coisas. Na época da guerra, os Templários podem ter-se esforçado apenas
para uma coisa, não conhecendo ou não se importando com as conseqüências.
Os
Templários tinham muitos privilégios peculiares. Tinham seus próprios padres,
que eram inteiramente independentes do bispo local, tendo de responder apenas
ao papa. Os Templários confessavam seus pecados uns aos outros e se davam
absolvição, sendo às vezes surrados; isso significa que nenhum ensinamento
não-ortodoxo poderia escapar de lá. Não há razão para dizer que no princípio os
Templários eram não-ortodoxos; o que deve ter acontecido é que, devido a circunstâncias
peculiares, essa ordem foi organizada de modo que doutrinas secretas podiam ser
ensinadas com segurança, enquanto que o livre pensamento era fortemente
abafado. Eu deveria imaginar que a maior parte dos padres Templários sabia o
que os ritos significavam, porque, por exemplo, os noviços eram total ou
parcialmente despidos.
O número
três representou uma parte muito importante nas vidas dos cavaleiros. Por exemplo,
diz-se que o Beijo Ritual e a negação simbólica da cruz ocorriam três vezes
durante as cerimônias. Há muitos outros casos do uso dos números três, cinco e
oito que ocorrem nos costumes Templários, o que sugere que esses números tinham
um significado especial para eles.
A mais
curiosa das acusações contra os Templários, e que parece ter algum fundamento,
é a de pisotear ou cuspir na cruz e a negação de Cristo. Sua importância parece
ter sido pouco compreendida pelos cavaleiros e explicações diversas foram dadas
a diferentes pessoas. Petrus Picardi disse aos inquisidores que era um teste de
fidelidade e, se tivesse sido bravo o suficiente para se recusar a fazer como
lhe disseram, ele teria sido enviado diretamente para a Terra Sagrada; isso
também prova que eles e outros eram ameaçados com a morte se não o fizessem.
Gouarilla, preceptor de Poitou e Aquitânia, disse que a negação era uma
imitação da tripla negação de Cristo feita por São Pedro. Outras desculpas
foram dadas por cuspir e pisar na cruz.
Diz-se
que algumas vezes essa cruz era um crucifixo, em outras uma cruz cavada ou
pintada no solo, o que de novo apontaria para o fato de cada homem ser iniciado
de um jeito e cada rito ser diferente de outro. Mas em todos os casos parece
ter sido um severo teste de obediência da parte do noviço, como vez ou outra
lemos que outros cavaleiros o ameaçavam com espadas afiadas para que ele o
fizesse, e ele apenas o fazia para salvar sua vida.
A
acusação nº. 4 parece mostrar que noviços foram realmente mortos quando se
recusaram a obedecer, embora esse ponto não pareça claramente provado. A forma
das igrejas Templárias, circular por fora, octogonal por dentro, é peculiar a
elas. Diz-se que foi copiada da Mesquita do Domo em Jerusalém, que era tida
como o Templo de Salomão, e é mesmo possível que isso possa tê-los
influenciado; mas os Templários, dentre todos os Cruzados, eram os que tinham
mais relações com os habitantes da Palestina; eles deveriam logo ter aprendido
quando e por quem aquela mesquita fora construída; ou seja, por Omar, tendo
sido sempre conhecida como Mesquita de Omar. Então, parece-me que essas igrejas
foram construídas com algum objetivo ritual especial, que envolvia trabalhar em
um círculo. Pode-se notar que o Grande Mestre dos Templários sempre
trazia uma Vara de Ofício, coroada por um octógono. Nunca ouvi nenhuma sugestão
sobre o significado disso.
Sugiro
que os ritos realizados por vezes podem ter incluído circunvalação em torno de
um ponto central ou altar, incluindo uma forma dramática de morte e de
ressurreição ou regeneração, ou uma visita ao submundo, e um pacto ou aliança
com o Deus da Morte e O Que Está Além, e o ponto no centro do círculo deve ter
tido um grande significado para eles. Também o número oito era de alguma
significação. Diz-se que é simplesmente porque a Cruz Templária tinha oito
pontos; mas não pode ser por eles reverenciarem o número oito que deram à sua
cruz oito pontos?
Outro
grande “sagrado” Templário era o Cálice, a Taça. Como eu já disse, as bruxas reverenciam
também a taça, o que parece datar dos tempos dos antigos cultos de fertilidade.
É um fato curioso que a Igreja desprezasse e desencorajasse a história do Santo
Graal, embora eles não pudessem evitar que se tornasse popular como um
“romance”. As versões originais apareceram por volta de 1175 a 1125; então a fonte
de fornecimento parece ter-se esgotado. Teria sido pressão da Igreja? Dali em
diante, os escritores simplesmente fizeram releituras dos antigos materiais, adicionando
histórias do rei Artur e seus cavaleiros, etc.
O Graal é
uma espécie de objeto sagrado ou talismã. Traz fertilidade à terra e assim alimenta
seus adoradores. Tem muitas formas, mas é sempre um objeto de fertilidade e um provedor
de alimento. Tem cinco formas:
1. Um relicário
2. O prato ou copo usado na Última
Ceia.
3. Uma jarra ou garrafa na qual São
José recebeu o sangue das chagas de Cristo.
4. Uma pedra sagrada ou talismã.
5. O cálice da eucaristia.
Em todos
esses casos, porém, parece não haver substância material, mas ter vindo de uma espécie
de quarta dimensão, para a qual suavemente retornou. Será que poderíamos dizer
que veio e retornou ao lugar entre os Mundos, algo como o Círculo das Bruxas?
Dizemos
que o Gradil é um mistério que não deve ser revelado ao não-iniciado. Te Ego History
of the Holy Grail diz que o Graal apareceu de cinco maneiras diferentes, das
quais nenhuma se deve contar, pois das coisas secretas do Sacramento ninguém
deve falar abertamente, mas apenas àqueles a quem Deus as deu. Será que isso
não aponta um sentido interno na história do Graal, ou seja, que o significado
do objeto sagrado variava de acordo com a compreensão do iniciado, ou deveríamos
dizer que diferentes explicações sobre os significados dos objetos foram dadas
em altos graus de iniciação e que a explicação mais exterior era o Cálice, mas
que em tudo havia a implicação do “alimento” e da fertilidade?
Há indicações
de que a Igreja sabia ou suspeitava de algum rito secreto entre os Templários que
era de natureza fálica, pois com crueldade perversa amarravam grandes pesos a
esse órgão quando torturavam os desafortunados cavaleiros, como que para dizer:
se seus ritos giram em torno desse membro, nós o torturamos nele para extrair
as mais danosas evidências. Os homens do século XV logo entenderam o conceito
de “fazer um castigo ajustado ao crime”.
Em
Parzival, de Walfram Von Esehenbach, o Graal é uma pedra que está sob a
proteção de Cavaleiros Templários escolhidos pela própria pedra. Na pedra
apareceram escritos os nomes desses guardiões quando ainda eram crianças (isso
não apontaria para noviços iniciados ainda crianças em um culto, como o culto
das bruxas?). Da mesma forma, a pedra escolhe uma esposa para o rei, a única
com quem lhe será permitido casar (Sacerdotisa do culto?). Essa pedra traz alimento
a seus adoradores. Na versão de Diu Crone, Gawain termina a busca, formula uma
questão há muito esperada e por meio dela devolve à vida o guardião do rei, que
estava morto. Não é um motivo de regeneração ou reencarnação?
High
History também diz: “Após isso, vieram dois padres à cruz e o primeiro ordenou
sir Pereeval que se afastasse da cruz”; e quando ele o fez, “o padre se
ajoelhou diante da cruz e a adorou, arqueou-se e a beijou mais de vinte vezes e
manifestou a maior alegria do mundo. E o outro sacerdote veio e trouxe uma grande
vara e empurrou o primeiro padre para o lado à força, e bateu na cruz com a
vara em todas as partes e vertia lágrimas de grande dor. Pereeval o contemplou
com grande admiração e disse a ele, “Sir, você não parece um padre”. Para que
você faz coisa de tão grande vergonha?” “Sir”, disse o padre, “não toca a você
nada do que possamos fazer, nem deve você decidir isso para nós”. Não fosse ele
um padre, Pereeval teria se lançado a ele, mas não teve vontade de lhe fazer
nenhum mal.
Depois disso ele partiu”....” (Dr. Sebastian Evans,
The High History of the Holy Grail, pp. 89,191). Mais tarde, o rei Hermit explicou que ambos os padres
amavam a Deus igualmente e que aquele que batia na cruz o fazia porque ela
havia sido o instrumento de dor e de angústia para Nosso Senhor. Essa
explicação não poderia ter sido incluída apenas para explicar e justificar uma
cerimônia de beijar e vergastar, ou de enlamear a cruz, tal como se alegava que
os Templários faziam? A High History foi escrita por volta de 1220; parece
mostrar que a cerimônia era antiga e tinha uma explicação legítima aos olhos
daqueles que tomavam parte nela. O escritor era provavelmente um padre
Templário ou alguém que conhecia e aprovava suas práticas, e possivelmente
desejava esclarecer quaisquer rumores que pudessem ter-se espalhado.
Ocorreu-me
que as bruxas têm um rito que envolve beijar e então bater em um objeto, com a
intenção de carregá-lo de poder. Não é uma cruz e elas não dizem ou pensam que
é uma cruz; mas lendo esse relato percebi que um observador a certa distância
pode confundir um com o outro. Tem mesmo uma forma de cruz. Se os Templários
usavam a antiga magia, eles teriam praticado este rito e rumores poderiam
ter-se formado. O alegado rito templário de poluir a
cruz só ficou conhecido no mundo durante a perseguição e o julgamento de 1307,
noventa anos depois de High History ter sido escrito. Há muitos traços de um
culto de fertilidade nas histórias do Graal. Os próprios “sagrados” parecem ter
ligação com tais cultos.
O Graal,
o copo ou cálice é como o caldeirão céltico. Revivia o morto e trazia a
fertilidade de volta à terra. O rei, no Mabinogion, deu a Gawain uma espada que
a cada dia gotejava sangue. Há uma cabeça e um arpão que goteja sangue em
conexão com um caldeirão de fertilidade na aventura de Peredur, que se diz
vagamente estar ligado ao assassinato de uma relação de Peredur por bruxas de
Glaucesier. Uma espada ou adaga que goteja sangue (ou vinho) em um caldeirão
teria grande significado para as bruxas; elas têm também uma tradição de cabeça
ou caveira. Será que a história não poderia ser um modo oculto de dar pistas de
que um ancestral de Peredur entrara no Círculo da Morte e voltara, de forma que
o próprio Peredur era do sangue das bruxas e designado a conhecer o Mistério do
Caldeirão? A maior parte dos estudantes concorda que o arpão sangrento é fálico.
No
manuscrito de Merlin, Bibliothéque Nationale 337, há uma procissão do Graal que
passa por um bosque cantando: “Honra e Glória e Poder e alegria infinita ao
Destruidor da Morte”. Não seria um canto em honra da Deusa? Ou não poderia ser
um disfarce para o canto: “Honra e Glória e Poder e alegria infinita ao destruidor
do medo e da morte?”, ou seja, aos doadores da Regeneração, Morte e o que
está além.
Jaffet,
um cavaleiro do sul da França, relata uma recepção em que lhe mostraram uma cabeça
ou ídolo e disseram: “Você deve adorar isto como seu salvador e o salvador da
ordem do Templo, “ e ele foi obrigado a adorar essa cabeça beijando seus pés e
dizendo: “Abençoada seja por salvar minha alma”. Cettus, um cavaleiro recebido
em Roma, dá um depoimento similar. Um Templário de Florença conta que lhe
disseram: “Adore esta cabeça; esta cabeça é o teu Deus e teu Maomé”, e disse
que a adorou beijando seus pés.
Parece
que ninguém perguntou como se poderia beijar os pés de um crânio. Isso talvez possa
ser explicado por alguns ritos semelhantes à seguinte prática das bruxas: nos
antigos tempos dizia-se que “quando deus não estava presente, era representado
por uma caveira e ossos cruzados” (“a morte e o que está além”, ou “paraíso e
regeneração”). Hoje em dia, essa figura é simbolizada pela Grande Sacerdotisa,
de pé, com seus braços cruzados, para representar a caveira com os ossos em cruz. O adorador beija
seus pés, dizendo uma espécie de oração que começa com: “Abençoada seja...” e a
intenção que segue é indicada por Jaffet e pelos outros, não sendo as palavras exatamente
as mesmas, como seria muito improvável: possivelmente ele falava francês. Que
foi traduzido para o latim dos monges e retraduzido para o inglês muitos anos
depois: sem dúvida as palavras das bruxas também mudaram. Lembro-me de uma
bruxa alemã me dizendo, logo que foi apresentada aos ritos ingleses: “Mas é
pura poesia!” Nada rima, mas é bonito, embora muito desigual, o que eu acredito
provar que alguém poeticamente inclinado reescreveu grande parte nos últimos
duzentos anos.
Durante
essa oração à Grande Sacerdotisa, ela abre seus braços na posição do Pentáculo.
Ela representa então a deusa, ou regeneração, significando que a oração está
garantida. “Então ela é tanto deus como deusa, macho e fêmea, morte e
regeneração, poder-se-ia dizer bissexual”. Nas ilustrações de Payne Knight
sobre Baphonet, o dito deus Templário, ele é mostrado como sendo macho e fêmea
ou bissexual; por vezes uma caveira aparece, por vezes a lua. Se há realmente alguma
boa prova que são esses os deuses Templários, não posso dizer. Pode ser tudo
mera coincidência.
A
acusação nº. 5 é a dos Templários usando cordões ou cintos, com os quais
costumavam atar seus deuses-caveiras. Como vimos, a Igreja acusava similarmente
as bruxas de usar cordões ou cintos que tinham um significado ritual para elas.
Por mim, nada vejo de impossível no fato de Templários os terem usado da mesma
forma que as bruxas.
Os
Templários vieram dentre os nobres menores, as classes que, sendo bons soldados
e por vezes doando grandes somas à Igreja, andavam frequentemente às turras com
ela; e pelo menos algumas dessas classes tinham uma ligação com bruxas ou
fadas. Quando a cristandade foi vencida pelo paganismo e os Cruzados, após seus
esforços, foram expulsos da Terra Santa, houve naturalmente um período de
decepção dentro da cristandade, um sentimento de que Deus e o Cristo haviam
falhado com eles. Durante sua longa associação com o Oriente, os Templários
devem ter-se tornado mais tolerantes e mais liberais que seus conterrâneos que
ficaram em casa, e pelo menos alguns podem, em seu retorno à Europa, ter sido
tentados a se juntas às únicas pessoas com quem eles realmente poderiam falar
livremente, pessoas com as quais eles já haviam tido associações na juventude;
podem ter experimentado práticas que, embora pareçam heresia a uma bruxa, foram
inspiradas em seus métodos.
Acho que
é forçado sugerir qualquer conexão entre a caveira com os ossos e a alegada prática
templária de cruzar as pernas, pois diversas tumbas do período nos mostram
cavaleiros com suas pernas cruzadas, incluindo alguns que não eram Templários e
que nunca haviam estado na Terra Santa. Claro que isso poderia simplesmente
simbolizar a cruz, mas não seria mais reverente fazê-lo com os braços? O deus
Mithra é frequentemente mostrado com dois criados com tochas, que usualmente
têm suas pernas cruzadas. Esse era um culto típico de soldados e pode
referir-se tanto aos Templários como a outros; mas não encontrei nenhuma
conexão.
CAPÍTULO VII
AS BRUXAS E OS MISTÉRIOS
Sempre
acreditei que as bruxas pertencessem a uma Idade da Pedra independente, cujos ritos
eram uma mistura de superstição e realidade, sem ter conexão com qualquer outro
sistema. Mas durante minha curta estada em New Orleands , embora
não tenha conseguido travar contato com o Vodu, percebi algumas semelhanças
suspeitas que me fizeram pensar que o Vodu não fosse somente africano na
origem, mas tenha sido composto na América, fora da bruxaria européia e da mitologia
africana; e quando visitei a Villa dos Mistérios em Pompéia percebi grandes
semelhanças no culto. Aparentemente, essas pessoas usavam os processos das
bruxas. Eu sei, é claro, que os antigos e modernos escritores concordaram que
os mistérios gregos de Dionísio, Zeus, Orfeu, Zagreu e Elêusis eram similares;
então, cada mistério tinha diferentes ritos e mitos, mas eram os mesmos, o que
deve significar que eles tinham algum segredo interno.
Em seu
instruído trabalho A Villa dos Mistérios, o professor Vittorio Macchioro diz o seguinte
sobre o assunto: “O mistério é uma forma especial de religião que existia entre
todos os povos antigos e, entre os povos primitivos, conserva ainda uma
importância muito considerável. Sua essência é a palingenesia mística, ou seja,
uma regeneração trazida pela sugestão. Em seu mais perfeito estágio, a
palingenesia é uma verdadeira substituição de personalidade: o homem é investido
da personalidade de um deus, um herói ou um ancestral, repetindo e reproduzindo
os gestos e ações a ele atribuídos pela tradição”.
Apenas as
deidades que, tendo sua própria história mítica, dão à luz em si mesmas os elementos
do novo nascimento, Deméter, Dionísio, Ísis, Átis e Adônis, podem conferir a palingenesia,
a identificação do si - mesmo com a Divindade, devido à concepção especial que
os gregos tinham das relações entre vida e morte. O postulante passava pelo
mito divino, revivia a vida do deus e passava, com o deus, do lamento à
alegria, da vida à morte. O professor Macchioro dá o seguinte relato:
“Todos os mistérios se operavam da mesma maneira. Consistiam em um drama
sagrado e em uma série de atos rituais, que reproduziam os gestos e ações
atribuídas à Divindade. Esse é o princípio da eucaristia, comer o pão e beber o
vinho para identificar-nos com Seus atos. Não era um drama objetivo, mas
subjetivo, sendo a repetição daquilo que, de acordo com a tradição, fora feito por
Deus. Era guiado por instruções preliminares, aumentadas em efeito por visões e
sugestões extáticas, conduzindo o iniciado, ele próprio um ator, à comunhão com
Deus. Os dramas se tornavam um verdadeiro acontecimento na vida do homem, como
o sacramento, transformando-o completamente e assegurando-lhe a felicidade após
a morte. Antigamente, o mistério era uma cerimônia puramente mágica, mas com o
tempo adquiriu conteúdo moral e espiritual. As religiões de mistério tinham
enorme influência na consciência grega, habilitando-a a compreender o valor da mensagem cristã.
O Orfismo foi a mais importante
delas, tendo seu nome derivado de seu alegado fundador. Era uma forma
particular da religião orgiástica e extática que originou o culto a Dionísio e
consistia em reviver em seu mito. Zagreus, o filho de Zeus e Koré (Perséfone),
é assassinado por instigações de Hera com os Titãs, que o cortaram em
pedacinhos e o devoraram, exceto seu coração, que Atenas salvou e do qual
nasceu, como filho de Zeus e Semelé, o segundo Dionísio. A palingenesia aqui
consistia em morrer e nascer de novo em Zagreus. A espécie humana nasceu das cinzas dos Titãs,
fulminados pelos raios de Zeus como punição por seu crime. Por isso, todos os
homens sustentam a carga do crime dos Titãs; mas como os Titãs haviam devorado
Zagreus, o homem tem também dentro de si a natureza de Dionísio. Os teólogos
dizem que á da natureza titânica inata no corpo que o homem deve se libertar
para se reunir com natureza dionisíaca pela interferência dos mistérios.
Dessa forma, os Mistérios Órficos
ganhou um importante significado moral e espiritual e exerceu grande influência
em almas eminentes como Heráclito, Píndaro e Platão; quando o cristianismo se
difundiu, foi o Orfismo que forneceu as bases para a teologia paulina. O Orfismo
logo entrou em contato com o culto rural de Elêusis, cujos mistérios eram celebrados
sem elementos extáticos e orgiásticos. O contato com o Orfismo transformou o
culto, adicionando o elemento da redenção; da fusão nasceram os Mistérios de
Elêusis, como foram conhecidos na Antiguidade. Estes consistiam de duas partes:
o órfico, girando em torno de Zagreus e celebrado em Agrai, um subúrbio de
Atenas, e chamado “Pequenos Mistérios”; e o Eleusino, girando em torno de Deméter e Koré, celebrado na própria Elêusis e
nomeado “Grandes Mistérios”.
O primeiro era a preparação
necessária para o último; conferia a palingenesia em Zagreus, a nova vida que tornava o iniciado merecedor de ter acesso ao mais alto
ensinamento dos Grandes Mistérios. Protegidos pelo Estado, glorificados por
artistas e poetas, eles eram o centro da vida grega e floresceram
ininterruptamente do oitavo século a.c. ao ano 396 d.c., quando Elêusis foi
destruída por monges. Os segredos, protegidos por leis, foram respeitados;
conhecemos tão pouco dos Pequenos Mistérios quanto dos Grandes, a visão suprema
que coroava a série de cerimônias no último dia.
Os estudiosos fazem repetidos
esforços para descobrir o que aconteceu até que a Villa dos Mistérios fosse
descoberta. Ela fica na Rua das Tumbas, em Pompéia, fora do Portão Estabiano, e
é dividida em duas partes separadas por um corredor. A parte nordeste é como
uma casa comum de Pompéia; a parte noroeste é peculiarmente arranjada. A porção
central é formada por um grande vestíbulo decorado com afrescos e chega-se a
ele pelo corredor, passando por duas salinhas, entrando-se pelo vestíbulo por
uma pequena porta lateral; o caminho de saída é uma larga porta que se abre
para um terraço. Esse grande vestíbulo foi originalmente um triclinium (sala de jantar) e as duas
salinhas eram cubiculi (dormitórios);
tudo sofreu alterações para adaptá-los a uma proposta diferente daquela a que
se destinavam. As pinturas contêm a resposta, pois elas se estendem ao longo de
todas as paredes do vestíbulo, sem contar os cantos e aberturas. Contêm 29
figuras, quase em tamanho natural, vestidas no estilo e segundo o costume dos
gregos e assemelhando-se a pinturas atiças do século V a.c.
É evidente que é um ato só dividido
em vários episódios, contando a história de uma figura velada de mulher que
aparece em todos os episódios. A história é uma série de cerimônias litúrgicas pelas
quais a mulher é iniciada no Mistério órfico e atinge a comunhão com Zagreus.
Dionísio. Ela é a protagonista de toda a liturgia.
2. Envolvida no sindon, a donzela reverentemente se
aproxima de um jovem nu evidenciado como um sacerdote pelas botas dionisíacas
que veste. Este embades, sob a terna
direção de uma sacerdotisa, está lendo uma declaração ou ritual de um rolo, de forma
que a neófita possa conhecer as regras, ou talvez o significado da iniciação.
3. Dessa forma instruída e
habilitada para compartilhar do rito, a donzela, ainda envolvida no sindon e agora usando uma coroa de
mirto, anda para a direita segurando um prato ritual com alimento em fatias
para tomar parte em uma refeição lustral. Diante de uma mesa sacrificial está
sentada uma sacerdotisa com dois criados; com sua mão esquerda ela descobre o
prato trazido por um dos criados e em sua mão direita ela segura um galho de
mirto em que o outro criado, que coloca na cintura dela um rolo ritual, está derramando
uma libação por meio de um oenoche. Este
é o ágape lustral que deve ser celebrado
antes da comunhão, como era o costume na cristandade primitiva.
4. Após a celebração do ágape, a neófita é merecedora de um
novo nascimento, representado alegoricamente. Um sátiro e uma sátira estão
sentados; um fauno está esticando seu focinho em direção à sátira, que oferece
o seio; à esquerda, o velho Sileno entra na cena tocando extaticamente uma
lira. No mito, Dionísio criança foi transformado em cabrito para escapar à
fúria de Hera. Esse cabrito que é amamentado simboliza a infância de Dionísio, e Sileno está presente por ser o
pedagogo do Deus; a cena representa simbolicamente o novo nascimento da
neófita. Ela nasceu de novo em Zagreus sob a forma de um cabrito, o que explica
por que, nos tabletes de ouro enterrados com um iniciado em Sibaris, está
gravada a alma do morto aparecendo diante de Perséfone e dizendo: “Eu nasci
novamente.”
7. Talatéia mantém seu gesto com a
mão e levanta a vara, enquanto a donzela ajoelha atarantada e terrificada, com
o rosto escondido na capa de uma sacerdotisa compassiva, para sofrer a
flagelação ritual que substitui e simboliza a morte. Fisicamente ela não morre,
mas passa simbolicamente pela morte e morre misticamente, assim como os estigmatistas
morrem crucificados em Cristo.
8. Morta com Zagreus, ela renasceu
agora com ele; ou seja, tornou-se uma bacante e não é mais uma mulher, mas um
ser humano divino. Nós a vemos agora nua e dançando freneticamente, ajudada por
uma sacerdotisa que segura o tirso, o símbolo da nova vida dionisíaca. O
espírito de Dionísio desceu a ela. O Homem se tornou Deus e Dionísio está
presente, despercebido, no milagre. Observamo-lo no espaço entre a quinta e a sexta
cenas, semi-reclinado na capa de Koré, com um pé descalço de acordo com o rito, contemplando com divina indiferença tudo o que o homem pode sofrer por
ele. Assim o mistério é visto.
A Basílica Órfica, o grande salão,
era o vestíbulo da iniciação ou stibade
e nele se entrava pela pequena entrada após os sacrifícios preparatórios
terem sido realizados nas salinhas adjuntas, como provado pelos fragmentos de
sacrifícios encontrados ali. Após entrar no stibadium e receber a iniciação, os neófitos passavam pela larga
porta do terraço, onde se poderia supor que havia um banquete em uma celebração
festiva do evento. Esse arranjo corresponde ao Baccheion órfico descoberto em Atenas. Para formar
essa basílica privada, seus organizadores aproveitaram o triclinium e os dois cubicula adjacentes, rearranjando-os
e decorando-os com pinturas apropriadas à sua nova proposta, não tendo sido sem
razão o fato de sua localização numa villa suburbana. Os Mistérios Órficos
foram, como sabemos, proibidos pelo Senatus Consultum (De Bacchanalibus) após
eles terem dado origem a escândalos; mas o ponto mais curioso é que, de acordo
com Livy, esses escândalos aconteceram precisamente na Campânia e as iniciações
eram femininas e aconteciam de dia. Nossa liturgia nos mostra a iniciação de
uma mulher e a enorme janela prova que a iniciação era feita à luz do dia. Essa Basílica Órfica, em tempos
passados era o lugar secreto de encontro do iniciado, permite-nos hoje penetrar
nos segredos dos Mistérios gregos.”
Investigações
mais recentes mostraram que essa villa pertencia a alguém da família imperial;
a grande sacerdotisa nos afrescos foi identificada como um retrato da
proprietária, embora seu nome ainda não tenha sido averiguado. Mostrei uma foto
desses afrescos a uma bruxa inglesa, que a olhou muito atentamente antes de
dizer: “Então eles já conheciam os Mistérios naquele tempo”. Todos esses
antigos Mistérios tinham muito em comum. Eram frequentemente os meios pelos quais uma
pessoa passava de uma classe para outra; tornavam casadoira uma mulher, por exemplo.
A maioria, porém, estava ligada a uma vida futura, mas isso era mantido
secretamente.
Imagino
que todos os sacerdotes dos tempos antigos foram regenerados, tornados santos
de modo semelhante, e por vezes também alguns leigos; se isso fazia deles
sacerdotes menores, eu não sei. Em Atenas, sabemos que praticamente toda a
população grega era iniciada, incluindo os escravos, e que o Estado pagava as
taxas dos pobres; mas nenhum estrangeiro jamais foi iniciado e os Mistérios
eram protegidos por lei, pois achavam que isso era necessário para o bem do
Estado. Também sabemos que eles mantinham secretos os nomes dos deuses.
Escritores
cristãos estavam acostumados a falar desses mistérios como orgias, e
Chesterton, falando das Bacantes de Eurípedes, diz: “Hoje em dia, imaginem o
primeiro-ministro indo com o arcebispo de Canterbury dançar com belas
desconhecidas em
Hampstead Heath ”. Mas eles o faziam porque os deuses queriam
e não apenas por prazer, embora sem dúvidas eles gostavam daquilo. Hoje em dia
as pessoas se chocariam pensando que eles gostavam daquilo, ou mesmo que eles tomavam
ar fresco e faziam exercício com a prática, como os judeus ficaram altamente
chocados por Cristo violar o Shabbath.
Há uma
história de que o padre Lachaise absolveu o rei Luís XIV com as menores penitências
por massacres a sangue-frio e coisas do tipo, que ele achava perfeitamente
natural praticar; mas ficou extremamente chocado e deu uma penitência pesadíssima
porque, após uma batalha, Luís comeu uma torta em uma sexta-feira, sem saber
que havia pedacinhos de carne nela. Logo, quando os antigos escritores que
foram iniciados dizem que “Todos os mistérios são o mesmo”, certamente isso
queria dizer que a essência interna era a mesma.
Um pagão,
examinando as várias seitas cristãs, católicos, romanos e ortodoxos,
presbiterianos, metodistas e Igreja das Igrejas da Inglaterra, diria que no
cerne são todas a mesma. Eles todos adoram o Deus Trino, o Pai, o Filho e o
Espírito santo, embora alguns prestem mais honras à Virgem e aos Santos que
outros. As pessoas que cultuam dessa forma são no geral boas e merecedoras e,
obviamente, não cultuariam assim se a religião fosse má; dessa forma vemos que,
já que os maiores e melhores homens do mundo antigo pertenciam aos iniciados,
podemos estar certos de que os mistérios não eram apenas orgias. Realmente
sabemos, como mostrado acima, um pouco sobre o que eles eram. Lewis Spence, em sua Occult Enciclopaedia ,
diz:
“Pinturas, mosaicos e esculturas
mostram as iniciadas nuas, uma carregando milho, outra fogo, algumas, cestas
sagradas com serpentes, mulheres, ou deusas, iniciando os homens... estes eram
cultos secretos em que algumas pessoas eram admitidas após preparação preliminar...
Depois dessa comunicação ou exortação mística (a Declaração), a revelação de
certas coisas sagradas, então a comunhão com a Deidade... mas os mistérios
parecem girar em torno da representação semidramática de uma peça de mistério
da vida do deus”.
Acho que
é, ao menos, plausível acreditar que tudo aquilo não era apenas representação, mas
que havia uma séria razão por trás. Que eles acreditavam que, enquanto os
deuses os quisessem bem, eles não eram todo-poderosos, que eles precisavam da
ajuda do homem; que realizando certos ritos o homem lhes dá poder; também que
os deuses desejavam que os homens fossem felizes e que os atos que davam prazer
aos homens davam aos deuses alegria e poder, que eles poderiam aplicar em uso
próprio assim como em benefício do homem. (Os deuses precisavam dos adoradores
como os adoradores precisavam dos deuses. Suas energias reprodutivas eram
recrutadas, então o homem tinha de sacrificar a eles o que fosse mais másculo
no homem.)
As danças
selvagens mostravam que os deuses queriam que o homem (incluindo o primeiro-ministro
e o arcebispo de Chesterton) fosse feliz, e não que fosse puritano. Essa dança extática
também produzia poder e visões do futuro, algumas das quais se tornavam
verdade. Por essa razão, os ritos eram valorizados pelo Estado e protegidos por
lei, de forma que nenhum estrangeiro pudesse vir a conhecê-los. Evidentemente,
os sacerdotes e sacerdotisas que podiam prever o futuro, embora de maneira
turva, e que poderiam acalmar os mais perigosos políticos e faze-los trabalhar
para o Estado em vez de se esforçar para corrompê-lo, eram os mais valiosos.
Por outro lado, se a existência desse poder fosse conhecida, o segredo poderia
ser descoberto e usado por inimigos, para causar um rompimento político como um
senso de pacifismo ou a rendição do inimigo. (Jâmblico, em seus Mistérios ,
diz: “Se alguém sabe como, pode pôr em movimento forças misteriosas que são
capazes de contatar a vontade do outro, direcionando suas emoções como o operador
deseja; isso pode ser feito com a palavra falada. Cerimônias propriamente
realizadas, ou que procedem de um objeto
apropriadamente carregado de poder, são chamadas de magia”.)
Novamente
repito que não afirmo que eles pudessem de fato faze-lo; estou dizendo que as bruxas
acreditam que elas próprias podem e acho que as pessoas em Atenas, em altos
postos, tinham crenças similares. Pois pessoas em todo o mundo são capazes de
fazer certas coisas e acreditam em determinadas coisas em certas
circunstâncias, e, como essas crenças podem ocorrer independentemente, mesmo
sendo muito semelhantes, suspeito de uma conexão. Espero que muitas pessoas
ataquem essa visão e realmente desejo que o façam. Discussão e crítica são os
únicos meios de chegar a uma conclusão satisfatória.
O
primeiro e maior argumento contra o meu ponto de vista será, eu acho, a crença
de que “para ganhar poder e fazer as pessoas parar de pensar em suas misérias,
os sacerdotes e reis encorajaram os maiores excessos”. Na África de hoje em
dia, a ação de missionários e do governo, esmagando as grandes danças tribais,
são tidos como responsáveis pela intranqüilidade política e pelas campanhas de
assassinato. E é certo que os mistérios tornaram a população feliz e quieta. É
de conhecimento de todos que por vezes havia orgias entre eles; ninguém tenta
negar os fatos; mas se eles são ou não mais que boêmios ainda é um ponto
controvertido. Algo, usualmente vinho, era bebido, mas creio que por lei deviam
ser duas partes de vinho e três partes de água, e não se pode aumentar muito a
libertinagem desse modo. Eles dançavam freneticamente e é possível que algum tipo
de casamento sagrado se realizasse, mas consistia principalmente em longos
serviços religiosos e em prolongadas e cansativas procissões.
Esses não
são segredos protegidos por lei, ou proibidos de ser vistos por criminosos ou estrangeiros.
Hoje em dia seria diferente. A imprensa se concentraria nas partes quentes; o
país se movimentaria em torno disso; todo tipo de união das mulheres, conselhos
do país e sociedades de proteção ao Dia do Sabá entrariam em acordo e toda a
maquinaria da lei seria movimentada para evitá-lo. Mas naqueles dias ninguém
teria pensado em nada disso! Qualquer um podia ter uma orgia na própria casa.
Qualquer um tinha liberdade de abrir uma boate em casa, ter quantas belas
escravas lhe agradasse para distrair os convidados; não havia absolutamente
nenhuma inibição, sendo que o resultado era que cada um, após fazer suas
loucuras de mocidade, repousava em uma vida pacífica de casado, tendo à mão
muitos lugares onde pudesse liberar a pressão se quisesse.
Imagino
que não foi por causa de repressões que todo o povo se uniu; e elas não eram
motivo para fugir das esposas, pois houve esposas e filhas e avós e sogras e
todas guardaram segredo; e isso continuou por cerca de mil anos. Quando os
mistérios vieram a Roma, é verdade que criminosos conseguiram infiltrar-se neles
e que houve problemas; removendo-os, o culto continuou bem. Infelizmente, os
romanos eram grandes glutões e bebedores e bebiam comumente vinho sem diluir, ao
contrário da tradição mediterrânea usual. Mas no todo, os mistérios parecem ter
produzido um grande efeito, embora não o mesmo que fizeram na Grécia.
Provavelmente, a razão era que, devido aos primeiros excessos e à vinda do
cristianismo, os verdadeiros segredos fossem comunicados apenas a uns poucos.
Ao menos é o que penso, e eu gostaria de ouvir comentários sobre esse assunto.
Mas em seu verdadeiro estado acho que os mistérios eram realmente bons.
Porfírio, Jâmblico, Sinésio, todos se referiram a eles e a seus objetos e
revelações. “De que a doença do espírito
consiste, por que causa está entorpecido, como pode ser clarificado, pode ser
aprendido a partir de sua filosofia. Pois pelas abluções dos mistérios a alma
se torna liberada e passa a uma divina condição de ser, de forma que a
disciplina de bom grado suportada se torna de maior utilidade para a
purificação”, diz Platão.
Ele
continua: “Entrando no interior do
templo, imoto e guardado pelos ritos sagrados, eles genuinamente recebem em seu
âmago a divina iluminação e, despidos seus trajes, participam da natureza
divina”. O mesmo método aparece nas especulações de Tales (ver Proclus na
teologia de Platão, vol. I, e Ede anima ae daemona, Stoboeus, traduzido pelo
Dr. Warbarton): “A mente é afetada e agitada na morte, da mesma forma que na
iniciação aos mistérios, e palavra responde a palavra, assim como coisa a
coisa: pois para morrer, para ser iniciado, é o mesmo; com hinos, danças e
conhecimento sublime e sagrado, coroados e triunfantes eles andam nas regiões
do abençoado”.
Mas
também se disse: “Os ritos não são igualmente bons para todos; há mais
seguradores de tirso que almas báquicas. Muitos têm o fogo realmente, sem o
poder de o descobrir”; ou seja, “nem todos são verdadeiros iniciados”. “Quem
pode questionar o extraordinário poder da mulher sobre o homem? Por mais que
seja questionado ou considerado, esse permanece o irresistível fator da vida.
Esse poder é um dom divino; induz mais do que simplesmente atração sexual. Com qualquer
mulher, jovem. Bela e vivaz, sua influência para o bem ou para o mal é
devastadora. Quando movida por altos princípios e propósitos, a espécie
feminina pode elevar e enobrecer o homem”. (A Suggestive Inquiry, etc., por A.
J. Attwood).
Não
apenas nos sacrifícios aos Deuses geradores, mas na adoração de todo Deus em cerimônias
religiosas dos gregos e de todos os povos antigos, havia festas alegres e
envolventes, danças em honra dos deuses e regozijo geral, com a exceção dos
judeus recentes e possivelmente dos egípcios: muitos dos festivais egípcios
eram alegres mas alguns não o eram, porque eles tinham muitos e diversos
deuses. É altamente provável que os primeiros ritos judeus fossem festivos também,
embora os reformadores constantemente se esforcem por abolir toda menção ao
assunto, e não há dúvida de que a Bíblia foi alterada indevidamente com esse
fim.
CAPÍTULO VIII
FORA DA TERRA DO EGITO
No livro
de Pennethorme Hughes, temos esta interessante passagem na página 23:
“Estudos da magia e rituais na
África nos últimos anos estabeleceram, com alguma certeza, que todos os
sistemas para a perturbação da consciência praticados pelo negro africano são derivados
do antigo Egito. Milhares de africanos foram transportados para o Novo Mundo e
muitos dos que vieram para o Haiti a partir de 1512 eram da mais fina
descendência africana e talvez carregassem com eles uma síntese dos cultos
existentes no Congo. É fácil mostrar como são próximos os paralelos entre o
vodu que eles praticavam e a bruxaria medieval. Os Mistérios de Delfos e Elêusis,
ou os cultos romanos, têm provavelmente a mesma origem. Dizem que o ritual dos druidas
copia o de Osíris; acredita-se que o próprio Odin seja uma versão gelada de
Osíris. A bruxaria, em quase todo lugar, teve dois derivativos principais aos
quais suas outras influências se ligaram; os cultos de fertilidade que vinham
dos habitantes nativos de uma área e as práticas ‘mágicas’ posteriores
derivadas por meio de canais diretos ou distorcidos da fonte egípcia centralizadora.
A bruxaria, da forma como emerge na história e literatura européias, representa
o antigo culto de fertilidade paleolítico mais a idéia mágica e várias paródias
de religiões contemporâneas”.
Tudo isso
é extremamente interessante para as próprias bruxas. Elas tinham vagas
histórias de que o culto vinha do Oriente, a Terra do Sol, combinada com uma
história de que aquilo existira desde que a Deusa fora à Terra da Morte. Claro
que elas sabem que tiveram contato com vários feiticeiros e sábios e dizem que
nos tempos antigos, quando as bruxas eram perseguidas, os feiticeiros não o
eram e que eles secretamente utilizavam as bruxas como meio de obter o sucesso em
sua arte. Com a ajuda dessas clarividentes, eles faziam sucesso como profetas
e, provavelmente, as bruxas tomaram diversas das suas idéias; certamente,
algumas de suas ferramentas.
Já vi
sete espadas de bruxas; destas, quatro aparentemente haviam sido feitas por
feiticeiros, de acordo com o padrão prescrito na Chave de Salomão, com
inscrições hebréias no punho e na lâmina. Há duas no museu de Castletown.
Outros implementos trazem inscrições hebréias, de forma que parecem ter conexão
com magia judaica ou cabalística. Mas lojas não fornecem para bruxas e uma
pobre bruxa tem de conseguir suas ferramentas como pode. Há também aí algumas
semelhanças com partes hoje em dia sem importância da maçonaria; mas enquanto o
trabalho maçônico parece ser de pouca utilidade, ou, em outras palavras, não
funcionar, a prática das bruxas é mais útil. Quem quer que testemunhe a ambas
se convence de que uma foi copiada da outra e acredita que o trabalho das bruxas
deve ser o original, antes de ter sido “censurado”.
A
afirmação de que todos os sistemas para a perturbação da consciência usados
pelos negros africanos foram derivados do antigo Egito é extremamente interessante,
como a sugestão natural de que eles levaram esses poderes com eles para a
América. Nos tempos antigos, era comum a navegação no Nilo, descendo para e
através do Congo. Sempre pensei nos africanos fazendo sacrifícios humanos e
orgias de rum, métodos que acredito serem inteiramente estranhos ao espírito egípcio.
Em Nova Orleans
me contaram que não eram apenas negros que assistiam aos festivais de Vodu, mas
que muitos brancos também o faziam. Era bem sabido que aqueles festivais de
Vodu eram realizados às margens de lagos e que policiais eram regularmente
mandados para evitá-los. Mas os policiais, em sua maioria irlandeses,
procuravam lugares em que não havia festivais e voltavam dizendo nada ter
encontrado. Eles iam então aos encontros, despiam seu uniforme e se juntavam à
farra. Esta, aliás, é uma piada comum em Nova Orleans.
Notei
bastante semelhança entre a bruxaria e algumas práticas Vodu. Contaram-me
também que havia sido claramente provado que o Vodu não era africano, mas fora
inventado nas Índias Ocidentais Francesas por mestiços franceses, a partir da
magia européia, do catolicismo romano invertido e de lembranças misturadas de
diferentes regiões africanas. Não posso dizer se isso é correto; mas se alguns
desses franceses mestiços tinham uma religião de bruxas, isso explicaria as semelhanças.
Por todo o mundo, quando confrontadas com certos problemas, as pessoas são capazes
de resolvê-los do mesmo modo. Se o conhecimento agora praticado na África
Ocidental derivou do antigo Egito, não há razão para duvidar que algumas
práticas de bruxas podem ter vindo da mesma fonte para a Europa por meio dos
mistérios gregos e romanos, que parecem ter sido todos derivados do antigo
Egito.
Imagino
que os cultos egípcios fossem muito severos e respeitáveis para ser como as
práticas sangrentas usadas por africanos. Penso que Pitágoras, que tem o
crédito de ter trazido os mistérios para a Grécia, não era o tipo de homem que
tivesse algo a ver com sacrifícios de sangue e outras práticas objetáveis. Mas
é plausível que houvesse duas seitas, os adoradores de Seth e os de Osíris, que
faziam a alegação: “Há um atalho: se você não pode trabalhar a magia propriamente,
você pode obter poder por esse meio”. Os escritos de bruxas falam com horror
sobre feiticeiros que usam sangue para ganhar poder. Mas o conhecimento mau
pode ter acertado o passo com o bom e pode explicar algumas afirmações contra o
culto que, inclino-me a pensar, eram libelos cristãos ou vinham de um mau
entendimento dos ritos.
Os
mistérios, na Grécia ou em Roma ao menos, eram cultos secretos aos quais apenas
os iniciados eram admitidos, após terem sido preparados e purificados e
passando por provas para atestar seu merecimento. A eles eram também dadas
instruções de como conseguir uma vida feliz e satisfatória na terra, conhecer
os ensinamentos da irmandade dentro do culto, como conseguir reunir-se com os
entes queridos já falecidos, como reencarnar desse modo, e, provavelmente, as maneiras
de persuadir os deuses a favorecê-los e garantir seus pedidos; em outras
palavras, magia.
Cada um
dos antigos Mistérios de Cabrai, Samotrácia e Elêusis tinha um mito diferente e
era dedicado a um deus diverso, Zeus, Dionísio, Orfeu ou outro, e realizava
diferentes cerimônias; mas, uma vez que os escritores clássicos dizem que todos
os Mistérios eram o mesmo, os ensinamentos por trás do mito deviam ser
idênticos.
Os ritos
tribais da maioria dos povos primitivos incluem a purificação, testes de
bravura, instrução em sabedoria tribal, conhecimento sexual, amuletos, conhecimento
religioso e mágico e frequentemente um ritual de morte e ressurreição. O culto
das bruxas contém a maioria dessas coisas; então, como acreditamos que todos os
mistérios eram basicamente o mesmo, os mistérios gregos devem ter ensinado as
mesmas coisas. Não seria porque na Grécia esses sistemas tinham muita
influência, e mesmo poder político, que a Grécia nos legou tanto? Afinal,
outros pequenos estados também deram ao mundo arte e conhecimento. Da Grécia,
porém, apesar das constantes guerras e sublevações, Elêusis e seus ensinamentos
fizeram uma impressão no pensamento humano que seria difícil subestimar ou
erradicar. Como Dean Inge disse: “O que tem a religião dos gregos para nos
ensinar que estamos em perigo ou esquecimento? Em uma palavra, é a fé de que a
Verdade é nossa amiga e que o conhecimento da Verdade não está além de nosso
alcance”.
William
Brend diz, em Sacrifice to Attis: “O
homem moderno não está livre; ele é empurrado por seus terrores nas direções
que o afetam mais vitalmente e ele ainda busca a liberdade dos gregos. Ele o
demonstra na maneira em que se empenha em esconder seus temores. Nisso reside
sua esperança; pois, embora ele nem tenha liberdade nem a compreenda, ela é seu
ideal. Significa criar um padrão de conduta baseado no conhecimento e na
verdade, e não em supervisão revelada”.
Parece
que o sacerdote ou professor grego pegava o homem como era e fazia um código para
ele, em vez de o torturar para obedecer a uma ética predeterminada,
antecipadamente portanto o trabalho de C. G. Jung, cujo método era sempre
construir, a partir de quaisquer elementos de crença que ele encontrasse em um
paciente, um sistema de mito pessoal que mostrasse uma lógica em sua conduta.
Qualquer diminuição do impulso para impor padrões de rebanho para o comportamento,
segundo Brend, “jamais teve oposição ferrenha, e esse fato não deve ser
diminuído mostrando-se a falha da sociedade moderna com suas regras, doenças,
pobreza e crueldade insensata, já que essa oposição irracional é inacessível à argumentação.
Vemos o sacerdote romano em seu templo crua e literalmente castrando seus
seguidores. Hoje o pai está na Igreja, a escola e o tribunal de justiça estão
igualmente destruindo a virilidade de seus filhos por meios menos duros mas não
menos efetivos, já que eles são muito difundidos”.
CAPÍTULO IX
BRUXARIA NA IRLANDA
O mais
famoso caso de bruxaria irlandesa é o de Lady Alice Kyteler de Kilkenny. O
bispo de Ossory a acusou de bruxaria segundo as novas Bulas publicadas pelo
Papa João XXII e ela foi julgada em 1324. A corte obviamente acreditou que ela
praticava a bruxaria, mas não viu nenhum mal particular nisso. Embora devessem
tê-la culpado, soltaram-na bem discretamente e a perdoaram, para o desgosto do
bispo; da mesma forma, uma corte de Manx em 1659 considerou a Sra. Jane Caesar
não culpada de bruxaria, embora o bispo tenha manobrado para sentenciá-la a “abjurar
da bruxaria, no próximo domingo na Igreja Malew” (um curioso caso de “você não
é culpada, mas prometa que nunca mais o fará novamente”). A dama foi forçada a
abjurar na Igreja e usar palavras que satisfizessem à corte, embora os
comentários afirmem: “Seus acusadores estariam muito infelizes, se realmente
acreditassem que ela é uma bruxa”. Como nada mais está registrado, presume-se
que o caso foi encerrado. Mais tarde, os registros da Igreja mostram que ela
morreu e foi enterrada de maneira usual; os
Caesars eram pessoas de boa posição.
Mas o
bispo de Ossory tinha um temperamento mais severo que os bispos de Manx. Apoiado
pela Bula papal, ele atacou de novo, acusando Lady Alice de negar Cristo, ter
cerimônias indecentes com um Robin Artison, ou Robin, filho de Art, em
encruzilhadas, e uma lista inteira de acusações usuais, incluindo ter uma
bengala que ela untava com pomada e galopava frequentemente – presumivelmente
uma dança de fertilidade comum. Novamente, ele não pôde obter uma acusação; os
nobres a protegeram e ela foi para a Inglaterra. O bispo teve de se contentar
com açoitar, torturar e queimar os criados dela, como uma espécie de lei
eclesiástica de linchamento. Entre as acusações contra ela, estava a de varrer
a poeira para dentro. Na Ilha de Man, é uma superstição comum crer que se deve
varrer para dentro, para não varrer para fora a sorte.
No caso
de Lady Kyteler, há evidência suficiente para provar a existência de bruxaria e
de uma assembléia de 13 bruxas. Mais provavelmente, ela estava em comunicação
com um ramo irlandês das Fadas ou do Povo Miúdo, que celebrava ritos similares
aos da Inglaterra e àqueles de Dionísio na antiga Roma. A segunda acusação
contra ela era de que “tinha o costume de oferecer sacrifícios a demônios,
animais vivos que ela e sua companhia rasgavam membro a membro e faziam a
oferenda espalhando-os em encruzilhadas para um certo demônio chamado Robin,
filho de Artis, ou Robinartson”. Como visto acima, o nome Robin era comum para
um espírito, desta vez provavelmente um manhoso e travesso (“artes”).
A ação
parece uma descrição de algumas bacantes que costumavam rasgar animais em
pedaços nos frenesis de Dionísio, pois devorar uma vítima animal simbolizava a
encarnação, morte e ressurreição da divindade. Havia outra acusação de sacrificar
galos vermelhos a Robin, que é descrito como sendo Aethiopia – em outras
palavras, um negro. Seria muito incomum encontrar um negro, com um nome inglês,
na Irlanda daquela época, logo presumo que Robin misturava fuligem à sua pomada
protetora para não ser reconhecido. Eram provavelmente membros de um culto
local que praticavam cerimônias mágicas que lhes trouxessem sorte. Houve treze
pessoas acusadas, mas Robin jamais foi preso, de forma que o “espírito zombeteiro” era provavelmente de
alto escalão ou membro da Igreja. Logo, devemos presumir que um culto de bruxas
que tinha alguma semelhança com o culto de Dionísio estava em pleno impulso naquela
data e consistia tanto de membros irlandeses quanto de ingleses.
O Sr.
Hughes menciona que os arquivos municipais de Exeter mostram que em 1302 o Grande
Júri ponderou que “Dionysia Baldwin recebe frequentemente John e Agnes de
Wormhille e Joan de Cornwale de Taignmouth, que são bruxas; e a dita Dionysia
se contorcia com elas”. O nome Dionysia me sugere que seus pais pertenciam a
algum culto e que o padre que a batizou não fez objeções, embora muitos
concílios da Igreja tenham fulminado cultos de Diana e da Lua. John, Agnes e
Joan são nomes de bruxas, de acordo com a Dra. Margaret Murray; Wormhille (“Montanha
do Dragão”) deve ser acidental, ou pode ter algum significado. Era de se
esperar que o bispo local certamente faria uma acusação; mas a corte aparentemente
não o faria, pensando: “Por que as bruxas não podem passar bem e praticar suas
artes?” Como na Irlanda, eles não faziam objeções ao “trabalho sujo” de Lady
Kyteler “nas encruzilhadas”.
Na
verdade, naquele tempo, as cortes parecem ter acreditado que não havia nenhum
mal na bruxaria. Não havia leis particulares contra ela. O Sites Partidas de
Castilha, por volta de 1260, diz que ela deveria ser punida se causasse
malefícios, mas que era válida para curar doenças. Os Assizes de Jerusalém, as
Instituições de Saint Louis e outros tribunais sustentavam visões similares.
Contaram-me
de um culto de bruxas na Irlanda que ainda ocorre hoje em dia, mas não consegui
contata-las. Diz-se que os membros mantêm seus encontros em uma pedreira
desativada onde podem trabalhar sem ser perturbados. Usam longas capas pretas
para se protegerem até que cheguem ao local do encontro, onde as removem para
revelar um tipo de kilt feito com dois pedaços de couro amarrados dos lados.
Diz-se que sacrificam animais à lua, ou ao menos realizam cerimônias de louvor
à lua, com danças reguladas por um quadrante da lua. Eu soube que elas têm uma
dança muito bonita, a Dança dos Quatro Ventos, que usualmente é feita em volta
de um monólito ou de algo que tenha quatro lados; mas não pude obter mais
detalhes. Diz-se que parte da cerimônia de iniciação do homem é chamada de Caça
de Diana, quando todas as moças solteiras e sem compromisso caçam o iniciado e
quem quer que o cace bate nele e o toma sob sua direção, sendo previamente
combinado quem deve caçá-lo. Disseram-me que algumas vezes sangue era usado nos
ritos e punham-se maldições nas pessoas, mas meu informante nada sabia dos
ritos, ou de sua líder, exceto que era uma Grande Sacerdotisa chamada Diana e
que eles usavam “uísque”.
O
problema de se investigar tal caso é saber se o culto é antigo ou se tem origem
recente. Na Irlanda, as pessoas são fortemente católicas romanas ou fortemente
protestantes, sendo possível que alguém tenha inventado um culto por diversão,
ou em oposição a ambas as religiões. Se ele crescesse, não poderia ser mantido
oculto por muito tempo e as Igrejas provavelmente se uniriam para esmagá-lo.
Se, por outro lado, fosse uma tradição antiga, deveria ter continuado, pois
seus membros teriam percebido a necessidade de segredo. O nome Diana parece
invenção moderna; mas a partir da Renascença houve muitos estudiosos clássicos
que aplicaram esse nome a uma antiga deusa.
Há uma
cidadezinha na Irlanda onde é costume por todo ano um bode na praça do mercado assistido
por duas donzelas por três dias e três noites; durante esse tempo a cidade é
aberta. Esse evento é conhecido com Puck Fair (Feira da Fada). A polícia fica
em sua base, as casas públicas nunca fecham e ninguém dorme, pois esse sempre
foi o costume e traria azar mudar. Esse parece algum curioso rito pré-cristão
que sobreviveu.
Se no
tempo de Lady Alice houve um culto secreto que trazia a sorte para os seus
devotos e maldições sobre seus oponentes, não é surpreendente que ele ainda
fosse praticado hoje. Na Inglaterra, em sua presente forma, os rituais e
declarações não podem ser muito antigos porque foram copiados, em linguagem
moderna, de avôs e avós; mas remontam a, pelo menos, 150 anos.
Se eles
tivessem sido inventados, teriam sido escritos de forma sentimental, em vez de
ir direto ao ponto. Anteriormente a 1800, quando
sabemos que o culto funcionava, havia um certo interesse em matérias ocultas,
mas isso no tipo cerimonial de magia, ou no tipo do Clube do Fogo do Inferno, o
que significaria evocar o Demônio. É possível que alguém tenha iniciado uma
nova religião, mas acho que deve ter existido algo antes em que enxertá-la.
Penso ser muito curioso que tal tradição possa ter vindo de tempos tão remotos.
Mostrei minhas razões em pensar que ela deve remontar aos tempos da primeira
Elizabeth, pelo menos. Se foi importada da Itália, então uma relíquia de um culto
Dionisíaco que sobrevivesse ali poderia facilmente ter sido mantido na
Inglaterra; ou poderia ter sido importada da França pelos normandos muito
antes. Não sei se algum dia realmente chegaremos a descobrir.
As
pessoas que conheço têm a ordem de nunca usar sangue ou fazer sacrifícios; mas
as convenções de bruxas irlandesas o usam, e o Vodu também. Sabendo como os
ritos na Inglaterra funcionam, essas práticas seriam inúteis em todos os que
conheço, então presumivelmente há ritos totalmente diferentes sobre os quais
minhas amigas nada sabem.
A
essência da magia usualmente é aumentar o poder e então usá-lo ou controlá-lo. Compreendo
que se pense que matar algo possa liberar poder ou força, se a alma é força,
mas não entendo como se pode controlar ou usar algo assim. Sangue
recém-derramado contém algum poder vital, que exsudaria lentamente, e esse
sangue pode aumentar o poder; mas se esse fosse o caso, poderíamos dizer que os
funcionários do matadouro municipal estão se tornando magos. Quando eu ouvir
essa notícia, acreditarei no poder do sangue. Sei que se diz que as bacantes
rasgavam animais vivos em pedaços e os comiam, mas acho que elas eram pessoas
que, sem compreender os ensinamentos secretos que receberam, confundiam
bebedeira com êxtase divino, fazendo loucuras em seu frenesi. A lei então
restringiu esses excessos e reformou-se a seita. Os africanos ocidentais usam
sangue, mas penso que eles também não conhecem os verdadeiros segredos.
CAPÍTULO X
O QUE SÃO AS BRUXAS?
Hughes
diz: “A bruxaria propriamente dita apenas existe quando os poderes evocados são
conscientemente sentidos como maus e as pessoas envolvidas na operação estão
procurando a ajuda de alguma fonte exterior para certas condições e crenças
aceitas”. Se isso é verdade, as bruxas de que estive falando não são bruxas.
O que são
elas então? São pessoas que chamam a si mesmas Wica [bruxo, em galês antigo],
as “pessoas sábias”, que praticam ritos antigos e que, junto com muita
superstição e conhecimento herbal, preservaram um ensinamento oculto e
processos de trabalho que elas próprias pensam ser a bruxaria ou magia. Elas são o tipo de pessoa que eram
queimadas vivas por possuir esse conhecimento, frequentemente dando suas vidas
para desviar as suspeitas de outras. Em Castletown, temos um memorial para as nove
milhões de pessoas que morreram torturadas de um modo ou de outro por bruxaria.
Esses Wica [bruxo, em galês] geralmente trabalham com bons propósitos e ajudam
os que estão com problemas com suas melhores habilidades. É claro que em tudo o
que se faz nesse mundo acaba-se pisando no calo de alguém; se uma bruxa fazia
crescer uma boa colheita de milho na antiguidade, as pessoas se queixavam que ela estava
deflacionando os preços. Acho que é pouco sábio renunciar à lei sem conhecer o
assunto. Hughes continua dizendo: “Os poderes físicos de uma bruxa são os de um
povo pré-histórico.
Até onde
as boas ações feitas para o mal são permissíveis, é uma questão para os “teólogos”.
Acho que a resposta a essa afirmação está no dictum dos jesuítas: “Más ações
sempre são permissíveis com um bom propósito ou quando são para o benefício da
Ordem” – o que é também assunto dos teólogos. Acho que a bruxa é justificada ao
usar qualquer poder físico que tenha, desde que o use para o bem de sua
comunidade, cuidando para que ela não faça mal a ninguém.
Hughes diz
que as bruxas usavam e vendiam veneno. Possivelmente; mas as de hoje em dia não
têm qualquer conhecimento real deles. Sabem vagamente que o heléboro é mortal,
assim como sabem o que o herbicida é, mas não conhecem a dose correta de nenhum
dos dois e não sabem como conseguir heléboro. Na Idade Média, onde quer que
irrompesse o tifo, o que era muito freqüente, era corrente dizer que as bruxas
ou os judeus haviam envenenado os poços. Apenas porque uma bruxa pode usar uma
cura pré-histórica para tratar uma criança doente não quer dizer necessariamente
que isso seja feito com má intenção.
Algumas
bruxas em particular podem ter feito coisas ruins e erradas, mas elas não são
as únicas que podem ser culpadas por isso. A forma mais óbvia de se fazer o mal
é por magia simpática, com a construção de imagens. Isso é feito no mundo todo;
se a vítima sabe que isso está sendo feito e acredita firmemente que aquilo
pode matá-la, ela pode se apavorar até a morte. Uma bruxa pode fazer uma imagem
e assustar as pessoas com ela, se elas acreditarem que ela tem o poder de
matar. Qualquer pessoa pode fazê-lo e o efeito será muito semelhante; logo,
essa forma de mal não é exclusiva da bruxaria. Em 1318, o bispo de Troyes foi julgado, pois a evidência mostrava
que ele fizera uma imagem da rainha da França e, após lhe ter feito várias
indignidades e a queimado, a rainha morreu!
Hughes
continua, dizendo: “As bruxas lançavam feitiços, traziam o caos, envenenavam, faziam
abortar o gado e tolhiam a fertilidade aos seres humanos, serviam o Diabo,
parodiavam práticas cristãs, aliavam-se com os inimigos do rei, copulavam com
outras bruxas de forma masculina e feminina, que elas tomavam para ser íncubus
e súcubus, cometiam abusos contra animais domésticos. Além disso, elas faziam
essas coisas conscientemente, acreditando servir a um mestre diabólico e
desafiar o paraíso. Seus motivos eram confusos, seus impulsos eram sem sentido,
os procedimentos que vinham remotamente de qualquer prática original comum,
mesmo que elas o tenham feito, e as razões pelas quais os fazem permanecem nas
mais antigas crenças religiosas”.
Presumo
que ele deve saber do que fala, então deixem-me assegurá-lo que, segundo meu conhecimento,
a grande maioria dessas acusações é falsa. Bruxas lançaram feitiços para
impedir Hitler de desembarcar após a queda da França. Elas se encontraram,
fizeram crescer o grande cone de poder e dirigiram este pensamento ao cérebro
de Hitler: “Você não pode cruzar o mar”, “Você não pode cruzar o mar”, “Não é
capaz de vir”, “Não é capaz de vir”. Assim como seus tataravôs haviam feito com
Boney e seus antepassados ainda mais remotos com a Armada Espanhola, com as palavras:
“Vá embora”, “Vá embora”, “Não é capaz de desembarcar”, “Não é capaz de desembarcar”.
Seria isso aliar-se aos inimigos do rei? Não estou dizendo que elas pararam
Hitler. Tudo o que disse é que vi uma cerimônia muito interessante, realizada
com a intenção de pôr uma certa idéia em sua mente; ela foi repetida muitas
vezes mais tarde e, embora todos os barcos de invasão estivessem prontos, o
fato é que Hitler nem mesmo tentou vir para cá. As bruxas me contaram que seus
tataravôs tentaram projetar a mesma idéia na mente de Boney.
Na época
da Armada Espanhola, a força invasora havia deixado à costa antes que o culto realmente
ouvisse falar dela. Elas sabiam que era inútil tentar alcançar o rei Felipe;
ele estava fora do alcance e não podia mudar o curso da Armada; elas não tinham
a menor idéia de quem estava no comando. A única coisa que podiam fazer era
enviar uma idéia geral: “Vá embora”, “Vá embora”, “Você não pode desembarcar”,
“Você não pode desembarcar”, e esperar que fizesse efeito. Se elas pudessem ter
erguido uma tempestade, o teriam feito, mas não sabiam como, embora
naturalmente elas rezassem aos seus deuses que trouxessem desastres à frota, o
que provavelmente incluiria tempestades.
Duvido
que as bruxas já tenham causado caos; ao menos nunca ouvi falar que elas o fizessem
e nem eu nem elas sabemos por onde começar; eu gostaria de ter informações
sobre o assunto – datas e locais, por favor? Não posso dizer que nenhuma bruxa
jamais inibiu um ser humano, ou fez abortar o gado, assim como não posso dizer
que nenhum bispo jamais matou alguém com magia ou veneno. Não conheço bruxas
que tenham feito essas coisas, mas sei do bispo de Troyes e de um Bórgia que
foi bispo antes de ser papa. Copular com íncubus e animais domésticos é apenas
um nonsense imundo, assim como a acusação de que as bruxas serviam um mestre
diabólico. Isso foi simplesmente inventado em uma época de perseguições, quando
os juízes não condenavam facilmente e a Igreja teve de inventar algum crime que
garantisse a pena de morte.
As bruxas
têm seus próprios deuses e acreditam que eles são bons; o que mais um cristão
pode dizer? Pode haver confusão ou,
antes, leves diferenças entre os rituais e práticas de diferentes grupos de
bruxas, eu realmente não sei; mas, por acaso, as práticas dos israelitas britânicos,
dos mórmons, dos calatumpianos e dos Irmãos de Plymouth formam um todo
harmonioso? Não são eles todos da fé cristã? Na era do terror, logo após a
desastrosa cruzada das crianças, o papa Inocêncio III fez da cirurgia um crime.
Denunciou também a antiga fé pré-cristã como heresia e bruxaria e mandou a inquisição
para esmagá-la.
Cerca de
nove milhões de pessoas sofreram a morte por tortura. Os dominicanos, fundados por
São Domingos, um asceta devoto que se auto-flagelava três vezes por dia e
costumava depenar pássaros vivos, foram encarregados das perseguições e
espalharam a história de uma conspiração contra Cristo. Algumas pessoas dizem
que eles realmente acreditavam no que pregavam, mas acho difícil acreditar
nisso, embora os mais ignorantes de seus ouvintes provavelmente o fizessem. É certo
que da orgia de perseguição, como nos primeiros casos de perseguição contra as
várias seitas heréticas, algumas obtiveram enormes despojos e, é claro, é
verdade que aquelas pessoas eram culpadas de adorar seu próprio Deus à sua
maneira.
Algumas
pessoas dizem que a Igreja simplesmente escreveu listas e torturou bruxas e Cavaleiros
Templários até que dissessem “sim” a todas as acusações, o que explicaria as semelhanças
encontradas entre os dois cultos. Mas isso é apenas parcialmente verdadeiro. As
semelhanças importantes não estão nas acusações principais, mas em coisas
pequenas, sem importância, sendo que muitas dessas se parecem com o que é feito
ainda hoje na África, na América e em Madagascar, de que os inquisidores não
tinham conhecimento. O fato é que uma pessoa pode contar uma grande mentira,
mas não pode inventar todos os pequenos detalhes para enganar um bom
contra-investigador e assim deixar escapar pedacinhos de verdade aparentemente sem
importância.
Eis
porque os soldados, se capturados, têm instruções para dar apenas seu nome,
escalão e número: não testar nem ludibriar o inimigo dando falsa informação,
pois fazendo isso eles fornecem alguns fatos verdadeiros que acabam por
ajudá-lo. Os oficiais têm instruções para interrogar os prisioneiros, pescar
pedacinhos de verdade em meio a histórias esmeradamente impossíveis. Os
inquisidores eram contra-investigadores experimentados, mas nem sempre
percebiam a importância dos pequenos detalhes que eram revelados. Seu serviço era expurgar
a heresia e isso eles faziam perfeitamente.
Diz-se
freqüentemente que as bruxas confessaram as mais abomináveis práticas. Isso é absolutamente
verdadeiro, mas deve-se lembrar por que elas fizeram isso. Paul Carus, no
History of the Devil, página 323 (Arquivos da
Associação Internacional do Folclore), chama o Malleus Maleficarum, ou Martelo
das Bruxas, de o mais infame livro jamais escrito. Ele aconselha que se inicie
um julgamento com a questão “se a pessoa sendo julgada acredita ou não em
bruxaria” e adiciona: “tenha em mente que as bruxas geralmente negam a
questão”. Se o réu nega, o inquisidor continua: “Bem, nesse caso, sempre que
bruxas são queimadas, elas foram acusadas na inocência”.
A negação
da bruxaria selava a perdição do acusado imediatamente, pois, de acordo com o
Martelo das Bruxas, “a maior heresia é não
acreditar na bruxaria” (haeresis est máxima opera maleficorum non credere).
Porém, se o acusado afirmasse a questão, a tortura o faria confessar. Alegar ignorância
não trazia nenhum benefício, pois a recusa de confissão era considerada como
crime sob o nome de maleficium taciturnitalis. Não havia meio de escapar, e a
melhor saída para a vítima sob tortura era confessar tudo de uma vez sem recair
na negação, pois isso ao menos abreviava o processo. De acordo com a página
330, “antes de a tortura começar, o acusado era forçado a beber a sopa das
bruxas, uma mistura repugnante feita com as cinzas de bruxas queimadas e que se
supunha proteger os torturadores contra a influência maléfica da bruxaria”.
A
imundície (carceris squaloris) das torres era usada. A mesma página conta da
tortura aplicada a uma mulher no ano de 1631, no primeiro dia de seu
julgamento. Infelizmente, ele não dá o lugar nem diz se o torturador foi a
inquisição ou a Igreja Reformada; mas esta é uma tradução de Konig, Ausgeburten
des Menschenwahns, página 130; e também de Soldan, Hexenprocesse, páginas
269-70:
“1. O verdugo amarrou a mulher, que
estava grávida, e a pôs no esticador. Então ele a torturou até que seu coração
quase se quebrasse...
2. Como ela não confessou, a tortura
foi repetida... ele cortou seu cabelo, jogou conhaque em sua cabeça e ateou
fogo
3. Ele pôs enxofre em suas axilas e
acendeu.
4. Suas mãos estavam atadas às
costas, ela era levantada até o teto e largada repentinamente.
5. Esse alçamento para baixo e para
cima durou algumas horas, até que o verdugo e seus ajudantes foram jantar.
6. Quando eles voltaram, os pés e as
mãos dela foram amarrados em suas costas; jogaram conhaque em suas costas e
puseram fogo.
8. Então, pesos enormes foram
colocados em suas costas e ela foi posta de pé.
9. Após isso, ela foi novamente
esticada no aparelho de tortura.
10. Uma tábua de pregos foi posta em
suas costas e ela de novo foi erguida ao teto.
11. O mestre novamente amarrou seus
pés e os atou a um bloco de cinqüenta libras.
12. O mestre amarrou seus pés em uma
morsa, apertando-lhe os calcanhares até que o sangue escorresse dos artelhos.
13. Ela foi esticada e apertada
novamente de diversas maneiras.
14. Depois o carrasco de
Dreissigacker começou o terceiro grau de tortura (nota: não há indicação do que
ele tenha feito).
15. O genro do verdugo levantou-a ao
teto com suas mãos.
16. O carrasco bateu nela com um
chicote.
17. Ela foi posta em uma morsa, onde
permaneceu por seis horas.
18. Ela foi chicoteada sem piedade. Tudo
isso foi feito no primeiro dia.”(Nota: O item nº. 7 foi excluído dessa lista. Não acho que
ele seja menos doloroso que os outros.) De Archivob Hist. Nacional, Inquisicion
de Tolado, Leg. 138, citado em
H. C. Lea , Historyof the Inquisition of Spain,
vol. III, p. 2.)
Relatos
trazidos do interrogatório sob tortura. Após longa tortura, o inquisidor dizia:
“Conte tudo”. “Se eu soubesse o que dizer, eu o
diria. Ó Señor, eu não sei o que tenho de dizer. Oh! Oh! Eles estão me matando
– se eles me dissessem o quê – Ó, Señores, Ó, meu coração... soltem-me e eu
contarei a verdade; eu não sei o que tenho de contar – soltem-me, pelo amor de
Deus – contem-me o que tenho de dizer – eu o fiz, eu o fiz – eles me ferem,
Señor – soltem-me, soltem-me e eu o contarei... Eu não sei o que tenho de
contar – Señor, eu o fiz... Tirem-me daqui e me digam o que eu tenho de
contar... Eu não me lembro, digam-me o que tenho que contar – pobre de mim; vou
contar tudo o que desejam, Señores – eles estão quebrando meus braços –
soltem-me um pouco – eu fiz tudo o que dizem de mim... O que querem que eu
diga? Eu fiz tudo – soltem-me, pois eu não lembro o que tenho de contar... Oh,
oh, oh, eu conto tudo.” E novamente a voz cruel dizia: “Conte tudo”.
Quando um
pobre coitado era bastante torturado, eles lhe ditariam o que dizer e a quem envolver.
A pessoa comum esquece convenientemente que isso foi feito, se é que ela o
percebe; mas as bruxas não esqueceram que esse tratamento ou um similar foi
dado seus ancestrais e os dias de perseguição não terminaram, ao menos em
muitos lugares, de forma que as bruxas se mantêm na marginalidade. Aldous
Huxley, em seu livro mais esclarecedor, Devils of Loudun, conta (p.177) sobre
as torturas e a morte de um Grandier em 1634, sob a acusação de enfeitiçar
freiras. Os detalhes foram tirados dos Registros da Corte e são autênticos:
“Na presença de dois apotecários
(farmacêuticos) e de diversos doutores, Grandier foi despido, depilado e então
sistematicamente espetado com um cateter longo e afiado... a dor era excruciante
e, apesar das janelas emparedadas, os gritos do prisioneiro podiam ser ouvidos
pela multidão de curiosos que crescia na rua em frente. No resumo
oficial das acusações pelas quais Grandier fora condenado, descobrimos que,
devido à grande dificuldade em localizar áreas tão pequenas de insensibilidade,
apenas duas das cinco marcas descritas pela madre superiora foram realmente
descobertas... Os métodos de Mannoury, deve-se acrescentar, eram admiravelmente
simples e efetivos. Após uma vintena de punções torturantes, ele viraria o
cateter e pressionaria o lado sem corte contra a carne da pessoa.
Miraculosamente, não havia dor, o diabo marcara o ponto. Se tivesse tido
permissão para continuar, não há dúvidas de que Mannoury descobriria todas as marcas.
Infelizmente, um dos apotecários (um estrangeiro não confiável de Tours) era
menos complacente que os doutores da
aldeia que Loubardemont reunira para controlar o experimento. Tendo pego Mannoury
trapaceando, o homem protestou, em
vão. Sua minoria foi simplesmente ignorada. Entrementes,
Mannoury e os outros se mostraram mais cooperativos, o que foi gratificante.”
Na página
235:
“Os juízes viram o réu apenas três
vezes ao todo. Então, após as preliminares piedosas de
praxe, eles tomaram sua decisão; foi
unânime. Grandier tinha de ser submetido ao “questionário”, ordinário e extraordinário – com uma
corda em torno do pescoço e uma vela de duas libras na mão, pedir perdão a
Deus, ao rei e à Justiça... então ser queimado vivo... Ele foi despido, em
poucos minutos não tinha mais pêlos no corpo... “seu bigode e sua barbicha, e
as sobrancelhas”, disse o comissionário. “E as unhas, vocês agora vão arrancar
as unhas...”
Página
244:
“Ele foi amarrado estendido no chão,
suas pernas, dos joelhos aos pés presos entre quatro
tábuas, das quais o par exterior era
fixo e as de dentro, móveis. Colocando cunhas no espaço entre as duas tábuas
móveis, era possível esmagar as pernas da vítima... a primeira cunha era posta
entre os joelhos e outra inserida junto aos pés. Elas foram marteladas... uma
terceira foi inserida imediatamente abaixo da primeira... na segunda pancada na
quarta cunha, diversos ossos dos pés e tornozelos estavam quebrados... uma
quinta cunha foi inserida. O prisioneiro perguntou: “Padre, você acredita, em
sua consciência, que um homem deva meramente ser libertado da dor, para confessar
um crime que não cometeu”... “você foi mago, teve comércio com diabos”, foi a
resposta. Quando ele protestou novamente ser inocente, uma sexta cunha foi
martelada, depois, uma sétima e uma oitava; os ossos dos joelhos, as tíbias, os
tornozelos e os pés estavam todos esmigalhados.”
Na página
249:
“A vela de duas libras foi posta na
mão de Grandier e ele foi erguido do carro para pedir perdão, como a sentença
prescrevera, por seu crime, mas não havia mais joelhos para se ajoelhar. Quando
o desceram ao chão, ele caiu de rosto”.
Ele foi
finalmente queimado vivo, com todos os cuidados para que sua morte fosse a mais
dolorosa possível. Após as pessoas menos importantes terem sido liquidadas, a
perseguição se voltou para onde havia mais butim; entre outros, os Cavaleiros
Templários, que tanto tinham feito pela cristandade, foram acusados de heresia,
com muitas das acusações de praxe e por um vício antinatural. Até onde eles, ou
alguns deles, eram tecnicamente culpados é ainda um terreno para disputa, mas
muitos eram sem dúvida inocentes de qualquer heresia consciente.
Hughes
continua dizendo que o culto das bruxas conduzia uma Missa Negra em que as práticas
cristãs eram ridicularizadas e o diabo recebia homenagem e oração. Novamente,
quero lhe afirmar que, embora eu tenha comparecido a diversos sabás, nada vi
que se assemelhasse à prática da qual ele nos acusa, a não ser que ele pense
que a cerimônia dos “bolos e vinho” possa ser uma imitação do antigo Ágape
cristão, a festa do amor, embora eu pense que é muito mais antiga. Não vou
dizer que a Missa Negra jamais foi celebrada, mas afirmo que não é feita por
bruxas, até onde tenho conhecimento.
Deve-se
aceitar o fato que, embora o culto seja muito interessante e em parte
extremamente delicado, ele é primitivo, e, quando as pessoas “se soltam” em
qualquer comunidade, as coisas tendem a acontecer e elas fazem coisas que não
fariam normalmente. Isso é, sem dúvida, muito aflitivo para os puritanos; mas
os puritanos, ao contrário, vangloriam-se pelo fato de se chocarem à toa, e por
isso começo a entender o ponto de vista das bruxas...
Falamos
muito de liberdade religiosa, de nossos direitos e da liberdade do indivíduo,
mas ainda negamos toda a liberdade às bruxas. Elas ainda são perseguidas apenas
porque algum intrometido ficou chocado ao encontrar pessoas em um lugar ermo
dançando nuas em volta de uma fogueira há muitos milhares de anos. As pessoas
ainda se chocam hoje em dia com o que vêem na praia e em outros lugares e
correm aos jornais para se queixar, mas normalmente os outros riem de suas
lamúrias. As praias são propriedades públicas e as pessoas devem ter o direito
de se queixar, mas os sabás eram festas privadas e podiam ser vistos apenas por
pessoas bisbilhoteiras na esperança de ficar chocadas.
As
bruxas, por centenas de anos, mantiveram seus encontros no âmbito particular;
elas são pessoas que querem se libertar deste mundo para um mundo de fantasia.
Para certos tipos de pessoas, o alívio conseguido foi de enorme benefício e
essas noites ocasionais de libertação eram algo para ser vivido. Entre os povos
primitivos, a dança era a forma usual de expressão religiosa. Na tradição das
bruxas, ela era necessária preliminarmente ao clímax do sabá, para produzir
poder; além disso, outros objetivos eram trazer alegria e expressar a beleza.
Isso era considerado pecado e àquelas pessoas Chesterton chamava de “aquela
turma de calvinistas revoltosos”, embora São Tomás de Aquino apenas diga: “Nem
todos os que dançam são necessariamente amaldiçoados”. Algumas pessoas podem
ter ido por engano a um sabá e se chocaram, mas os anglo-saxões são notórios
por se chocar facilmente e se queixar aos poderes por isso.
Disseram-me
que nos velhos tempos as bruxas conheciam uma erva chamada Kat que, quando
misturada com incenso, despertaria o olho interior, o subconsciente, mas se
outra erva, Sumach, não fosse adicionada à mistura, esta não poderia ser usada
por muito tempo, já que produziria alucinações. Se ambas fossem usadas
corretamente, era possível sair do corpo.
Infelizmente,
elas não sabem que ervas eram essas; mas diz-se que crescem na Inglaterra.
Dizem que, se respirar incenso com Kat, a
mulher se torna mais bonita, de forma que é possível que seja um cânhamo
selvagem. Os feiticeiros usavam algo com o mesmo propósito e sua mistura
continha cânhamo e muitos outros ingredientes para amortecê-lo. Muitas raças
primitivas usam drogas para conseguir a elevação do espírito: coca na América
do Sul, mescal no México e muitas outras substâncias. Elas têm um efeito
variável no sistema nervoso, trazendo o que pode ser a abertura do olho
interior ou mesmo alucinações. O álcool tem o efeito de aumentar a precognição,
como prova a Sociedade de Pesquisa Psíquica.
Outra
acusação feita contra as bruxas, templários, valdenses e gnósticos era o
“Osculum Infame”. Essa deve ter sido uma acusação padrão contra todos de quem o
clericato não gostava e parece ter sido baseada no princípio de que qualquer
vara serve para se bater em um cachorro. Foi primeiro usada contra as várias
seitas heréticas, então contra os cavaleiros Templários. As bruxas não beijam o
traseiro do diabo, primeiro porque elas não beijam o traseiro de ninguém e
segundo porque o diabo nunca apareceu para que alguém o beijasse. Não posso
colocar de maneira mais clara, não é? Como eu já havia dito, não há pacto com o
diabo nem com ninguém. Imagino que essa história venha de lendas como Fausto,
que devem ter sido cunhadas por padres para amedrontar as pessoas que pensassem
em se juntar as práticas de magia, ou possivelmente para explicar por que as pessoas
que realizam experimentos mágicos do tipo Chave de Salomão, que eram mais ou
menos permitidos, sem usar um médium, normalmente não obtinham sucesso.
Essas
histórias eram normalmente fabricadas para impulsionar o poder de algum santo e
davam a entender que um feiticeiro, após anos de fracasso, fazia um pacto com o
diabo, vendendo sua alma por tantos anos de abundância e poder. Quando chegava
esse tempo, ele rezava para aquele santo, que convocava o diabo e, por força ou
artimanha, desmanchava o pacto. O feiticeiro, então, dava prontamente todos os
ganhos de sua feitiçaria ao santuário desse santo e morria com um ar de
santidade. A história desses pactos são bem ingênuas, mas acreditava-se nelas e
os Grimórios, livros-texto de magia semi-negra, foram publicados, ensinando
como invocar o diabo e travar um pacto com ele e ao mesmo tempo enganá-lo. Isso
era feito normalmente com um trocadilho, dando a ele o corpo e a alma, fosse o
enterro do corpo dentro ou fora da Igreja, e então sendo enterrado dentro das
paredes da Igreja, ou seja, nem dentro nem fora – em outras palavras,
trapaceando com ele. Eles pareciam pensar, na verdade, que o diabo era
demasiadamente tolo ou ignorante para comprar o livro e o ler.
Após ter
escrito o trecho acima, li sobre um julgamento na França em que um secretário
foi empregado por um homem misterioso vestido de preto para copiar um desses
livros. Alegava-se seriamente que o homem de preto fosse o diabo, tentando
obter uma cópia desse livro, para aprender como se proteger de tais artimanhas.
O acusado foi considerado culpado de ajudar o diabo e foi executado. Essa
história mostra quão infantis eram algumas das acusações, parecendo o tipo de coisas
de que os nazistas e os comunistas acusavam as pessoas, também conseguindo
confissões por meio de torturas mais atrozes. Suponho que esses livros tenham
sido vendidos ao tipo de pessoa que, hoje em dia, acredita em livros de
auto-ajuda; eles eram feitos para vender e o mais famoso entre eles era o
Grimoire, do papa Honório.
A questão
da crença em tais pactos me intriga, pois um certo número de espécimes realmente
existe. Parece que se acreditava que no último dia, como num grande julgamento,
a alma jurava jamais ter usado qualquer feitiçaria; ela estava a ponto de
atingir o paraíso, quando um Diabo repentinamente faria aparecer um documento
entre seus arquivos. Ele seria admitido como evidência, a assinatura do acusado
seria reconhecida e o Diabo ganharia o caso e a alma.
Cada
grupo de bruxas é independente e durante a perseguição feroz os membros de
algumas podem ter usado algum tipo de pacto para uni-los: mas não seria uma
associação diabólica, porque isso teria os mais desastrosos resultados se fosse
descoberto. Quando o Clube do Fogo do Inferno estava em voga entre os
livres-pensadores, há cerca de duzentos anos, é possível que houvesse algumas
bruxas entre eles e que elas pudessem ter ajudado a construir alguns dos
rituais que eram um pouco zombeteiros e que incluíam pactos. Mas também é
verdade que pode ter havido padeiros, açougueiros e fabricantes de velas que
poderiam ter feito o mesmo, o que não significaria que todos os membros dessas
classes concluiriam pactos com o diabo. Membros desses clubes estavam interessados
em coisas fálicas, assim como Aleister Crowley há cinqüenta anos. Ele pertencia
ao culto das bruxas; certamente o conhecia e pode ter ajudado a reconstruir
rituais. Se o fez, manteve seus juramentos de silencia e nunca deu nenhuma
pista em nenhum de seus escritos.
Nos
tempos antigos, provavelmente muitos magos, entre estudiosos e homens cultos,
antes e durante a queda de Bizâncio, vieram do Ocidente e podem ter travado
contato com o culto; também os homens que liam livros proibidos estariam
capacitados a ir aos poucos lugares em que poderiam encontrar pessoas com
mentes livres, as casas das bruxas. Mais tarde, os rosa-cruzes e os maçons
podem ter comparecido a essas reuniões. Eles podem não ter sabido que seus
hospedeiros eram bruxas em todos os casos, embora eles devam ter sabido que
havia lugares em que podiam discutir coisas racionalmente sem medo de ser
torturados e queimados. Há semelhanças com a maçonaria em certas partes do rito
que eu imagino não serem casuais, pois penso que uma influenciou a outra. E é
provável que todas essas pessoas tenham trazido novas idéias ao culto, mas acho
que as únicas mudanças importantes foram feitas no tempo dos romanos, quando se
travou contato com os mistérios, embora essas sejam apenas suposições minhas.
Posso apenas julgar as evidências que foram encontradas.
O culto
parece usar uma numerologia grosseira – não sei qual sua origem. Os números 3, 5,
8, 13 e 40 [Ou, talvez, os originais fossem: 1, 1, 3, 5, 8, 13, 21, como ensinado pelos Pitagóricos, considerando que Pitágoras também estava envolvido com a Bruxaria, e posteriormente, também ensinado pelos membros da Ordem do Templo, a qual tratava-se de um sexto ramo da Bruxaria Medieval disfarçado de "Cristãos"] eram de boa sorte e todos tinham algum significado. Há três
ferramentas de trabalho que são essenciais e nada pode ser feito sem elas; ou
seja, algo para cortar e apunhalar, algo com que bater e algo para amarrar. Há
cinco outras, cada uma das quais com seu uso especial e apenas necessárias quando
um tipo particular de trabalho é realizado. Para uma iniciação, as oito devem estar
presentes [tradicionalmente, há Nove Instrumentos Mágicos de Altar, na Bruxaria Medieval. Talvez, Oito Instrumentos seja uma forma alternativa] e
o iniciado aprende a usar e segurar uma de cada vez. Uma vez que três e cinco somam
oito, muitas coisas devem ser em número de oito; mas oito e cinco somam treze,
logo treze é outro bom número; mas já que cinco oitos, ou três grupos e uma
líder, fazem quarenta, quarenta é um bom número e certas coisas devem ser em
número de quarenta. O grupo tradicionalmente consiste de doze bruxas e uma líder,
provavelmente por ser um número de boa sorte e por haver treze luas em um ano.
Acho que
devo deixar claro: a expressão grupo de bruxas é usada em dois sentidos. Primeiro,
é um bando que pode ter qualquer número de pessoas iniciadas com um líder
comum, que se reúnem e celebram os ritos. O líder pode ser um homem ou uma
mulher, mas uma Grande Sacerdotisa (que se pode emprestar de outro grupo, se
esse não tiver a sua disponível) deve estar presente para celebrar os ritos.
Antigamente, havia muitas pessoas que vinham aos encontros e não eram iniciados
(não haviam sido recebidos no círculo nem aprendido os segredos). Acho que nos velhos
tempos não havia segredo real sobre o que consistia a iniciação; qualquer um
podia assistir, assim como hoje em dia se assiste a um batismo ou casamento.
Mas, a não ser que você passe pelos ritos matrimoniais ou batismais, você não é
casado nem batizado; nem o fato de saber como um casamento se desenrola lhe dá
o poder para se casar com outra pessoa.
Em
segundo lugar, um grupo de bruxas também pode significar as pessoas que
celebram os ritos no círculo. Tradicionalmente, consiste de seis casais
perfeitos e um líder; de preferência, os casais são maridos e esposas, ou ao
menos amigados. Ou seja, eles devem ser amantes, em sintonia um com o outro,
pois é o que dá melhores resultados. Elas não conhecem a razão desse número treze
e dizem que “mais que isso tornaria o rito muito longo, já que cada um tem de
fazer certas coisas em sua vez”. Além disso, seis casais e um líder é o número
máximo para trabalhar em um círculo de dois metros e meio – e não se fica tonto
tão fácil em um círculo maior. Essas danças são inebriantes, e esse
inebriamento é a condição para produzir aquilo que elas chamam de magia. A única
vez que vi um círculo maior foi quando eles tentaram afetar a mente de Hitler
em uma operação inteiramente diversa: “Lançamento”, realizado de um modo
inteiramente diferente, necessitando do maior número de pessoas possível e
muito espaço para trabalhar.
Nesses
dias degenerados, seis casais perfeitos não estão sempre disponíveis, de forma
que se pegam outros para completar o número. Esses são todos “purificados” logo
que entram no círculo; outros iniciados presentes e crianças sentam-se fora e
assistem aos procedimentos. Mais tarde, eles provavelmente serão purificados e
entrarão no círculo para receber a refeição sagrada.
Quando os
ritos no círculo terminam, todos se juntam à festa e à dança. Se fossem,
digamos, vinte iniciados presentes com duas
sacerdotisas qualificadas e houvesse espaço suficiente, elas formariam dois
grupos e fariam dois círculos, com um líder comum para mantê-los no compasso, e
na antiguidade, em grandes encontros a céu aberto, podia haver muitos círculos;
mas eu nunca vi mais que um. Hoje em dia, os números são tão pequenos que
praticamente todos entram no círculo, embora eu tenha visto um homem do lado de
fora, recusando-se a entrar porque sua namorada não estava lá naquela noite.
Elas me
disseram que antigamente era costume escolher a jovem mais bonita para representar
a deusa em grandes encontros. Ela era conhecida como Donzela. Era uma espécie
de representação da Grande Sacerdotisa e era tratada com as maiores honras;
agia freqüentemente como recepcionista para visitantes distintos (por exemplo,
o diabo, se ele resolvesse aparecer), mas o poder real permanecia nas mãos da
verdadeira sacerdotisa, que de costume trabalhava toda a magia. Com freqüência,
a Donzela era a filha da Grande Sacerdotisa e ficaria no lugar de sua mãe quando
viesse o tempo; algumas vezes havia mistificação – vendo a semelhança à
distância, os visitantes acreditavam que a Grande Sacerdotisa voltava a ser
jovem durante os encontros.
Elas
dizem que antigamente havia regras que ditavam que não poderia haver mais de um
grupo de bruxas em uma certa área, para evitar discussões sobre quem pertence a
qual; mas elas não têm mais certeza dessa regra agora. É certo que há muito
tempo havia um tipo de autoridade central, exercida por um líder comum, que a
Igreja chamava diabo, mas elas nada sabem sobre isso hoje em dia e não saberiam
como reconhecê-lo se ele aparecesse. Elas não têm sistemas regulares de senhas,
ao menos ao que pude descobrir, para reconhecer-se entre si. Mas nas iniciações
há certas palavras requeridas para colocar alguém no círculo e há certos
clichês que podem ser usados como tal; claro que um conhecimento dos mistérios
provaria que a pessoa é iniciada. Na verdade, elas todas conhecem umas às
outras, ou são apresentadas, de forma que não precisam de senhas.
Na
Itália, diz-se que as bruxas falam “seis e sete” como senha, pois seria
perigoso dizer treze; esses números adicionados, é claro, somam treze. Na
Inglaterra, já as ouvi dizer cinco e oito pela mesma razão, mas na verdade elas
se conhecem dentro do grupo e não precisam de senhas; muito freqüentemente,
elas não conhecem a existência de outros grupos.
Na
antiguidade, pelo menos, os líderes eram sempre das antigas raças – o povo com
poderes naturais de controle paranormal do corpo por simples auto-inebriamento.
Como os normandos começaram a formar alianças com o povo das florestas, alguns
deles, provavelmente os que tinham herdado uma tradição de bruxaria, parecem
ter assumido o ofício. Seriam, claro, os mais inteligentes dos normandos,
talvez com esposas fadas, que viviam com o povo das florestas, mas cujos filhos
freqüentavam as cidades. A raça misturada assim formada, então, deve ter tomado
à frente nas funções sacerdotais. Eles provavelmente tinham que trabalhar duro
para condicionar seus corpos a obter os resultados que vinham fácil em suas
mães, mas tinham ao menos algum poder.
Os normandos
tinham mentes políticas e, percebendo que perdiam poder político, para evitar
ser submersos no novo nacionalismo, infiltraram-se no antigo culto. Nunca
atingiram os mesmos poderes de controle paranormal da antiga raça, mas a
geração mestiça melhorou muito a sua própria. Os moradores da cidade tinham
então seu próprio sacerdócio, que incluía muito do conhecimento tradicional;
mas os grandes sacerdotes ainda seriam do povo das florestas, bem conhecidos
por todos.
Freqüentemente,
uma misteriosa figura mascarada. Por vezes vestida de peles e usando chifres,
aparecia nas grandes cerimônias. Muito provavelmente, dizia-se que era um
grande senhor, embora os mais ignorantes pudessem pensar que era fosse um deus
ou um demônio. Na verdade, ele era provavelmente um normando importante, que
protegia o povo das florestas na vida diária. Como visitante ilustre, ele era
recebido de forma muito hospitaleira e se deitava com a grande sacerdotisa local,
que era muitas vezes sua esposa fada.
É
provável que houvesse uma grande congregação do povo da floresta e também
muitas pessoas do local, fazendeiros, pastores ou pescadores que, embora
nominalmente cristãos, assistiam às danças sazonais em honra da antiga religião
e praticavam os ritos de fertilidade mais ou menos reconhecidos; muitos deles
assistiam aos serviços da igreja e dançavam em torno do mastro. Eles não eram
realmente bruxos; fertilidade era o que buscavam. “Boas colheitas, boa pesca,
boa sorte”. Eles assistiriam aos encontros de qualquer deus que fosse bom para
eles e a “bondade” para eles era a qualidade de alguém que ajudasse nos
problemas e tivesse festivais alegres. Eles não eram teólogos. Uma boa vida
agora e uma boa vida no outro mundo bastavam para eles: não importava o nome do
deus. A identidade do homem mascarado seria mantida secreta para eles.
Havia
também um número de gentis-homens, nobres menores ou seus filhos e filhas e
muitos da classe artesã que, sem serem ricos, estavam muito confortáveis e
levavam uma vida muito melhor que a de seus vizinhos. Muitos desses, talvez,
não traziam suas esposas, a menos que elas fossem fadas ou tivessem a mente
aberta e gostassem da diversão. Mas se suas filhas fossem “jovens brilhantes”
elas viriam, possivelmente para o desgosto do pai. Ao menos algumas delas eram
iniciadas; mas se quisessem libertar-se entrando em estado extático, precisavam
da ajuda de alguém da velha raça; em outras palavras, “procurar uma bruxa”.
Elas deveriam saber ou adivinhar a fórmula pela observação, mas não tinham
atalhos especiais nem a longa e árdua disciplina espiritual para sublimar o
corpo e isolar o espírito.
Elas
devem ter adivinhado o que mesmo as bruxas sabem vagamente; há certas partes do
corpo, das quais falamos hoje em dia como
glândulas endócrinas e gânglios espinais, que podem ser estimulados. Elas conheciam
o controle da respiração e sabiam que, diminuindo a velocidade do fluxo de
sangue em algumas partes e aumentando-o em outras, produzir-se-iam certos
resultados e que concentração e uma fé ou sugestão firme, inquestionável, tinha
seus efeitos. Talvez elas não reconhecessem quando uma começava e a outra
terminava, mas usavam todas juntas e chamavam-nas “o ofício” ou magia. Elas
também sabiam que havia certos incensos que ajudavam essa concentração a
desenvolver a visão espiritual e a induzir um estado de clarividência.
Nos
tempos medievais, muitos ingredientes vinham do Oriente Próximo, mas
originalmente as ervas mais poderosas eram locais, e entre elas havia algumas
venenosas. Esse conhecimento de venenos, como eu disse, não é necessariamente
mau; o importante é como se usa esse conhecimento. Usá-los para entrar em
transe não faz mal a ninguém, exceto à própria pessoa. Mas como povos fracos
são às vezes tentados a usar esses métodos contra os opressores, o veneno seria
ocasionalmente usado por eles. Isso não era feito em larga escala, o que é
provado pelo fato de não haver grande mortalidade entre os perseguidores das
bruxas.
Enquanto
a Inglaterra era apenas semicristã, esse feliz estado de toma-lá-dá-cá
prevaleceu. Os padres das paróquias nos distritos do país fingiam não ver o que
ocorria; eles próprios assistiam às festas. Padres e mesmo bispos realizaram
ritos de fertilidade. Se um padre pusesse uma máscara e fosse às danças não
seria reconhecido – ou poderia ser reconhecido e não se preocupar.
Quando a
religião do Estado tornou-se real e oficialmente o cristianismo, e a Igreja
obteve poder verdadeiro, essas festas foram
olhadas com desdém; todas as pessoas respeitáveis deveriam conformar-se aos
princípios cristãos, ao menos em
público. E pouco a pouco morreu. O povo respeitável tudo
sabia do que se passava na floresta, mas olhava isso mais ou menos como os bons
burgueses da Escócia viam os Highlanders há trezentos anos – como um clã
horrendo, sem deus, ladrão, com quem nenhuma pessoa “ao sul da Highland”
admitiria ter relações. Mas essas mesmas pessoas respeitáveis comerciavam com
eles, compravam deles gado roubado, pediam-lhes ajuda quando tinham problemas e
mesmo se casavam eles, orgulhando-se desse relacionamento. Quando iam ao norte
dessa linha, os mais jovens membros da comunidade, em busca de aventuras ou namoradas,
iam freqüentemente para dentro desse povo impossível, e eu acho que fato
semelhante ocorreu na Inglaterra antes de 1220.
Quando o
papa considerou a cirurgia e a bruxaria como crimes, praticamente todo mundo
sabia quem era quem e a destruição do Povo
Miúdo foi fácil. Então veio a destruição das bruxas da cidade. Elas eram
fáceis, também, pois eram pessoas que viviam bem e valiam à pena ser pilhadas.
A maioria
foi exterminada pelas várias formas de tortura. Mas elas eram também as pessoas
de mais valor na comunidade, as pessoas que
faziam coisas, entre outros o ferreiro e o construtor, os fazendeiros que
plantavam alimento. Os nobres provavelmente protegiam os que podiam, mas mesmo
diversos nobres foram atacados e acusados, como a duquesa de Gloucester e
Margot Jourdemain, a Bruxa de Eye.
Dizem que
o rei Edward III salvou uma bruxa da tortura naquele famoso incidente ao qual a
origem da Ordem da Jarreteira foi
relacionada. Ele estava dançando com a condessa de Salisbury quando ela deixou
cair a jarreteira (liga) que proclamava seu alto escalão no culto. Com o bispo
por perto, isso era perigoso, então o rei, sabendo de que se tratava, apanhou-a
e a pôs em sua própria perna, dizendo: “Honi soit qui mal y pense”. Os
vitorianos, para quem uma jarreteira era um tanto vulgar, fizeram belos cartões
de Natal da “Condessa Enrubescendo”; mas as damas daquela época, e essa dama em
particular, eram duras de roer; era preciso mais que uma jarreteira para fazê-las
corar.
A ligeireza
do rei salvou a situação e quase o pôs na posição de deus encarnado aos olhos
de seus súditos pagãos. A isso seguiu-se a fundação de uma ordem de doze
Cavaleiros para o rei e doze para o príncipe de Gales, ou seja, vinte e seis membros
ao todos, ou dois grupos de bruxas. As palavras de Froissart indicam que Edward
entendia perfeitamente o significado oculto da jarreteira, pois, segundo ele,
“o rei disse a eles que isso seria um excelente expediente para unir não apenas
seus súditos uns aos outros, mas todos os estrangeiros com eles em laços de
amizade e paz”. A Drª. Murray aponta que o manto do rei como chefe da Ordem era
polvilhado com 168 jarreteiras, que, junto com a sua própria, usada na perna,
perfazem 169, ou treze vezes treze: treze grupos de bruxas.
Disseram-me
que há muito tempo as bruxas tiveram por vezes círculos assim, com um líder
comum ou cronometrista. Deve-se notar
também que o Livro Negro contendo a instituição da Jarreteira foi subtraído e
destruído pouco depois da morte do rei. Vi duas jarreteiras de bruxas; eram de
pele de cobra verde com fivelas douradas ou prateadas e forradas de seda azul.
Eram usadas no joelho esquerdo. São símbolos de alta posição.
Aliás,
alguém poderia explicar-me qual é exatamente o significado do duplo SS no fecho
da jarreteira? Às vezes dizem que simboliza a Virgem, às vezes o Espírito Santo
(Sanctus Spiritus). A ordem é dedicada à Virgem, mas não vejo como isso poderia
referir-se a ela. Também não parece referir-se ao Espírito Santo. Minha razão
para perguntar é que em todas as Athama e muitas outras ferramentas de bruxas
que eu vi – e vi muitas além das que estão em minha coleção particular – há um
certo número de sinais gravados. São sempre os mesmos, na mesma ordem e têm os
mesmos significados. É necessário que esses signos sejam postos antes de se
consagrar os instrumentos (nos tempos da fogueira, eles eram escritos em tinta
e lavados antes da consagração). O terceiro sinal é SS: ou seja, dois S, como
no fecho da jarreteira. As bruxas têm sua própria interpretação desse signo (e
não tem nada a ver com a Virgem ou o Espírito Santo).
Dizem que
preto é uma característica da Ordem da Jarreteira. O Livro Negro, contendo as constituições
originais da ordem, foi subtraído, segundo dizem, por razões secretas antes da
época de Henry V, como já foi mencionado, e desse Livro Negro veio o importante
posto de Black Rod. (Vara Negra – Oficial da Casa dos Lordes, posto instituído
em 1350. O título vem da bengala que o portador
usa, um bastão negro com um leão dourado que o encima. Ele é um assistente
pessoal do soberano, além de outras funções). Poder-se-ia pensar que deve ter
havido importantes razões para se ocultar algo antes que tal livro pudesse ser
roubado ou perdido.
O recente
Hargrave Jennings parece convencido de que havia algum mistério profundo aqui,
mas aparentemente não sabia ou, se sabia, não mencionou essa marca de bruxa,
que é também mostrada na Chave de Salomão. Tudo isso pode ser pura
coincidência, e “a coincidência matou o professor”. Mas se ninguém menciona coincidências,
há uma pequena chance de encontrar mais fatos; e é fato indubitável que a
jarreteira é símbolo de alta posição entre as bruxas e, mais, há um desenho
pré-histórico em uma rocha na França que supostamente representa uma cerimônia
mágica de bruxas: doze mulheres dançando em torno de um homem que está
totalmente nu, exceto pelas jarreteiras. Como não se usaram meias por muitos
milhares de anos depois daquilo, elas devem ter algum significado.
Após as
perseguições ferozes, era em geral impossível manter os grandes ritos, que eram
celebrados apenas muito ocasionalmente. Como os
motivos religiosos diminuíam, os ritos eram praticados principalmente por
pessoas que tinham uma tendência para o aprendizado místico e, como não era mais
possível conseguir poder do modo grandioso e fácil, outros meios para esse fim
foram cultivados. Além dessa fórmula, é necessário ter algum poder inato de
hiperestesia ou previsão que possa ser desenvolvido com a prática. Nos tempos
antigos via-se exemplos em toda parte, sabia-se positivamente como funcionava e
era fácil obter as ervas necessárias; hoje em dia, embora tendo tudo contra si,
essa prática continua de pé.
Uma
acusação muito comum mas mentirosa contra as bruxas, era que, as iniciadas eram
obrigadas a abjurar do cristianismo. Na
iniciação, uma longa declaração era lida, dizendo à candidata o que lhe seria
requerido; mas não se falava de renegar qualquer outra fé. Contavam-lhe que
poderia obter benefícios e ajuda na vida futura com o auxílio da deusa, que
nada pedia em troca. O
pacto com o diabo é besteira; o único juramento é o de silêncio e de ajudar os
irmãos e irmãs quando eles precisassem. A pessoa deveria ser formalmente
apresentada ao grupo, embora em nome seja apresentada aos Poderosos – os
espíritos dos mortos membros do culto que não reencarnaram e que se supõe estar
presentes. Não posso ver nenhuma razão real para que alguém não possa ser bom o
bastante sendo cristão não-ortodoxo e bruxa ao mesmo tempo.
Para mim,
isso parece mais fácil que ser cristão e comunista. O cristão que acha que
reencarnação é heresia, que não apóia nenhuma forma de superstição e que
pertence à Liga de Observância ao Dia do Sabá nunca dará uma boa bruxa. É
possível que os avós de algumas dessas pessoas tenham chamado o diabo de chefe
nos tempos em que falar com o diabo era considerado moderno. Pode-se argumentar
que muitas bruxas confessaram ter assinado pactos. Isso é óbvio e eu mesmo o
confessaria se fosse torturado o suficiente. Experimentos recentes dos nazistas
provam que se pode fazer uma pessoa confessar qualquer coisa sob tortura.
Confessando ter negócios com o diabo, elas eram rapidamente condenadas e
queimadas, mas evitavam entregar algo essencial. Elas confessavam usar feitiços
para ter boas colheitas, sem mencionar os métodos usados e sempre se compraziam
em contar sobre o lado alegre, o que era um anátema para o religioso.
É notável
que muito do que nossas bruxas confessaram é confirmado pelas práticas das
bruxas das Índias Ocidentais e do Congo em
nossos dias; além disso, coisas que escritores árabes muito antigos contaram são ainda praticadas por
bruxas em
Madagascar. Penso que isso deve ser mais que coincidência.
Em dias
passados, muitas crianças foram educadas como bruxas. Era fato reconhecido tratar-se
de um culto hereditário; muitas
crianças foram executadas com suas mães. Na Inglaterra, em 1718, uma bruxa
chamada Srª. Huke foi enforcada com sua criança de nove anos, assim como uma
bruxa queimada em Castledown morreu com seu filhinho, pela única razão de ele
ser filho de bruxa. Os puritanos eram fortes na Ilha de Man naquele tempo e
conseguiram a condenação. Em outras épocas, os bispos se queixavam de que era
impossível fazer um júri de Manx acusar bruxas, de forma que elas eram postas
na prisão Bishop em Peel
Castle até que morresse de frio e fome. Os Manx tinham um
fraco por bruxas, pois elas receitavam bons remédios e poções do amor e eram, até
que o metodismo se introduzisse, muito respeitadas.
A maioria
delas nasceu no culto, mas por vezes forasteiras eram recrutadas entre aquelas
que desejavam ganhar poderes ocultos, aquelas que vinham por curiosidade e
principalmente, acho eu, aquelas que se apaixonavam por um dos membros. A
sociedade no culto significava tortura e morte se descoberta, mas prometia
momentos de felicidade, um alívio parcial no ciclo diário de trabalho e tédio e
descanso e camaradagem com o renascimento entre aqueles que ainda amavam este
mundo – de fato, uma chance de coisas boas neste mundo e um salvamento do
purgatório e do inferno no próximo.
Elas
acreditavam firmemente nisso e portanto arriscavam iniciar seus filhos. Se elas
as traíssem, significaria tortura e morte para elas. Se fossem fiéis, mesmo
assim outra pessoa poderia trai-las, com os mesmos resultados. Mas algumas
delas pensavam mais na vida futura e na promessa: “Se leal você caminha para a
pira, as drogas chegarão a você, você se sentirá aniquilada, sim, mas irá para
a morte e para o que está além, o êxtase da deusa”.
A fé do
culto está reunida em um livro de bruxa que eu possuo e que afirma que elas
acreditavam em deuses que não eram
todo-poderosos. Eles desejavam o bem ao homem, desejavam a fertilidade para o
homem, animais e colheitas, mas para atingir esse fim eles precisavam da ajuda
do homem. Danças e outros ritos davam essa ajuda. Esses ritos eram baseados em
magia simpática, a idéia de que os semelhantes se atraem, e também que “o que
dá prazer ao homem, dá também prazer aos deuses.” Possivelmente, elas pensavam
que os deuses podiam sentir o prazer dos homens. Havia também a idéia de que os
deuses amavam o homem e compraziam-se com sua felicidade, como uma oposição à
idéia de deus raivoso que odeia a felicidade do homem. Nesse livro, há os
seguintes versos, sem indicação de quem os teria escrito:
A Bruxa Relembra seu Último Encantamento
(No resumo
do Capítulo, a palavra usada foi “Encarnação” – que faria mais sentido aqui – e não
“Encantamento”)
Eu me lembro, ó fogo,
Como tuas chamas uma vez inflamaram minha carne,
Entre bruxas retorcidas por tua chama,
Agora torturadas por ter contemplado o que é secreto
Mas para aqueles que viram o que vimos
Sim, o fogo nada era.
Ah, bem me lembro dos edifícios iluminados
Com a luz que nossos corpos emitiram.
E sorrimos, ao contemplar o vento das chamas por trás de nós,
O fiel, entre os infiéis e cegos.
Ao salmodiar das orações
No frenesi da chama
Cantamos hosanas a Vós, nossos Deuses,
Em meio ao fogo doador de força,
Dedicamos nosso amor a Vós da Pira.
Penso que
isso mostra em que elas acreditavam. Muito freqüentemente se diz: Oh, mas as
bruxas eram executadas apenas por serem
envenenadoras. Agora livremente admito que houve alguns casos de envenenamento
suspeito, em que também se alegou bruxaria; houve também alguns casos de
bruxaria em que se alegou envenenamento. Mas houve poucos destes últimos; a
maioria dos casos era tida simplesmente como bruxaria, ou porque havia alguma
causa para suspeitar de conexão com heresia, fadas ou conhecimento proibido ou
por rancores pessoais, não comparecimento à igreja, doações insuficientes à
Igreja, ou simplesmente porque eram pessoas que se valia a pena pilhar. Houve
razões de condenação verdadeiramente inacreditáveis.
CAPÍTULO XI
ALGUNS OUTROS ASSUNTOS
Acho que
devo deixar claro que, até onde vai minha experiência, embora o grupo devesse
ter tradicionalmente seis casais e um líder no círculo, hoje em dia
freqüentemente há muito menos. Em um encontro, se houvesse mais de treze
iniciados presentes, eles se sentariam fora com os não iniciados e assistiriam
ao rito religioso. Se por alguma razão eles forem chamados ao círculo, outros sairiam
para dar espaço e eles seriam então purificados para entrar. Quando os ritos
terminavam e se fechava o círculo, todos tomavam parte na dança e na festa. Se
fossem, digamos, vinte iniciados e houvesse espaço suficiente, eles
provavelmente formariam dois grupos, cada um em seu próprio círculo, com um
líder que marcaria o ritmo. Se houvesse ainda mais, formariam três círculos.
Hoje em dia, não-iniciados nunca estão presentes e as cerimônias são em geral
internas, onde haja espaço suficiente para um círculo. Além disso, embora o
ideal seja formar-se casais perfeitos de pessoas idealmente ligadas uma à outra
e em perfeita sintonia e fazer com que as pessoas se liguem umas às outras,
hoje isso nem sempre é possível; os casais certos vão juntos, outros vão
sozinhos e fazem como podem. A bruxaria hoje é certamente um caso de “se
virar”.
Devo
explicar um outro assunto. No início, eu estava confuso pela ausência da taça
entre os instrumentos de trabalho das bruxas e a inclusão de um pentáculo sem
importância, que dizem usar para comandar os espíritos; além disso, enquanto as
bruxas assumidamente praticam uma forma de espiritualismo, pedindo a espíritos
idos que voltem ou se comuniquem, elas não evocam, em geral – ou seja, comandam
- , nem espíritos nem elementais a aparecer para, por intermédio de comandos, subornos
e sacrifícios, fazer-lhes prestar serviços. Isso é mais notável porque, graças
à sua ligação com os feiticeiros, elas conhecem tais práticas. Além disse, na
explicação das ferramentas de trabalho, mencionam-se tais assuntos. A resposta
que consegui é: nos tempos da fogueira, isso era feito deliberadamente.
Qualquer menção à taça levava a uma orgia de tortura, pois os perseguidores diziam
que era uma paródia da missa; também a corrida ou dança no bastão (“vassoura”)
foi cortada.
O
incensório e o pentáculo foram substituídos e deram-se explicações que
satisfaziam a expectativa dos perseguidores. Se todas contassem mais ou menos a
mesma história sobre o que haviam aprendido – porque era mesmo verdade e
concordava com a história das outras -, por que se incomodar com mais tortura?
A bruxa fora acusada e, se ela não fugisse ou morresse na prisão, seria
rapidamente queimada e seus problemas estariam terminados. A pobre coitada que
não era bruxa iniciada é quem era torturada muitas e muitas vezes, pois não
sabia o que dizer e não podia inventar uma história passável. Essa explicação é
a que acredito plausível. Naturalmente, por vezes, bruxas individuais podem ter
tentado trabalhar com elementais, mas o sentimento geral é que “eles geralmente
são maus, dá azar ter negócios com eles; a Deusa é doce e gentil e não gostaria
disso. É errado opôr-se a seus ensinamentos”. Claro que estou falando apenas
das bruxas que pertencem ao culto. As sábias da cidade, que liam a sorte, podem
ter feito qualquer coisa.
As bruxas
são constantemente acusadas de conjurar tempestades. Minha informante simplesmente
não sabe e, pelo sistema de magia que elas usam, não vejo como poderiam fazê-lo,
exceto, é claro, pedindo a seus deuses. Em outras palavras, “por meio da
oração”. Elas sabem vagamente que derramar água, especialmente sobre uma virgem
nua, poderia produzir chuva, mas não têm qualquer rito ou cerimônia para esse
efeito ou, se tinham, não foi preservado. Tanto na Primeira como na Segunda
Guerra Mundial, houve histórias de que os alemães eram capazes de trabalhar o
clima em causa própria e as bruxas se perguntavam se era verdade e, se fosse,
como seria feito. Sem dúvida, nos velhos tempos, parte do serviço das bruxas
era trabalhar o tempo, mas isso parece ter sido feito em linhas de bruxas
estudiosas: com seus poderes de clarividência e observação, elas sabiam que a
chuva estava chegando e só começavam a “fazer chuva” quando sabiam que ela
estava por perto.
Da mesma
forma, elas sabiam quando uma longa seca viria e podiam avisar os fazendeiros.
Se um tempo bom para as colheitas fosse esperado, elas diziam aos fazendeiros
que deixassem a colheita amadurecer; se fosse vir a chuva, que reunissem mãos
para a colheita e deixassem as coberturas prontas no caso de chuva iminente.
Elas não consideravam isso charlatanismo. Como elas dizem, metade de seu poder
vem do povo que acredita nelas e vão lhes pedir conselho. Se as pessoas
soubessem como é feito, diriam: “Vamos tentar também”; um trabalharia contra o
outro e seria o caos. As bruxas querem um bom governo, quieto, regular e comum,
com todos contentes e felizes, cheios de alegria e brincadeiras em vida,
afastando qualquer medo da morte; pelo contrário, com a velhice, a idéia da
morte seria bem-vinda, como um lugar de paz e descanso, onde se rejuvenesce
novamente e se fica pronto para outro giro na terra.
Infelizmente,
poucos períodos da história aceitaram as bruxas. Pessoalmente, acho que em Atenas
o sistema delas, ou algum parecido, obteve grande sucesso, apesar das muitas
guerras ocorridas, e eu sinto, baseado em nada mais que um pressentimento, que
isso aconteceu da mesma forma em Creta. Também é bastante possível que algo assim
tenha ocorrido no Egito, mas não tenho nenhuma evidência disso.
Acredito
que nos tempos célticos e pré-célticos as bruxas tinham bastante espaço e
usavam seus poderes sabiamente e com moderação. Em Roma, acho que havia muita
oposição de seitas conflitantes, por causa do caráter romano, da mistura da
população e, claro, do cristianismo, que junto com várias guerras e invasões as
deixou fora de circulação por mil anos.
Por volta
do tempo do fim das cruzadas, porém, a mente dos homens começou a ficar mais aberta;
o choque da total derrota e destruição dos cruzados e as novas idéias que eles
trouxeram do Oriente fizeram os homens pensar. Isso poderia trazer
conseqüências benéficas para as bruxas. Mas o papa Inocêncio III via claramente
que isso seria muito ruim para a Igreja, e seria mesmo, embora eu não o possa
ver como uma conspiração direta contra Cristo, como se disse. A tolerância
deveria ser evitada a qualquer custo; então começou a perseguição. Havia muitas
coisas que invejosos e puritanos detestavam, de forma que eliminaram a
bruxaria.
Durante a
Renascença, poder-se-ia esperar um renascimento da bruxaria; mas naquela época
as mentes dos homens, embora estivessem mais abertas, tinham também se voltado
para as magias cabalísticas e os estudiosos haviam descoberto muitos tipos
novos de veneno. Todos prometiam efeitos rápidos e fáceis de conseguir. Na
Inglaterra, no tempo de Elizabeth, havia estudo e mais liberdade de pensamento;
mas os venenos italianos chegaram ao mesmo tempo e foram usados; parece ter
havido também muitos envenenamentos por ptomaína, devido ao maior comércio e
importação de bens, e a culpa foi posta nas bruxas. O sentimento religioso
ainda era forte.
Nenhum
lado dava importância à tolerância que as bruxas pregavam. Após alguém ter
feito uma imagem de cera com a sua cara e espetado alfinetes nela, Elizabeth
ficou persuadida que o culpado era uma bruxa ou um feiticeiro e aprovou uma lei
contra a bruxaria e a magia. Praticar a magia podia levar alguém ao pelourinho,
mas houve poucas acusações e a maioria delas deve ter sido simples
envenenamento. Se alguém fosse morto com uma espada, veneno ou magia, era
assassinato, um crime contra a lei comum. O papa fizera da magia um crime e os
bispos tomavam a lei mais ou menos em suas mãos; mas não era a lei do país.
Acho que se Elizabeth tivesse tido filhos e eles tivessem continuado sua
política, teríamos uma idéia muito diferente de bruxas e os Jogos de Maio e
semelhantes ainda seriam realizados; aqui poderia ser uma Inglaterra feliz.
Infelizmente, ela morreu sem deixar herdeiros.
Na
Escócia, o conde de Bothwell era conhecido como possuidor de grandes poderes
entre as bruxas escocesas, ou talvez ele fosse o verdadeiro líder delas. James
acreditava que ele estava tentando matá-lo usando esses poderes para chegar ao
trono. Torturas terríveis e intermináveis produziram algumas confissões e a
grande perseguição começou. Os puritanos tiveram sua chance e começaram a
perseguição na Inglaterra. Dizem que as grandes rebeliões foram fomentadas
porque Charles I fez objeções quanto a condenar as pessoas à morte por bruxaria
sem evidência ou contra todas as evidências (ver Four Centuries of Witch
Beliefs, de Mervyn Peake). De qualquer modo, a caça começara de novo. Qualquer
pessoa com probabilidade de ser bruxa deveria ser exterminada, e seus filhos
também.
Apesar
disso, as bruxas ainda resistem. Elas deliberadamente nada sanem sobre os
outros grupos. Se não sabem, nada podem contar, pois quem sabe quando a
perseguição pode irromper novamente? Mas penso que devemos nos despedir da
bruxa. O culto está condenado, temo, parcialmente por causa das condições
modernas, da diminuição das casas, da pequenez das famílias modernas e
principalmente da educação. A criança moderna não está interessada. Ela sabe
que as bruxas são todas uma fraude – e aí está o grande medo. Já ouvi dizerem:
“Eu simplesmente adoraria trazer Diana para cá; ela ia amar e ela tem os
poderes, eu sei disso; mas suponha que num momento de distração ela conte na
escola que eu sou uma bruxa? Eles a ameaçariam e a importunariam e o Conselho
do Condado ou algo assim viria e a afastaria de mim e a mandaria a uma escola
escolhida. Eles fazem coisas tão terríveis com essas leis modernas...” Diana
crescerá e terá namorados, não está interessada, ou está interessada, mas se
casou e seu marido não se interessa, assim o grupo morre ou consiste de pessoas
velhas e moribundas.
A outra
razão é que a ciência a desalojou; boas previsões do tempo, bons serviços de
saúde, jogos ao ar livre, banhismo, nudismo, cinema e televisão substituíram
com vantagem a tarefa da bruxa. O livre-pensamento ou o espiritualismo, de
acordo com as inclinações da pessoa, afastaram o medo do inferno que a bruxa
fazia desaparecer, embora nada ainda tenha substituído seus maiores dons: paz,
alegria e contentamento.
CAPÍTULO XII
QUEM É O DIABO?
Acho que
é bastante conhecido o fato de as bruxas observarem quatro grandes festivais:
vigília de maio, vigília de agosto, vigília de novembro (Halloween) e vigília
de fevereiro. Eles parecem corresponder às divisões do antigo ano gaélico, com
os quatro festivais do fogo de Samhain ou Samhuin (1º de novembro), Brígida (1º
de fevereiro), Bealteine ou Beltane (1º de maio) e Lugnasadh (1º de agosto).
Diz-se que os festivais correspondentes ao meio do inverno e ao meio do verão
foram fundados em honra de deidades femininas: Brígida é uma deusa muito antiga
dos serviços domésticos e da família, Lugnasadh foi fundada por Lugaidh em
honra de sua “babá” Taillte. Dos festivais das bruxas, por outro lado, os dois
festivais de verão são em honra da deusa, em que ela tem a prioridade, e os
dois de inverno são aqueles em que o deus tem a prioridade. Na prática,
parece-me que no verão a deusa tem a prioridade, montada em uma vassoura (ou
algo semelhante) à frente do deus, se ele estiver presente; porém no inverno
ele não é superior a ela, mas apenas um seu igual; ambos correm lado a lado.
Claro que é verdade que no verão as orações principais se dirigem à deusa,
enquanto que no inverno é principalmente o deus que recebe as orações.
O Deus é
representado pelo Grande Sacerdote (se houver um) e era ele que recebia o nome de
Diabo nos antigos tempos. Eu tinha muita curiosidade a esse respeito e
perguntei uma vez, quando estava “dentro”: “Quem e o que é chamado Diabo?”
Embora membros do culto nunca usem e, realmente, não gostem do termo, sabiam do
que eu falava e disseram: “Você o conhece, o líder. Ele é o Grande Sacerdote, o
marido da Grande Sacerdotisa”.
Isso,
embora seja verdade, não era a resposta exata. Esta seria: “Ele é qualquer um
que a Grande Sacerdotisa aponte para tomar essa posição”. Na prática, ela
sempre escolhe seu marido se ele for de escalão suficiente; mas ela pode
apontar qualquer um que se encaixe, inclusive ela própria; põe uma espada na
cinta e age como um homem. Antigamente, um visitante distinto era comumente o
escolhido.
No tempo
em que o povo das florestas fazia seus encontros, o Grande Sacerdote era um homem
de grande saber no culto, um chefe tribal ou um druida; muito provavelmente
todos sabiam quem ele era. Ele era o Deus Cornudo, recebia honrarias divinas e
talvez tivesse prioridade sobre a Grande Sacerdotisa; mas, quando o povo das
raças mestiças tornou-se forte no culto, deve ter havido uma época em que o
homem mascarado (desconhecido) tomou seu lugar; muito provavelmente era um
senhor feudal normando ou um clérigo local que protegia o culto em segredo.
É muito
provável que tenha havido um acordo para que, em um encontro, o mascarado desconhecido
(que por conveniência chamarei Diabo) tomasse o lugar e, no próximo, o velho e conhecido
chefe tribal o fizesse. Parece bem provável que isso dependesse de arranjos
locais. Logo se percebeu que a congregação não-iniciada de fazendeiros,
pescadores e semelhantes tinha tanto
pavor do grande desconhecido que o
culto se tornou mais poderoso e que então, mesmo quando o antigo chefe tribal
representava esse papel, ele também vinha mascarado e incógnito. A Igreja o chamou
de “Diabo” e ele se tornou conhecido como tal.
“Se esse
misterioso homem aparecesse”, perguntei, “como vocês o reconheceriam?”, e acho que
elas fizeram piadas a esse respeito. Elas não saberiam se ele era genuíno ou
não! Isso nunca aconteceu, ao que elas sabiam; mas sempre havia a possibilidade
de alguém de outro grupo aparecer e exigir esse direito. Na verdade, a Grande
Sacerdotisa disse: “Eu falaria com ele e, se eu achasse que ele tem realmente
um grande conhecimento e eu gostasse dele e o achasse interessante, tratá-lo ia
como um visitante distinto e o escolheria naquele dia. Outra Grande Sacerdotisa
poderia pensar de outro modo”. Ela continuou: “Gostaria que um da espécie
antiga, um grande protetor, aparecesse, com uma casa bem grande e espaço para
nos emprestar para os encontros. Se ele realmente fosse um de nós, eu não me
importaria muito com seu grande conhecimento; eu o escolheria e lhe ensinaria o
ofício.”
Logo, há
uma chance para quem quiser ser o Diabo! Acho que fui bem claro. O Diabo é, ou
antes era, uma invenção da Igreja. As bruxas acharam que a visão popular de que
Satã era uma delas só aumentava seu poder e por isso o adotaram, embora nunca o
tenham chamado pelo nome, exceto, talvez, no esticador; e mesmo então, como a
Drª Murray apontou, algumas vezes a confissão sob tortura faria que ele fosse chamado
de deus, mas a transcrição feita na corte substituiria a palavra por Diabo. Não
se pode culpar as pobres bruxas por isso. As torturas que as bruxas sofreram
fariam qualquer um confessar qualquer coisa. Alguns grandes homens da época
disseram: “Se eles fizessem isso comigo eu confessaria que matei Deus Pai, Filho
e Espírito Santo e a Virgem”.
Antes de
terminar, eu gostaria de mencionar um ou dois assuntos finais que podem ter alguma
importância no assunto da bruxaria, na esperança que alguém possa me dar mais
alguma informação. Em
Rushen Abbey , perto de Castletown, algumas curiosas
descobertas foram feitas (ver artigos na obra Isle of Man Natural History and
Antiquarian Society Proceedings, março de 1935.). W. Christian Cubbon escreveu:
“Há uma outra observação que merece
menção especial. Sua importância ainda não foi explicada. Refiro-me ao
utensílio encontrado por vezes em enterros do século XVIII, a caveira com ossos
cruzados. Isso foi encontrado aqui no próprio túmulo, feito de ossos reais. As
cabeças isoladas foram encontradas com fêmures humanos cruzados sob os queixos
e pelo menos um dos esqueletos tinha esses ossos sobre seu próprio queixo; isso
ainda pode ser visto em
Rushen Abbey. Entre as discussões, disseram que essa
peculiaridade havia sido descoberta na Irlanda, mas ignorada como acidental ou
sem importância maior. Em um dos túmulos encontrou-se uma figura de bronze do deus
egípcio Osíris; Reginald Smith, do Museu Britânico, e Sir Arthur Keith dizem
que é da era pré-romana”.
Cubbon,
que os escavou, contou-me que essa figura fora encontrada no túmulo de um homem
com fêmures sob o queixo. Vi esse esqueleto; as pernas estão completas e
juntas, logo, fêmures de outra pessoa foram usados. Examinei a figura, que é o
tipo usual de Osíris, com uma espada curta e um chicote cruzado sobre o peito –
símbolos da morte e da ressurreição, acredito eu.
É
fascinante, mas improvável, pensar que o culto de Osíris tenha chegado à Ilha
de Man em data tão antiga e eu sugeriria que a imagem
foi vendida por algum peregrino inescrupuloso como a figura de um santo, ou
algo assim. Os ossos aparentemente foram enterrados nos tempos normandos primitivos
e são identificados como os do rei Olaf e sua família, massacrados em 1142 (provavelmente
as cabeças sem corpo foram penduradas em mastros). As pessoas sugerem também que
fossem piratas e por isso foram enterrados dessa forma. Mas a caveira e os
ossos cruzados só foram adotados pelos piratas no século XVII, apesar do que os
filmes e os livros para garotos dizem.
O
professor Varley, da University College, Accra, contou-me ter escavado muitas
caveiras com ossos cruzados em Lisset, distrito Leste de Yorkshire, durante a
construção de um aeroporto em 1940. Havia pressa em construí-lo por causa da
guerra e ele não tinha equipamentos para datálos; mas pessoalmente ele
acreditava serem do período viking. Ele disse ter mandado todos os seus relatórios
as sr. Elmer Davis, do Cardiff Museum, e não ouviu mais falar neles, de forma
que suas anotações não foram publicadas.
O próprio
professor Varley não tem idéia da razão ou do significado desses enterros e estava
interessado em saber de sua ocorrência em outros lugares. Assim, temos casos
desses enterros em Man, Yorkshire e Irlanda. As pessoas reverenciam seus mortos
e não fazem tais coisas por diversão; deve haver algum significado para isso. Se
fosse simplesmente o caso de pessoas que foram decapitadas, de onde teriam
vindo os ossos cruzados, e eles pertenceriam às próprias pessoas ou a alguém
mais?
Foi
sugerido que fossem casos de canibalismo, com as cabeças sendo enterradas e os corpos,
comidos. Mas canibais não enterrariam outros ossos com as cabeças e,
normalmente, quebram os ossos maiores para comer o tutano; mas esses fêmures
estão todos intactos.
O signo
da caveira com ossos cruzados é encontrado freqüentemente em antigas tumbas e cemitérios;
acredito que isso remonta ao tempo dos romanos e é o símbolo da morte e da ressurreição.
Quando me tornei maçom, ensinaram-me que a caveira com ossos cruzados representava
a “morte” e a estrela flamejante, a “ressurreição”. Essa estrela é também um pentáculo.
Como eu
disse, nos antigos tempos as bruxas usavam uma caveira e ossos cruzados para
representar seu deus quando seu representante, o Grande Sacerdote, não estava
presente. Hoje em dia, a sacerdotisa assume uma posição
semelhante à de Osíris para representar o deus em sua forma de morte, então
abre seus braços para representar o pentáculo, a ressurreição. O primeiro gesto
também representa um triângulo formado pela cabeça e cotovelos e o segundo uma
estrela de cinco pontas (pentáculo). Tanto o triângulo quanto o pentáculo têm
significados especiais para elas. Já contei a história do Senhor de Sidon e que
a caveira com ossos cruzados se tornou um talismã para a Ordem dos Templários.
Comentaristas
sempre supuseram que essa história viera de algum espião que viu e entendeu mal
algum ritual que estava sendo praticado. Embora se diga que houve muito de “político”
na perseguição aos Templários, os encarregados das perseguições tentavam tornar
as acusações plausíveis. Naquela época, muitas igrejas tinham caveiras e ossos
de santos a que eram dadas honrarias divinas; presume-se que o costume
Templário tinha algo de diferente. Como prestar honras a uma caveira era comum
em todas as igrejas, ela representaria nesse caso “morte e ressurreição”? Seria
isso honrar o “deus da morte e o que está além?” Haveria algma conexão possível
entre essas crenças e aqueles enterros?
Outra
acusação contra os Templários era que eles usavam cintos ou cordões que tinham algum
significado oculto. Por vezes se disse que esses cordões serviam para amarrar a
cabeça que eles adoravam. Diversos escritores dizem que em seus cintos estava
sua idolatria. A Igreja também acusou os cátaros de usar um cordão, insinuando
que havia algo de muito mau nisso.
A Igreja
então, na época, acusou as bruxas de conjurar tempestades, envenenar poços e outros
crimes sérios – e de usar cintos! Claro que essa poderia ser apenas uma
acusação de praxe, feita contra todo mundo; mas parece que significava algo
para o público em geral, ou não teria sido usada em tempos em que todos os
monges, frades e freiras usavam uma corda como cinto.
Escritores,
confusos com essas acusações, sugeriram que esses cordões estavam de alguma
forma ligados à tripla corda que os
brâmanes indianos usam; mas isso seria improvável naquela data. Uma bruxa tem
oito instrumentos de trabalho. Desses, cinco são usados apenas para fins específicos;
mas há três que ela deve ter em todas as operações; cordões estão entre esses
três. Por vezes, ela pode usar o cordão como cinto, para disfarçá-lo.
J. S. M.
Ward, em Who Was Hiram
Abif?, cita a lenda dos judeus sobre as 22 questões com as quais Balkis, rainha
de Sabá, testou o conhecimento do rei Salomão. Presume-se que essas questões se
refiram às cerimônias secretas de iniciação de Astarte-Tammuz. A questão 9 é
peculiar se refere claramente às coisas usadas para ritual ou magia.
Rainha de
Sabá: “Quais são os três que nunca morrem, nem precisam de pão dentro de si e que salvam os vivos da morte?”
Salomão:
“O bastão, o cordão e o anel”.
O bastão
é a “varinha” do condutor de almas, que as leva ao submundo. O cordão é a corda
com que o candidato é amarrado, uma vítima de bom grado preparada adequadamente
para o sacrifício. O “anel” simboliza a Vesica piscis do renascimento.
As bruxas
acreditam que muito de seu conhecimento veio do Oriente e acham que há práticas
de bruxas descritas na Cabala, notadamente os versos 964/969 da Assembléia Mais
Sagrada do Livro de Zohar e em outros lugares. Coisas similares ocorreram na
maioria dos cultos religiosos na mesma época, mas acho que foi um cabalista que
mostrou essas passagens a elas.
Em
referência à história que as bruxas me contaram sobre seus disfarces e corridas
para assustar as pessoas, mencionarei o seguinte, citado por Christina Hole. A
srtª Burne, em
seu Shropshire Folklore , relata uma história contada por uma
garotinha que estava com seu pai nas proximidades
de War Minsterley quando eles viram uma grande companhia de cavaleiros trajados
de forma esquisita. O pai aparentemente sabia do que se tratava e a fez
ajoelhar e cobrir seu rosto, dizendo que ela enlouqueceria se não o fizesse.
Mas a menina olhou através dos dedos e deu uma ótima descrição do líder, um
homem com uma capa verde, um chapéu verde com uma pena branca e um cinto
dourado com uma espada e um chifre de caça na mão. Havia também uma dama
vestida de verde, com uma fita branca ornada de dourado e uma adaga no cinto.
Seu longo cabelo loiro descia até a cintura. Havia uma tropa de outros que
passavam perto e não lhes causavam dano.
A velha
superstição dizia que Woden (Woden ou Odin, Deus da Guerra e da Sabedoria) estava
caçando e que ninguém podia olhar para um deus sem se prejudicar; a pessoa
seria morta ou, ao menos, cegada. Quem quer que ouvisse a caçada selvagem se
aproximando se deitaria, escondendo o rosto na grama. Garotinhas inventam
histórias; mas esta parece mais verdadeira que outras. Se ela tivesse visto tal
corrida, não a teria descrito de outro modo.
É pena
ninguém ter perguntado ao pai o que ele viu ou o que sabia. Claro que a menina pode
ter contado como acontecido a ela o que na verdade aconteceu com sua bisavó.
Deve ter existido tal tradição e muitas das bruxas seriam o que chamávamos, há
trinta anos, “jovens brilhantes”, de forma que seus sabás eram quase tão maus e
loucos quanto um coquetel tumultuado ou uma festa de Natal de antigamente,
quando as pessoas não tinham medo de se apreciar. Se fossem cavalgadas de
bruxas, fica óbvio o porquê de os cavaleiros terem nomes diferentes em lugares
diferentes. Quando a moda era o Diabo, o líder se vestiria de Satã; quando eram
outros, como Woden, o rei Artur em Somerset, Sir Walter Calverley em Yorkshire
e Wild Eric em Shopshire, sem dúvida o líder saberia se vestir de acordo.
Enquanto
eu escrevia, fui questionado: “Por que as bruxas não lhe deixam contar os nomes
de seus deuses? Seriam eles Satã ou Belzebu?” Deixem-me assegurar-lhes de que
não há quaisquer nomes de demônios. Ocultar os nomes de deuses é uma antiga
prática. Entre os deuses egípcios, os nomes reais de Amon e de outros deuses
cujo nome era sagrado são desconhecidos. Com referência ao deus que chamamos de
Osíris, Heródoto, que era iniciado, diz, falando sobre a exposição da vaca sagrada:
“Na estação em que os egípcios se batiam em honra de um de seus deuses cujo
nome não quero mencionar...” e “Neste lago é que os egípcios representam à
noite os sofrimentos daquele cujo nome hesito em mencionar”. Ele conhecia tais
nomes, mas eles eram secretos.
CAPÍTULO XIII
RECAPITULAÇÃO
O Que é o “Poder” das Bruxas?
Percebo
ter escrito 12 capítulos; assim, como este é um livro sobre bruxas, acho que
devo escrever outro para completar treze e assim dar algumas explicações
finais. Primeiro devo esclarecer – sou um humilde membro de um grupo de bruxas.
Não sou chefe ou líder de forma alguma; tenho de fazer o que me dizem.
As
pessoas frequentemente falam como se eu possuísse um grupo e pudesse mandá-los fazer
espetáculos públicos. Eu posso, e ocasionalmente o fiz, apresentar pessoas a
uma bruxa, quando a bruxa concorda de boa vontade. Nada posso fazer além disso.
Ritos
Pediram-me
para fotografar os ritos. Isso normalmente não é permitido – elas não querem ser
reconhecidas. A outra dificuldade é que os locais de trabalho são normalmente
pequenos. O círculo fica no centro e eu não poderia distanciar-me o suficiente
para focalizar o grupo, mesmo se elas deixassem.
Muitas
pessoas dizem: “Vivemos na Inglaterra a vida toda e nunca vimos uma bruxa, por isso
não acreditamos que elas existem.” Apenas posso responder: “Estive em Roma
muitas vezes e, embora sem nunca ter tido o prazer de ver o papa, não tenho a
menor dúvida de que ele existe”.
Muitas
pessoas dizem: “As bruxas usam sangue e todos os tipos de coisas indecentes em
seus ritos”. Minha resposta é: “Nunca vi fazerem
isso e minhas amigas dizem que não usam essas coisas”. Seus escritos as proíbem
de usar sangue ou qualquer coisa que possa causar dor ou medo, embora admitam
que sangue recém-derramado possa dar poder. As palavras exatas são: “O poder
brota de sangue recém-derramado, mas o uso de um animal, por exemplo, é odioso
e cruel.”
Porém,
uma amiga bruxa me sugeriu que o uso de sangue derramado de seu próprio corpo seria
permitido. O saudoso Aleister Crowley realizava ocasionalmente uma cerimônia em
que cortava seu peito e usava seu sangue, e é bastante possível que algumas
bruxas façam o mesmo. Tudo o que posso dizer é que não tenho conhecimento
disso. A mesma bruxa, em resposta a uma sugestão de um membro da Sociedade de
Pesquisas Psíquicas, disse:
“Não sei se a realização de uma série de experimentos mágicos para
observar o resultado no interesse da pesquisa psíquica poderia funcionar. Se as
pessoas tivessem apenas um pouquinho de experiência prática, elas nunca fariam
tal proposta, pois em uma operação mágica de sucesso um dos estímulos mais
fortes é o fator emocional. Antes que você possa fazer qualquer mal para seu inimigo
com uma imagem de cera, você deve sentir uma raiva genuína e espontânea, como
se fosse surrá-lo fisicamente.”
“Antes de poder fazer uma poção do amor, você deve sentir desejo genuíno
e apaixonado pelo outro. Esses estados de mente não podem ser ativados e
desativados à vontade para agradar à sociedade. Acredito que o mesmo se aplique
a projeções astrais. Os registros que temos de projeções bem-sucedidas é quase
sempre resultado de desejo forte e espontâneo. As exceções são os casos de
pessoas com saúde frágil”.
Essa é
simplesmente a opinião de uma bruxa, mas acho que é bem sustentada. Ela fala como
se conhecesse algo sobre imagens de cera, mas diz que é apenas conhecimento
comum. Até agora não encontrei ninguém que soubesse o rito exato para isso. Não
tenho a menor dúvida de que alguns ainda o conhecem, embora não o admitam. Eu
particularmente quero consegui-lo porque acho que deve estar mais ou menos
inalterado desde o tempo em que o homem das cavernas o praticava, e esse
conhecimento poderia dar-me alguma idéia sobre como o homem das cavernas pensava.
Perguntei
às bruxas qual era a origem das histórias segundo as quais elas viravam
animais. Para elas, é só uma piada; mas elas têm lembranças de histórias
confusas de que por vezes brincavam, como as crianças. Se elas estivessem
cruzando o país, por exemplo, elas diriam: “Vamos como as lebres”, e tentavam
imitar lebres correndo; ou como bodes, dando-se cabeçadas, ou como renas; e há
também uma sugestão de que nos tempos das fogueiras elas foram assim instruídas:
“Se você vir alguém se comportando como um animal, ele se torna um
animal. Se questionada, diga que você não viu nenhum homem, mas apenas uma
lebre, um bode, etc., pois se você simplesmente mentisse e dissesse que não viu
ninguém, eles podem descobrir que você está mentindo, mas se você disser ter
visto alguns bodes e acreditar nisso, você fará a cara da verdade, mesmo sob
tortura”.
Claro que
há uma crença muito difundida sobre homens que se transformaram em animais, e a
explicação das bruxas pode não ser a verdadeira, mas é a única que elas
conhecem. Em respostas a outras questões, uma delas me contou o seguinte, e eu
acho que essa crença deve ter de quatrocentos a quinhentos anos, pelo menos:
“Na crença cristã, há um Deus bom, ou um que é bom para você, que você
diz ser todo-poderoso e que deseja grandemente ter adoradores. Você não deve
pedir diretamente a Ele o que você quer, mas rezar para algum santo, que é um
homem morto, da forma como o vemos, embora alguém a quem poderíamos chamar de
morto poderoso, e você deve lhe dar dinheiro antes de esperar receber favores.
Mas por que deveria um Deus todo-poderoso, ou seus mortos poderosos, precisar
eternamente de dinheiro? Nossos deuses não são todo-poderosos, eles precisam de
nossa ajuda. Eles desejam o bem para nós, a fertilidade para o homem, o animal
e as colheitas, mas precisam de nossa ajuda para produzir tudo isso; e por
intermédio de nossas danças e outros meios eles conseguem essa ajuda.”
“Quando morremos, vamos para o domínio dos deuses, onde, tendo
descansado um pouco em seu lindo país, somos preparados para nascer de novo
nesta terra; e se realizarmos os ritos corretamente, pela graça da Grande Mãe
vamos renascer entre aqueles que amamos e nos lembraremos, os conheceremos e
amaremos de novo, enquanto aqueles que fazem o mal terão um duro aprendizado no
domínio dos deuses antes de estarem prontos para nascer de novo e isso acontecerá
entre estranhos. Nascendo de novo, progredimos sempre, mas para progredir é
preciso aprender, e aprender sempre significa sofrer. O que suportamos nesta
vida nos faz melhores para a próxima, de forma que somos encorajados a suportar
todas as provas e problemas aqui, pois sabemos que eles nos ajudarão a atingir
coisas maiores. Os deuses nos ensinam a buscar o tempo em que não mais seremos
homens, quando nos tornaremos um dos Poderosos.”
“A nossa religião é de amor, prazer e entusiasmo. A frágil natureza
humana necessita de um pouco de calor e conforto, para nos aliviar da dureza e
da miséria da vida e da fria austeridade da pregação da Igreja – conforto no
coração, não em algum distante paraíso além do túmulo. Adoramos o divino
espírito da criação, que é a Primavera da Vida do mundo e sem o qual o mundo
pereceria. Para nós, esse é o mistério mais sagrado e santo, prova de que Deus
está dentro de nós e cujo comando é: “Crescei e multiplicai”. Tais ritos são
feitos de maneira sagrada e reverente.”
Outra
diz:
“Sempre escolhemos aqueles que têm um poder inerente e lhes ensinamos;
eles praticam um com o outro e desenvolvem esses poderes. Buscamos apenas viver
sossegadas e adorar nossos deuses do nosso modo, apreciar-nos como quisermos e
ficarmos contentes e em
paz. A Arte só vem quando se desenvolve o poder próprio e não
com o toque de uma varinha mágica. É uma estranha experiência mística. Você se
sente diferente, como se muitos dejetos houvessem sido jogados fora. Há algum
estranho mistério na adoração, delicado como um sonho. É como se eu estivesse
em um transe durante os ritos; mal posso me lembrar do que aconteceu; algo
esbarra em minha alma e sempre penso nisso com entusiasmo – os velhos segredos
de alegria e terror aceleram minha circulação”.
Lembre-se
disso: você nunca avança se seu sangue não for agitado e acelerado, pois “sangue
é vida”. O fato é que os ritos afetam a maior parte, senão todas, as pessoas de
um modo curioso e elas normalmente se sentem muito melhores após realizá-los.
Isso não é apenas sugestão, pois iniciados que nada sabem sobre isso sentem
exatamente o mesmo.
Nos
velhos bons tempos, quando você se afastava um quilômetro da aldeia, podia ter certeza
de que não estava sendo espionado, pois todos os que não eram do ofício se
apavoravam com o escuro, de forma que era possível realizar as antigas danças,
com muita música, gritos agudos, cantar e fazer todo o barulho que se quisesse.
Mas hoje em dia precisamos trabalhar em pequenas salas, em que não se pode
fazer nenhum barulhinho sem que os vizinhos reclamem. O resultado é que as
velhas danças estão sendo esquecidas. A dança do círculo pode ser mantida, desde
que se dance em silêncio, mas os chamados – longos gritos agudos, que vibram e
produzem terror – não podem ser usados.
A espiral
ou dança do encontro é realizada às vezes, se houver espaço. É uma espécie de
dança “siga o líder”, sendo normalmente a sacerdotisa a liderar, dançando no
sentido horário em uma espiral em direção ao centro e virando-se de repente
para desenrolar a espiral. Quando faz isso, beija cada homem com quem encontra
e as outras mulheres fazem o mesmo. Elas dizem que se chama dança do encontro
porque antigamente as pessoas vinham de lugares distantes e não se conheciam e
isso era feito para que se apresentassem. Mas um homem me contou ter dançado
isso em um pátio de igreja quando era menino; então pode ser simplesmente uma
brincadeira de criança que as bruxas emprestaram ou vive-versa. Hoje em dia, a
única música que elas podem ter é uma vitrola, ou por vezes um afoxé, um
chocalho ou um tamborzinho, tocados de leve.
Há quinze
anos, ouvi muitas das antigas melodias. Infelizmente, nada sei de música e não pude
anotá-las. Elas me mostraram um truque esquisito com músicas que descrevi em
minha obra High Magic’s Aid, no capítulo chamado “Música Magia”. Elas me contaram
que podiam fazer-me enlouquecer, não acreditei, então elas me disseram para
sentar, e me ataram em uma cadeira de forma que eu não pudesse sair. Uma delas
sentou-se em frente tocando um tamborzinho; não uma melodia, apenas um tum-tum
monótono. Estávamos rindo e conversando no início... Pareceu um tempo longo,
embora eu pudesse ver no relógio que não era. O tum-tum-tum continuava e eu me senti
idiota: elas me olhavam rindo e esses risos me deixavam com raiva. Percebi que
o tum-tumtum parecia um pouco mais rápido e meu coração batia bem forte. Senti
ondas de calor, estava com raiva de seus risos idiotas. Repentinamente fiquei
furioso e quis pular para me desprender da cadeira; consegui me levantar e
teria ido embora, mas logo que comecei a me mover elas mudaram a batida e minha
raiva passou.
Eu disse:
“Isso é apenas sugestão”, mas elas insistiam que era algo mais – era um velho segredo
e podia ser usado para fazer homens se enervarem antes de uma tarefa. Li que no
exército de Napoleão havia tambores para tocar o pas de charge que faria com
que os soldados lutassem com vontade; suponho que as gaitas de fole de guerra
dos Highlanders tivessem um efeito semelhante.
Livros
antigos falam de uma dança de roda das bruxas em um círculo, olhando para fora,
algo como a posição das damas na primeira parte da dança Paul Jones. Ninguém a
quem perguntei já havia visto isso. Há, porém uma espécie de quadrilha, com os
casais cruzando os cotovelos, que cheguei a dançar, mas acho que é uma dança
para os bem mais jovens. Também vi um tipo de Volta, que se dança só, avançando
três passos e voltando um, mas nunca as vi dançar isso em pares, possivelmente
por causa do pequeno tamanho da sala e da falta de música apropriada. Se
houvesse espaço, acho que seria uma dança bastante apropriada e acredito que o
que diziam há trezentos anos é verdade: “Uma nova dança de bruxas chegou à
França vinda da Itália e é um furacão, todos a estão dançando”.
Antes
dessa época, praticamente todas essas danças eram muito certinhas; acho que a
Volta foi a primeira em que realmente se pegava o parceiro e a partir disso
desenvolveu-se a valsa. No início, a valsa foi estigmatizada como “uma dança
extremamente indecente”, pois os parceiros ficavam abraçados o tempo todo.
Encontrei
esses versos em um livro de bruxa. A proprietária não lembra de onde foram copiados
ou se são antigos ou modernos, se foram escritos por alguém que viu a dança ou simplesmente
por alguém com uma imaginação vívida. Assim, com a permissão do autor desconhecido
e congratulações por ter feito uma bela descrição de uma cena imaginária,
reproduzo:
“O crepúsculo acabou e a noite
Chega a seu zênite, e além da
corrente
Dançam as bruxas frenéticas, belas
como um sonho
Em um jardim, nuas sob o olhar de
Diana
Incensórios acesos no doce altar,
iluminam
Brilhos nas águas, cheios de vapores
moventes,
Risonhos e móveis, brancos ombros
brilham.
Oh, que alegria e maravilha nesta
linda visão!”
O autor
evidentemente não acreditava na lenda da bruxa velha. No volume LXIII de
Folk-Lore de dezembro de 1952, impresso em coletânea, há um artigo extremamente
interessante da Drª. Margaret Murray, com a reprodução de uma pintura da
Sheffield City Art Galleries; e a existência dessa pintura deveria, em minha
opinião, ser bem mais conhecida. Cito o que a Drª. Murray diz sobre ela:
“A idéia moderna popular de que uma bruxa é sempre uma velha malévola é
inteiramente errônea. Havia quase tantos bruxos quanto bruxas; as bruxas tinham
assentos nos Conselhos de Rei e tomavam parte nos negócios do Estado; elas exerciam
o poder, frequentemente com grande habilidade, e por vezes foram as reais
mandatárias do reino, o poder por trás do trono; eram consultadas pelos maiores
da terra em casos de dificuldades públicas ou privadas. Nas aldeias, elas eram
as conselheiras para toda doença de mente e corpo. Na época em que Reginald Scot
escrevia, em 1584, esse bruxo tinha tanto orgulho de sua posição que usava um
uniforme para distingui-lo do povo comum. Mesmo antes, a bruxa se cobria de
pele de carneiro preta e pele de gato branca, com adornos de metal polido e
pedras brilhantes. Retratos contemporâneos autênticos são extremamente raros,
embora conheçamos um punhado deles. A ilustração aqui mostrada é de uma pintura
do século XVII e retrata um bruxo com seu familiar. Todo o aspecto do homem
mostra que ele estava habituado ao poder e seus ornamentos mostram que ele era
uma pessoa de alguma posse. O soberbo gato em seus braços está claramente
contente em estar lá, meio hipnotizado pelas carícias dessas mãos fortes e
hábeis. A pintura mede 19x14 cm e está em exibição na City Art Galleries,
Sheffield. A carne é da cor de carne normal em retratos do período; o chapéu é
verde médio com antenas e sinos; o casaco é avermelhado; o fundo é preto. O
gato é da cor real de um gato de bruxa, ou seja, malhado de castanho.”
Como a
Drª. Murray enfatiza, e como me empenho em mostrar neste livro, as bruxas são uma
classe de pessoas muito útil e boa. Robert Graves, em sua obra Seven Days in
New Crete, mostra um mundo ideal em que as pessoas corajosamente experimentam
todos os tipos de governo e decidiram retornar ao tipo de governo da antiga
Creta, em que havia um rei para governar e dar ordens e que era, porém,
“removido” ocasionalmente, enquanto o governo do país era confiado às bruxas,
que tomavam a sério suas responsabilidades, não sendo permitida as
politicagens. Se o povo estava aborrecido ou quisesse uma guerra, estava livre
para fazê-la, mas apenas tinha permissão para lutar em certas áreas em que não
provocariam dano; as únicas armas permitidas eram bastões, que garantiam o
máximo de luta e diversão com o mínimo de gasto e dano. Acho que no geral isso não
foi escrito como piada, mas como ideal.
As bruxas
acreditam que, ao representar um papel, você realmente assume a natureza da coisa
imitada. Essa é na realidade a base da magia do homem das cavernas. Fazendo a
imagem de argila do animal que se deseja matar, e conhecendo seu nome,
estabelece-se uma ligação com ele, de forma que espetar a imagem dá ao homem o
poder de matar o animal. O fato de essas crenças parecerem brincadeiras para
alguns não altera o fato de os homens primitivos realmente se comportarem dessa
forma, assim como as bruxas. Representando o papel da Deusa, a Sacerdotisa estaria
em comunhão com ela; da mesma maneira o Sacerdote, agindo como o Deus, torna-se
um com ele em seu aspecto de Morte, o Consolador, o Confortador, o portador de
uma pós-vida feliz e da regeneração. O iniciado, ao se submeter às experiências
dos deuses, vira um bruxo.
As bruxas
perceberam que essa comunhão não ocorre todas as vezes que alguém assume a posição
da Deusa, mas logo viram que fazendo desse modo elas começavam a receber
vibrações, que cresciam cada vez mais de intensidade quando o transe vinha.
Elas SABEM! É inútil dizer: “Isso é apenas sugestão, ou a mente subconsciente”.
Elas respondem: “Nós concordamos totalmente; sugestão ou mente subconsciente
são simplesmente algumas das ferramentas que utilizamos para ajudar a abrir a
porta”.
Como
indicado antes, tenho poucas dúvidas de que antigamente, se para ir a uma festa
fosse preciso uma longa viagem pelo país, elas diriam: “Vamos como lebres”, ou
algum outro animal, e imitariam os movimentos dos animais, pensando, de modo
místico, ter assumido a natureza do animal. Pode ter sido, em parte, uma
brincadeira; mas o que quer que fosse, descansava suas mentes durante uma longa
e tediosa jornada e elas sem dúvida acharam que podiam ir mais longe e mais rápido
com menos esforço consciente do que se andassem do jeito comum. Na terminologia
moderna, diríamos que elas estimulavam sua mente inconsciente. Este é um caso
de: “Se você não experimentar por si mesmo, nunca vai acreditar. Depois de experimentar, você não acredita,
você SABE”.
E, uma
vez que você conheceu a Deusa, haverá algo mais que importe? Para atingir esse estado
há muitos caminhos e dançar talvez seja o mais fácil; os chamados e cânticos
ajudam, a atitude dos outros membros é da maior assistência – mas o verdadeiro
segredo está dentro de cada um e, até certo ponto, no parceiro ou assistente de
cada um na Arte, e não é algo que possa ser forçado. Um conhecimento quieto de
que você o fará e uma performance estável e regular nos ritos são todo o
realmente necessário, embora haja algumas coisas que ajudem. Atalhos são úteis,
mas devem ser usados com cuidado, pois às vezes eles podem desviar do caminho
ou demandar ainda mais trabalho.
Deve-se
primeiro acreditar que é possível; então, usar o método, ou de preferência uma
combinação de métodos que possam ser aplicados juntos. Uma vez que se atinja o
êxtase, tem-se a certeza de que ele existe e que pode ser atingido de novo.
Deve-se banir da mente todos os sentimentos de não posso e fixar: “POSSO E
VOU”. (Jâmblico, em
seus Mistérios , diz: “Se a pessoa souber como, pode pôr em
movimento forças misteriosas que são capazes de contatar a vontade de outra;
direcionar suas emoções como o operador desejar; isso pode ser feito com a palavra
falada. As cerimônias propriamente realizadas, ou que procedem de um objeto
propriamente carregado de poder, chamamos magia”.)
Há diversos
poderes espirituais que muitas pessoas não reconhecem como tal, como as várias
formas de inspiração, música e poesia, clarividência e consciência mágica; mas
a maior de todas é o amor. Todos esses apoios podem ser empregados sob
instrução, pois há dificuldades e perigos em seu uso indiscriminado.
Sacrifício de Sangue
As
primeiras bruxas que conheci negam ter usado sangue de qualquer maneira – e
acho que elas falavam a verdade, de acordo com o que entendiam. Já as citei
quando disseram que, embora sangue recém-derramado possa dar algum poder extra
em um momento crítico, seria errado ou pecaminoso matar animais com esse
propósito e que elas nem pensariam em fazê-lo. Realmente ,
naquela época, eu não via como isso poderia encaixar-se em seu sistema de magia.
Ultimamente, porém, alguém com quem falava sobre isso, me fez notar que não era
estritamente necessário matar algo; que se podia derramar sangue do próprio
corpo e que o saudoso Aleister Crowley, como mencionado anteriormente,
ocasionalmente realizava um rito em que cortava seu próprio peito e fazia uso
do sangue. Tradicionalmente isso ajuda a materialização em cerimônias de
evocação.
Claro que
é bem conhecido que no Grande Mistério da Magia o mago é sempre vítima, em um
certo sentido. As pessoas que conheci
nunca tentaram a materialização; mas menções de tais práticas ocorrem em
rituais, etc. De forma que elas devem ter sido praticadas no passado e é
possível que muitos grupos de bruxas, que não conheço, ainda usem tais métodos
atualmente; ou seja, sangue para obter certos resultados. Claro que a velha
acusação de matar bebês ainda não batizados é ridícula; foi inventada apenas
para assustar as pessoas para que batizassem seus bebês e pagassem as taxas.
Era impossível que um grande número de bebês não batizados desaparecesse sem
que a polícia começasse a fazer perguntas.
O Sabá
Perguntei
a minhas amigas qual era o verdadeiro significado do Sabá e elas não sabiam. Tinham
conhecimento de que os livros dizem vir de Sabazius, identificado com Dionísio
e Zeus, também conhecido como o judeu Oreb, Deus de Sabaoth. Plutarco, em
Synus, volume IV, 6, disse que os judeus adoravam Dionísio e que por isso seu
Sabá fora assim chamado por causa de Sabazius, que era uma de suas formas.
Minhas amigas concordam que o culto de Dionísio tenha algo a ver com o delas.
Isso fica claro em alguns dos rituais. Elas também leram que os primeiros
judeus estabelecidos em Roma foram expulsos por causa da lei que proibia
adoradores de Júpiter Sabazius de viver em Roma; mas não conseguem conciliar o
culto judeu com o delas. As que pensaram sobre o assunto têm uma teoria de que
é simplesmente uma palavra tomada emprestada dos cristãos, logo que a
cristandade chegou à Bretanha.
Não
deveria haver padres residentes no “estrangeiro”, os distritos de bruxas, e os serviços
para a renovação de interesse seriam realizados por padres itinerantes,
possivelmente aos domingos, e a frase “Sabbath Meetings”, (Encontros de Sabbath
– termo antigo para o domingo cristão, o dia do descanso – N.T.) acabou se
referindo a eles. Então, a palavra Sabá devia ser tomada pelos pagãos como
significando uma reunião religiosa com cantos barulhentos. O termo “Sabá das
Bruxas” deve ter sido aplicado aos encontros pelos próprios cristãos como forma
de gozação e adotado de fato como piada pelas bruxas. Mas minhas amigas não
dizem que isso é necessariamente a verdade, apenas sua teoria de como a
história pode ter ocorrido.
As Bruxas Podem Fazer Poções de
Amor?
As bruxas
têm muitas fórmulas para todos os tipos de poções, embora poucas as usem hoje em
dia; se separarmos as práticas supersticiosas, elas trabalham principalmente no
sentido de forçar a vontade da pessoa em um objeto com o fim de influenciar a
mente indecisa: “Seja bravo, nada pode lhe fazer mal, o objeto de sua afeição
vai amá-lo”, coisas assim. Junto com isso, porém, há instruções para o uso da
poção e duvido que sem elas o feitiço fizesse efeito. Por exemplo, um feitiço
para unir dois jovens termina com: “Tente assegurar-se de que o casal seja
deixado a sós, em circunstâncias emocionantes e, se possível, perigosas (ou
deixe-os pensar que são perigosas). Logo eles começarão a se ligar um ao outro;
então deixe-os saber que um feitiço de amor foi feito. Se eles forem do culto,
faça-os realizar os ritos juntos e o feitiço logo vai agir”.
Se eu tivesse apenas um quarto de
minha idade, adoraria que alguém pusesse esse feitiço em mim!
É Possível que as Bruxas Causem Mal
às Pessoas?
Esta é
uma pergunta que me fazem sempre. Apenas posso dizer que não acho nem que elas tentem.
Não conheço feitiços com esse fim. Mas qualquer um pode fazer um novo feitiço
para si; a maneira das bruxas de treinar casais para trabalhar juntos, e então
vários casais para se juntar ao trabalho de maneira a formar uma bateria de
vontades humanas é para mim um dos modos mais eficientes de se fazer coisas.
Acredito ser um fato histórico que, no século XIII, o papa Inocêncio IV, com
uma bula Elsi Animarum, datada de 21 de novembro de 1284, tenha ofendido muito
os dominicanos; e nasceu um provérbio no Vaticano, A Litaniis Predicatorium,
Libera nos Domine, que quer dizer “Das litanias dos dominicanos, Senhor,
livrai-nos”. A causa foi uma oração especial que os dominicanos recitavam
contra o papa todos os dias após as matinas; ele morreu em menos de um mês.
Pode-se pensar que um papa não se assustaria até a morte pelas orações de
alguns monges; parece haver alguma validade objetiva no processo.
Ouvi
dizerem em circunstâncias similares: “Claro que é só uma coincidência, mas ele
está bem mortinho!” e há muitos anos me lembro de ter lido em jornais sobre um
curioso processo em Nova
Iorque em que provas haviam sido trazidas à corte para
afirmar que um certo ramo não-ortodoxo da Igreja da ciência cristã supostamente
se encontrava regularmente e dizia, após as orações: “Pensemos no Irmão –
queremos bem a ele, queremos que ele esteja no melhor lugar para ele, sete
palmos abaixo da terra”, e fixavam firmemente a idéia do Irmão como estando
morto e enterrado em suas mentes. Dizia-se que eles haviam assustado mortalmente
muitas pessoas desse modo. Acredito que finalmente uma injunção contra essas
práticas foi garantida, mas não tenho certeza. Assim, talvez uma bruxa possa
fazer o que monges e cientistas cristãos fazem.
Marcas de Bruxas
Nunca vi
nem ouvi falar nelas entre as bruxas. A Drª. Murray sugere que eram tatuagens feitas
como meio de recognição. Acho que é muito provável que nos tempos das fogueiras
algo do tipo fosse usado, mas as bruxas que conheço nunca ouviram falar nisso,
exceto nos livros da Drª. Murray ,
Witchcraft in Western Europe e The God of
Witches, pelos quais elas se interessaram muito. As bruxas sentem ter uma dívida de gratidão com a
Drª. Murray por ser a primeira a lhes contar que elas não eram envenenadoras,
demonistas ou impostoras, como praticamente todos os escritores as chamam.
A única
marca distinta que conheço é que damas de um certo grau têm o direito de usar
um bracelete com seu nome e grau gravados e, como os não-iniciados não poderiam
reconhecê-lo, elas frequentemente os usam em público. Outra
bruxa obviamente poderia reconhecê-los, mesmo a certa distância. Há também uma
ordem mais alta, a jarreteira das bruxas; mas esta nunca é vestida de forma a
poder ser vista em
público. Mencionei um colar, mas este pode ser de qualquer
tipo, desde que seja bem chamativo. Elas não conhecem a história de sua origem
e significado; é apenas o costume. Eu mesmo acho que deve ser alguma história
que diz que a deusa usava um colar; acredito que Astartéia sempre usava um e
era conhecida como a Deusa do Colar; fora isso, era “vestida de céu”, como se
diz na Índia. Conheci uma ou duas bruxas que usavam talismãs em seus colares,
mas eram principalmente astrológicos, feitos só para os proprietários, e não
comportavam signos de bruxas, de forma que me inclino a pensar que o importante
é o colar em si. (Diana de Éfeso usava um colar de bolotas; muitas deusas
celtas o usavam também. Em encontros de bruxas, todas as mulheres devem usar
um. Quando os objetos rituais estão sendo arrumados para um encontro, alguns cordões
de contas são postos à mão, para que, se alguma bruxa não tiver um colar, ela
possa emprestar um para a ocasião. Lembro de terem dito a uma moça que chegou
com um pequeno colar de pérolas: “Você sabe, querida, que
não deve fazer isso: pegue um adequado desta caixa, algum que possa ser visto”.
Elas não podem me dar nenhuma razão para isso, exceto o fato de ser óbvio que
uma bruxa deve usar um colar.)
Colares
eram importantes para os celtas e saxões. Algumas importantes sacerdotisas
devem ter iniciado a moda. Graças à Deusa, não somos atormentados com pessoas
no culto que querem sempre mudar a moda. Monsieur Dior não encontraria aqui
nenhum comprador para seu New Look. Estamos muito contentes com o velho Look.
As Ferramentas das Bruxas
Não há
lojas de suprimentos para bruxas, então uma bruxa pobre normalmente têm de
fazer ou improvisar suas próprias ferramentas; um noviço frequentemente é
apresentado com um Athame e é claro que em uma família de bruxas sempre há
velhas ferramentas. As mais antigas são sempre preferidas, pois supõe-se que
elas têm Poder.
Se não é
possível conseguir uma dessas, pode-se tentar fabricá-las; já vi muitos belos trabalhos.
As mulheres normalmente têm ajuda para fazer suas ferramentas se elas não as
possuem de família, mas algumas delas são ótimas artesãs também. Os
instrumentos podem ser de construção bem simples, mas na verdade, como são
usados para fins religiosos, é bom tentar fazê-los o mais bonitos possível.
Claro que
a bruxa média não tem um conjunto completo de ferramentas; nem todas têm uma
espada, por exemplo. Um Athame (faca de bruxa), um incensório, um cordão e uma
ou duas outras ferramentas são suficientes para o trabalho. Para as iniciações,
um conjunto completo de ferramentas tem, é claro, que existir; mas normalmente
elas pertencem ao grupo.
É muito
divertido ver quão hábeis são algumas bruxas em disfarçar suas ferramentas de forma
que elas pareçam outra coisa; de fato, elas são frequentemente outra coisa, até
serem ajeitadas do modo próprio para uso. Para o benefício dos interessados,
espero realizar uma pequena exposição de ferramentas de bruxas em 3 Thackeray
Street, Kensington Square, Londres; eu também possuo muitas que gostaria de
mostrar a qualquer visitante do Museu de Magia e Bruxaria, chamado localmente de
Moinho das Bruxas (Witches’ Mill). Castletown, Ilha de Man.
As bruxas
usam incenso em grande quantidade. Hoje em dia, elas normalmente o compram na
lojinha da igreja mais próxima, mas algumas fabricam o seu próprio; elas fazem
muito segredo a respeito disso e eu acho que elas põem algo forte nele; pelo
menos eu soube de pessoas que se comportaram bem estranhamente depois de o
terem queimado em um espaço confinado, embora ele nunca tenha feito efeito
sobre mim – ou ao menos que eu tenha percebido.
Durante a
Segunda Guerra, elas tiveram de fazer as cerimônias sem óleo de unção; mas hoje
em dia uma ou duas conseguiram um pouco. Elas mantêm seus fornecedores em
segredo, assim como a composição do produto. Tem um cheiro bom em minha
opinião, embora algumas pessoas não gostem. É um cheiro poderoso e eu acho que,
como o incenso, pode fazer algum efeito em pessoas sugestionáveis, o que não
sou; mas parte da intenção é causar um deslocamento do centro da consciência. A
melhor tradução para esse êxtase é “Levando alguém para fora de si mesmo”,
levando-o em comunicação com o deus. Mas para atingir esse estado, a lustração
(purificação cerimonial) é ao menos aconselhável; ela é, na verdade, tanto a
limpeza interior como a exterior – a velha doutrina da penitência, limpar a
alma tanto quanto o corpo; apenas desse modo o corpo está preparado propriamente
para que a Deusa desça e inspire seu adorador. Desse modo, o estado de transe
pode ser induzido, embora haja outros métodos, todos com o fim de escapar
temporariamente dos arreios da tradição, para libertar a alma; e, em outras
palavras, para dar a alguém algo a mais por que viver.
Muitas
pessoas atingem isso com drogas ou mais cruamente com álcool. Mas estes têm efeitos
extremamente nocivos no corpo e os resultados são quase sempre ilusões; então pouquíssimas
bruxas tentam essas saídas. Em tempos antigos, muitas bruxas iam para a
fogueira rindo e cantando; elas tinham a alegria da vida e da beleza e a paz da
morte, com a promessa do retorno; assim enfrentavam as chamas, por acreditarem
que iam para um mundo melhor, e morriam felizes.
O Que é o Poder das Bruxas?
Estima-se
que nove milhões de pessoas morreram sob tortura de um modo ou de outro durante
a perseguição, e possivelmente ainda mais, principalmente crianças, morreram de
frio, fome e abandono como resultado dessa cruzada de perseguição. Apesar dessa
exterminação, alguns remanescentes sobreviveram, pois as pessoas queriam correr
o risco terrível e o faziam por acreditar no Poder.
Mas o que
pode ser esse Poder? Se você perguntar a elas, dirão que é magia; se perguntar
o que elas querem dizer com magia, elas
dirão que não sabem, mas que é algo que funciona. O que pode ser esse Poder? A
resposta mais simples é mente sobre a matéria. Se você acredita em algo
firmemente o suficiente, vai imaginar coisas. Enquanto eu puder acreditar que a
mente tem muito o que fazer com isso, a resposta não me satisfará. Superstição
é crença sem evidência; ciência é testar algo e só acreditar nisso quando
houver provas adequadas. Por essa razão, a ciência está contínua e
acertadamente mudando seus pontos de vista; eles podem confundir frequentemente
causa com efeito, como quando os primeiros cientistas egípcios notaram que com
a vinda de Sirius o Nilo subia e, para grande benefício da agricultura, podiam
prever a cheia anual.
Mais
tarde, perceberam que Sirius não causava realmente as cheias, mas simplesmente
se erguia na época das cheias, o que para eles
não fazia a menor diferença. Acho que há milhares de anos alguns curandeiros
perceberam que direcionar o poder acumulado da mente dava alguns resultados na
caça. Se o poder afetava o animal ou o caçador não importava, pois produzia
resultados, e eles chamavam a isso poder, magia. Fizeram experiências com esse
poder e com métodos de tentativa e erro – supersticiosos e não provados – e por
vezes obtiveram resultados.
Uma
dessas superstições é de que havia uma conexão entre parte da coisa e a própria
coisa, de forma que se fosse possível
conseguir algum sangue, excremento ou cabelo de uma pessoa ou animal
poder-se-ia estabelecer uma ligação.
Há
cinqüenta anos, os cientistas seriam unânimes em dizer que isso não faz
sentido, que é superstição, o que realmente é, pois
não há nenhuma prova dessa ligação. Hoje em dia, porém, muitos cientistas
acreditam que tecidos vivos emanam suas próprias radiações conforme sua estrutura
celular. Uma doença que afete esses tecidos sobrepõe suas radiações às da
célula normal; cada doença tem sua própria formação de onda característica e o
paciente não precisa estar presente; uma amostra de sangue ou saliva basta.
Dizem que experiências com câmeras especiais estão sendo feitas para registrar
essas mudanças nas células.
A
radiestesia é uma faculdade que algumas pessoas possuem de receber ondas ou
raios e transmiti-los por meio de reflexos musculares a uma vara de adivinhação
ou um pêndulo. Isso também é chamado de rabdomancia, quando usado apenas para
encontrar água, e é provavelmente a força por trás das mesas girantes. Esse
fenômeno está sendo investigado hoje em dia por diversos médicos, padres e
pesquisadores em geral, pois parece dar resultados.
Normalmente
é quase uma brincadeira: esconde-se alguma coisa e o buscador a encontra com
seu pêndulo. Isso foi derrubado no começo pela telepatia, mas muitos
arqueólogos acham que tiveram bons resultados descobrindo coisas que nenhum
homem vivo conhecia. Eis o teste científico: funciona em casos suficientes para
ser de grande uso? O veredicto parece mostrar que sim. A varinha, o pêndulo ou
o que quer que se use não funciona sem contato humano; não é uma das forças
conhecidas em geral pela ciência, e a mente, a vontade, a imaginação e a crença
evidentemente representam grandes papéis. Como os livros dizem, são necessários
entusiasmo e otimismo; se se pensar que é apenas um graveto, ou que não passa
de brincadeira, os resultados serão também de brincadeira.
Todos
sabemos que o sem-fio funciona e esse parece um tipo de sem-fio natural. Esse
poder foi usado por muitos anos para testar ovos. Acredito que radiestesistas
são bastante utilizados pela polícia para encontrar os corpos de pessoas
desaparecidas. Penso simplesmente que é a força que as bruxas usam quando falam
de aumentar o poder ou a magia. A Grande Arte de usar esse poder parece ser
acreditar firmemente que se pode fazer isso e ter a feroz determinação de
fazê-lo funcionar.
A
natureza dos ritos e cerimônias das bruxas é fixar a mente no objeto do
trabalho. Pessoalmente, também acredito que eles têm grande efeito em acabar
com inibições e proporcionar um estado de mente favorável. Acho, realmente, que
há algo mais que isso para se obter por esses métodos, mas é claro que tudo
depende do que se deseja alcançar.
Dizem as
bruxas que a magia é contagiosa, que o que se fizesse a um objeto feito com
parte do corpo de um homem ou que tivesse estado em contato próximo com ele
poderia ter algum efeito naquela pessoa, mesmo à distância; elas chamam a isso
“formar uma ligação”.
‘Elas
também acreditam ser possível formar uma ligação mental sem qualquer objeto
material; mas, como diz Kipling, essa é outra
história. Citando Elementary Radiesthesia, de F. A. Archdale, página 29, temos:
“A base da radiestesia médica é que o pêndulo suspenso sobre um órgão saudável
dê uma reação, enquanto sobre um órgão doente dê a reação oposta, que
poderíamos chamar de diagnose... outros usam amostras, tais como urina, sangue,
saliva, etc., tiradas do paciente, permitindo com isso que eles levem sua
diagnose para casa”. E na página 35 encontramos: “Há instrumentos diagnósticos radiônicos...
que empregam “amostras” do paciente como manchas de sangue, tufo de cabelos... uma
diagnose ou análise completa e perfeita toma de 3 ou 4 horas de concentração,
tempo em que uma seleção de tratamento físico é feita, encontrando-se uma
combinação de drogas e remédios herbais adaptada à condição descoberta do
paciente”.
Assim,
vemos que a radiestesia foi elevada ao estágio de instrumento científico. Não
posso verificar todas essas afirmações, obviamente, mas tiraram-me uma amostra
de sangue e me deram remédios que muito me fizeram bem. Ainda estou recebendo
tratamento, com a amostra de sangue original sendo usada; foi quando eu estava
na África Ocidental, e o tratamento ainda me faz bem.
Muitas
outras pessoas têm a mesma experiência. É curioso que médicos possam acreditar
que haja uma conexão entre a amostra de
sangue tirada de mim há seis meses e que ela mostre todas as mudanças que
ocorreram em meu corpo, a menos que eles tenham provas anteriores consideráveis
de que tais coisas sejam possíveis. Contaram-me que a radiestesia é muito útil
a cirurgiões veterinários, pois animais não podem descrever seus sintomas nem
responder perguntas. Não estou dizendo que tudo o que se afirma sobre a
radiestesia seja verdade; tudo o que sei é que pareceu bom para mim e acho que
é muito curioso que por milhares de anos as bruxas acreditaram que houvesse uma
conexão entre um corpo e uma parte dele cortada, por meio da qual uma ligação
mágica pode ser estabelecida, e agora é que os médicos modernos parecem pender
para a mesma crença.
O fato de
as bruxas acreditarem que também é possível fazer ligações de outras maneiras
se não for possível obter uma parte do corpo,
ou seja, por meio de uma ligação mental, quando elas apenas estão trabalhando
na mente, não interfere no assunto.
Eu era
muito interessado na teoria de Pennethorne Hughes, conforme a página 23 de seu livro,
de que a magia foi desenvolvida pelos sacerdotes egípcios e que um ramo de seu conhecimento
veio à Europa, tornando-se a bruxaria, e o outro foi para a África Ocidental e
de lá para a América, tornando-se o Vodu. Sei que Frazer e outros mencionaram a
semelhança entre os cultos africanos do Rei Divino e os mitos egípcios e já
notei a semelhança entre certas práticas Vodu e a bruxaria européia, mas a mim
parecia que a prova da teoria de Hughes deveria estar na África Ocidental. Se
as bruxas ou bruxos doutores de lá tivessem esse conhecimento, teriam-no transmitido
à América.
Assim,
fui à Costa do Ouro e à Nigéria no inverno de 1952 e novamente em 1953. É extremamente
difícil entrar em círculos mágicos em qualquer lugar. No primeiro ano não tive
sorte; mas, após eu ter dado uma palestra adequadamente suavizada em Accra,
Costa do Ouro, em janeiro de 1954, em (entre todos os lugares) um edifício da
Y.M.C.A., seguido por uma pequena fala sobre o sem-fio, as informações
começaram a porejar, de forma que vi a magia ao modo da Costa. Claro que
percebi que eles não me contaram todos os seus segredos; do que pude ver, eles
usam dois dos processos que as bruxas usam para ganhar poder, mas esses dois processos
parecem existir no mundo inteiro.
Uma bruxa
européia aprende que “há muitos atalhos ou caminhos que levam ao centro” e usa
muitos (ou todos) deles combinados em uma operação para ganhar todo o poder
possível. Mas, hoje em dia pelo menos, ela é na melhor das hipóteses uma
amadora, que pratica apenas ocasionalmente, enquanto o africano é um
profissional. Talvez ele ache que pode fazer tudo o que quer com seus métodos,
de forma que não precisa de ajuda extra dos usos das bruxas européias. É bem
possível que eles conheçam e usem todos os métodos das bruxas ocasionalmente.
Havia uma grande dificuldade de idioma; além disso, não havia razão para que
eles me mostrassem seus segredos mais escondidos; pude encontrar apenas duas
semelhanças. Como a magia foi feita apenas para me mostrar, não posso dizer se
funciona ou não; eles porém me asseguraram que sim.
Perguntei
de onde vinha o poder e me disseram que era dos deuses locais. Eles, ao menos,
pareciam não fazer a menor idéia de que
viesse do Egito. Há abundante evidência de intercurso entre o Egito e a Costa;
mas até onde posso assegurar, há apenas uma prova, via caravanas árabes,
durante os últimos mil anos; ou seja, durante o tempo em que estados nativos
estavam sendo estabelecidos. É bem possível que houvesse estados nativos sobre
os quais nada sabemos e que eles possam ter tido comunicação com o Egito pelo
mar por intermédio dos cartaginenses e outros; mas não há provas disso. Assim,
as únicas comunicações de que temos certeza foram em uma data em que os sacerdotes
egípcios haviam sido postos fora de ação, primeiro pelos cristãos e depois
pelos maometanos, há cerca de mil anos.
Se apenas
eu soubesse exatamente qual era o sistema de magia praticado pelos sacerdotes
egípcios, seria fácil dizer. O que está descrito em livros não tem semelhanças
com as práticas das bruxas, mas é mais provável que houvesse algum sistema
secreto que elas não mencionam em suas inscrições. Tudo o que posso dizer
definitivamente é que há algumas semelhanças entre a magia européia e a usada
na Costa Oeste. Obviamente, isso não é prova conclusiva.
Europeus
vieram a essa Costa em grande número durante os últimos quinhentos anos, trazendo
todo o tipo de crenças e costumes. Como exemplo, no ano de 1485 o português Dom
Afonso D’Aleiro vivia no interior, na cidade de Benin. Credita-se a ele a
introdução de projéteis e cocos (intencionalmente), a prática da crucifixação
(não-intencionalmente), por meio dos crucifixos que ele e seus seguidores
usavam. A famosa árvore da crucifixação na cidade de Benin esteve em uso
constante até ser destruída por uma expedição britânica em 1897. Durante o
período de 1400 a
1700, as perseguições às bruxas recrudesciam, de forma que não é nada
improvável que uma pobre bruxa tenha sido voluntária para uma perigosa e nada
saudável expedição exploradora para escapar à Inquisição. Muitos reis de Benin
eram notórios magos e astrólogos. Eles poderiam ter facilmente protegido um ou
uma colega de trabalho e usado seu conhecimento; então, mesmo estando muito interessado
na teoria de Hughes e desejando saber que é verdadeira, apenas posso dizer, no
que me toca, que ela “NÃO FOI PROVADA”.
Para
recapitular, Magia Ritualística, Magia Cabalística, Arte Mágica ou Magia Negra
são tentativas semelhantes se invocar gênios, demônios ou espíritos elementais
e forçá-los a fazer eventos ocorrer, pois o praticante crê que tais espíritos
têm o poder de alterar a natureza, causar tempestades, inundações ou
terremotos, por exemplo. Eles frequentemente usam sangue, caveiras e outras
coisas asquerosas para esse propósito. As bruxas não apreciam tais métodos e
acham que seus modos são melhores. É verdade que no passado houve muitos casos
de feiticeiros empregando bruxas; mas como médiuns, quando algo de natureza
espiritualística era tentado, ou seja, tentativa de comunicação com espíritos
de seres humanos falecidos que desejam comunicar-se sem ser subornados ou
ameaçados.
A bruxa
geralmente não acredita que seja possível alterar a natureza – causar
tempestades, por exemplo; mas ela acredita que muitos dos eventos mais
importantes são controlados por alguma mente ou mentes humanas, com as quais é
bastante possível formar uma ligação e assim influenciar as mentes de outros
(humanos ou animais) por meios que só posso descrever como uma espécie de hipnotismo
de longo alcance, sendo que os resultados dependem de quanto poder foi erguido,
da habilidade para dirigi-lo, da sensitividade (ou algo parecido) no cérebro na
outra ponta e se eles são opostos à idéia que vem a suas mentes ou não; e que
essas mentes podem ser influenciadas mesmo se alguma contra-influência forte é
exercida.
É
perfeitamente possível influenciar mentes de pessoas em grande número para
atingir objetivos próprios. John Wesley, Gladstone e Hitler o fizeram em larga
escala. Nenhum deles mudou as mentes de todas as pessoas com quem tiveram
contato; mas a influência foi suficiente para mudar a História do mundo e não
foi exercida justificando-se com o povo. Eles simplesmente puseram a idéia na
cabeça das pessoas e a martelaram. Todos os políticos fazem ou tentam fazer isso.
As bruxas usam uma técnica diferente para fazer a mesma coisa. Elas não têm
sucesso em todas as operações e é difícil para mim saber exatamente quantos de
seus sucessos se deveram ao acaso; mas elas parecem ter um número notável de
sucessos.
As
pessoas me dizem: “Isso é fácil; ou elas têm sucesso ou não, tendo uma chance
de 50% de sucesso”, citando: “Se você jogar cem moedas no ar, cerca de
cinqüenta vão cair com a coroa para cima”. Mas não é assim tão fácil Como disse
a bruxa ao homem da pesquisa psíquica: “Para fazer magia, você deve entrar em
frenesi; quanto mais intenso você se sente, maior a chance de sucesso”.
Simplesmente não se pode conseguir o número necessário de pessoas que fazem
isso apenas por divertimento ou se é mais provável que aconteça naturalmente;
as chances são então de 80 a
90% contra.
Outras
pessoas me dizem: “Se você está determinado o bastante pode forçar qualquer
coisa a acontecer sem ter de recorrer à bruxaria”, citando: “Napoleão disse: “A
palavra impossível não existe no vocabulário francês””, mas como disse uma
bruxa quando lhe contei isso: “Suponho que Napoleão tenha dito isso na Córsega
quando pusemos em sua cabeça que lhe era impossível cruzar o Canal da Mancha”.
Vi coisas
que estou proibido de falar e sou assumidamente supersticioso pelo que vi do poder
das bruxas. Também é fácil ver até onde essa superstição pode levar e sei que
rirão de mim. Posso agüentar. Como eu disse antes. O trabalho de um antropólogo
é investigar o que as pessoas fazem e em que acreditam, não o que os moralistas
dizem que elas fazem e acreditam. Eles podem tirar suas próprias conclusões e
dar à luz qualquer teoria, desde que deixem claro que são apenas suas próprias
teorias e não fatos provados.
Já falei
de como as bruxas realizam certos ritos e acreditam que tiveram sucesso influenciando
as mentes das pessoas que controlavam as barcas de invasão. Essa é puramente
minha própria teoria e a fundei assumidamente na superstição, mas acho que elas
poderiam realizar ritos similares para influenciar as mentes daqueles que
controlam a bomba de hidrogênio. Tendo dito tudo o que me foi permitido dizer,
devo terminar. Espero que esse livro tenha sido de interesse para você, leitor,
e, como as bruxas dizem umas às outras: